Videoclipes sem cortes – Top 5 Postagem temática

Sem cortes, sem sangue. Alguns arranhões, cicatrizes discretas.

Basta uma boa ideia. Liga a câmera e deixa rolar!

Top 5 dos videoclipes sem cortes (quase sem cortes ou com intenção de parecerem sem cortes) mais bacanas escolhidos exclusivamente segundo o critério do meu gosto duvidoso e dos meus limitados conhecimentos videoclípticos.

Comecemos pelo óun.

5.  Goldfrapp – Happiness

Tá, não é difícil deduzir onde estão os cortes desse videoclipe coisa-mais-fofa da Goldfrapp. Mas eu o incluí no top por três motivos: originalidade, poder de me fazer sorrir e inveja do fôlego do ator.

4. Kaiser Chiefs – Loves not a competition but Im winning

Zoom in, zoom out! Legal a sacada de focar um integrante de cada vez até formar a banda toda, no final. Me lembra as imagens do programa do Datena (observação totalmente dispensável).

3. Foo Fighters – My Hero

Tem cortes alí no início, mas esse clipe tinha que entrar na lista. Por que? Em respeito ao trabalhador de quem ninguem lembra: o cameraman. Um brinde a esse “hero”!

2. U2 – The Sweetest Thing

Bono Vox nos conduz pela avenida apaixonada de Dublin. Um dos clipes preferidos da pessoa que vos fala.

1. Bob Dylan – Subterrean Homesick Blues

Porque um dos primeiros videoclipes feitos sem cortes tinha que ser o primeiro do top! O mais antigo, o mais simples, o mais original! Câmera parada e deixa rolar o Dylan. Yeah!

Feito, então.

E aí? Concordam? Discordam? Quais eu esqueci? Quais eu preciso conhecer?

Sugestão para a próxima Postagem Temática: Anos 90.

.

Eu estava só esperando uma boa desculpa pra fazer um post que fugisse um pouco da proposta do Devaneios Grátis (não que o meu blog tenha exatamente uma proposta). Obrigada ao Blogs Sintonizados por conseguir me arranjar essa desculpa!

Isso deve estar fora das regras, mas se vocês não se importam, vou citar mais alguns videoclipes que quase chegaram no top acima. Pode? Ah, o blog é meu. Eu posto o que eu quiser. Então, pra diminuir o peso na consciência (porque eu sei que cometi alguns crimes deixando uns clipes de fora e esquecendo da existência de outros), segue a continuação do top, mais ou menos na ordem de preferência, começando pelo melhor depois do 5º.

Coldplay – Yellow Travis – Selfish Jean Alanis Morissette – Head over feet Eagle-Eye Cherry – Save Tonight Kylie Minogue – Come Into my world Radiohead – No Surprises Nouvelle Vague – Dance with me Jack Johnson – Sitting, waitting, wishing The Cribs – Mens needs Spice Girls – Wannabe Feist – 1234

Ah, tem também esse videoclipe ótimo que o Demétrio postou na última edição da Postagem Temática.

Ufa! Chega de links. Acho que não tenho talento para tops. Voltarei aos devaneios. Até!

Uma casa

Às vezes ela deixava a janela da sua casa entreaberta para que algum transeunte menos distraído notasse a violeta do parapeito combinando com a cortina. Porém, naquela tarde, alguma brisa do oeste inspirou o desejo repentino de abrir também a porta e compartilhar o seu bule de chá.

O moço entrou, acomodou-se confortavelmente na poltrona e falou com alguns pormenores sobre a sua própria casa. Combinação estupenda! Ambos apreciavam a decoração em verde escuro, louça pintada à mão e toca-discos na sala de estar.

O problema era o relógio. O de um era branco e prata com ponteiros negros, e o de outro era retrô de madeira com um pêndulo que marcava cada hora com uma melodia muito particular.

17:45. Às seis, o carro da mudança. A moça viajaria para ver novas janelas e novas portas.

Ele não teve tempo de contar a ela sobre a goteira da sua cozinha, e nem sobre o azulejo do banheiro que caíra na semana anterior por causa da umidade. Tampouco ela lhe falou sobre os cupins que enchiam o quarto com a poeira fina de madeira, destruindo a sua escrivaninha de trabalho.

Ele nunca se importava com os cupins. Tinha folhas de louro espalhadas pela casa para espantar a praga. Ela, por sua vez, nunca se preocupava com goteiras. Até colocava as suas plantas debaixo dos buracos do teto para que lentamente fossem regadas nos meses de chuva.

Goteiras. Cupins. Janelas. Cortinas. Toca-discos. Sentimento. Repentino.

Tudo dentro de uma casa que ainda não tinha como existir.

Malditos relógios que não combinavam.

Clave de chuva – Postagem Temática

*Para Nives

Maria Bonomi. Tetraz VA

Te digo que às vezes é saudável colocar o toca-discos pra funcionar enquanto a chuva faz a sua festa na vidraça.

O chiado do vinil e o chuá de um carro velho perdido na madrugada.

O acompanhamento compassado da goteira do meio da sala em perfeita harmonia com o vazamento da torneira na cozinha. Drip-drop em dois tempos e duas distâncias.

Uma gota ecoa dentro do hall do ouvido, outra no da panela já cheia dágua.

As sombras dos braços das árvores no papel de parede duram o segundo do raio. Maestro projetado.

Composição digna de uma grande ópera, brincando na partitura feita de linhas das tábuas  do açoalho.

As roupas limpas encharcadas no varal, dançarinas do ballroom improvisado a céu aberto.

O som do prato da bateria é o próprio trovão. Momento ápice.

E os livros todos espalhados no gramado, desfazendo-se na clave de sol.

Ou seria essa a clave de chuva?

.

O tema desta edição da Postagem temática foi chuva. Minha sugestão para a próxima é videoclipes.

Saída de emergência

Não foi amor à primeira vista. Nem à segunda, nem à terceira. Foi à sétima, as sete horas da manhã, no sétimo andar.

A presença dele era constante em seu corredor. O cruel corredor de sorrisos simpa-té-ticos, depois do elevador e antes da porta cinza de sua sala. O corredor que não permitia que ela voltasse a cabeça para cima para cumprimentar o moço que já vira umas tantas vezes, mas nunca com a atenção devida. Cabeça ocupada em encenar a própria vida. Ocupada em conter o incêndio no seu teatro interior que faria desmoronar a sua peça cotidiana.

Mas na sétima vista, alguma coisa havia mudado no ambiente. Talvez fosse porque a manhã estava demasiado sonolenta para que ela se atrevesse a fechar os olhos e encostar-se no espelho do elevador, como sempre fazia, sem pegar no sono. Ao invés disso, ela encarou as suas próprias olheiras refletidas. Seu próprio início de sorriso simpa-té-tico. Sua própria manhã de eterna segunda-feira.

A porta do elevador abriu-se às suas costas e mostrou a silhueta de um homem refletido no espelho. A sineta suave que indica a chegada ao andar preciso soou mais lenta. A moça deteve-se por alguns instantes para observar o moço, antes de ser novamente engolida pelo elevador do antes do dia cinza da sua sala.

O homem era verde e corria, sem nem mesmo se mexer. Preso em suas duas dimensões, movimentava-se em direção a uma seta.

Saída de emergência. Em caso de incêndio.

Emergência, era a situação. Fogo. Por dentro. O homenzinho verde quimando junto e longe dela. Parados. Não conseguiam fugir.

Ela quis tirá-lo logo dalí e levá-lo para um corredor onde pudessem correr em paz, encendiando salas cinzas de prédios. Longe, bem longe!

Saída de emergência, para salvar a sua vida do frio, da ausência, da encenação.

Amou o homenzinho verde, profundamente. Devotou-lhe a atenção que nunca havia devotado e sentou-se no chão do elevador. Sentiu-se ele, idêntica. Quis casar. Sonho esquizofrênico. Até a voz metálica des-despertá-la mais uma vez.

Térreo.

Levantou-se, encostou-se no espelho. Fechou os olhos, respirou fundo. Apagou o pouco que pode do próprio fogo e matou a sua história de amor com uma placa.

Riu de si mesma.

Apertou mais uma vez: 7º andar.

Acredito na tua rosa – Postagem Temática

Nunca, mas nunca mesmo, me deixe acreditar em foguetes, relógios, cartões de crédito. Nem mesmo em pixels, ou aquela lorota da mistura pronta para bolo de fubá. Quanto aos políticos, os óculos escuros, as tomografias computadorizadas, não permita que eu fale qualquer pedaço de palavra em defesa desse tipo de besteira. Não preciso acreditar em nada disso. Muito menos o monte de porcarias que nos empurram goela abaixo pelas ruas, nos outdoors, nas prateleiras dos supermercados. Há gente besta por aí que acredita em cada coisa… “Mais barato”, “cabelo mais liso”, “homens aos seus pés”, “viagens”. Eu não. Eu boto a minha fé em outro lugar. É justamente no mesmo bidê em que coloquei a rosa que me destes. Lembre-me de regá-la, porque é nesta rosa que eu acredito quando abro os olhos meio sem vontade todo dia cedo da manhã. Se ela morrer, vou me esquecer da beleza. Se eu esquecer da beleza, não vou ter forças pra levantar. Durmo pra sempre – mesmo que de olhos abertos e movendo-me pela cidade. Se isso acontecer, vou perder o sabor do leite misturado com café passado, lá pelas 7 e 15, quando ainda está tocando no rádio o programa de música dos anos 60. Vou perder de sentir a bolacha maria com um pouquinho de geléia de morango desmanchando na boca. Se eu dormir pra sempre, como é que a minha Lua em Aquário vai avivar a vontade de liberdade que me faz mecher as pernas e transformar em fantástico um dia normal? Não vou sentir o vento que as asas dos anjos fazem na travessa que dá no colégio Martim de Freitas. Eles passam ligeiro, é preciso estar acordada para percebê-los. Vou perder de perder a hora da aula, só para sentir o roçar desse vento. Vou perder de subverter os relógios. Ah, e se não sair da cama, vai demorar mais tempo ainda pra minha fita verde do pulso se rasgar. Senhor do Bom Fim, três pedidos. Não esqueci de nenhum deles. E se eu só dormir, não vou viver. Se eu não viver, não vou morrer. Se eu não morrer, não vou pro céu, que segundo os meus cálculos deve ser tipo um Woodstock com um público mais diversificado. Vou perder de assistir ao Jimi Hendrix e sua guitarra inflamada, The Who, a Janis. Basta ter perdido o evento por não ser nascida, só faltava eu perdê-lo por não-estar-morta. Não quero isso. Preciso viver, pra depois morrer! Preciso também criar coragem, porque se eu chegar no céu e lá não estiver o teu sorriso, eu arrumo as trouxinhas e volto. Mesmo que o Jimi Hendrix esteja lá. Não vale a pena. Eu falo com Deus, negocio a passagem aérea. Ah, juro que volto! Não duvide. Volto pra te ver, e pra pegar também a rosa. Sim. A beleza da rosa. É nela que eu acredito. Ela pode me ajudar a começar sempre de novo, assim como ela me acorda todos os dias de manhã, e me puxa para fora das cobertas. Então, reforço o pedido mais uma vez… Não permita que eu a deixe murchar. Nunca! Não quero nem imaginar a minha vida feita só de xampús, bárbies grávidas, carros de fórmula 1. Não quero ser um zumbi. Quero a minha vida feita da rosa. Eu tenho fé nessa rosa.

E então, me ajudas a regá-la?

O tema desta edição da Postagem Temática foi .

Sugestão para o próximo tema: Chuva

Para uma cidade

Assim, de perto, pareces pequena. Cabes num mapa, dobrado na bolsa.

Não me deste medo. Nem um pouco. Tentaste me assustar, eu percebi. Mas sei que foi de brincadeira quando puxaste para cima os tapetes de pedra que estavam aos meus pés.

Não caí.

Desequilibrei. Adimito. E senti as pernas doerem quando tive de enfrentar a angulação de chão que me propuseste.

Mas foi só pra fazer a coisa toda ter um gostinho a mais. Te peguei! E me pegaste pela dificuldade.

No fim, a descida compensa. Não evito o riso na corridinha ladeira abaixo. Eu fazia isso, quando criança. Tão íngreme quanto, do colégio para casa. Em gargalhadas. Mão na mão da mãe.

Nesta descida, me deste flores. De azulejo, sim. Duras, mas belas.

[Um pedido de desculpas pela subida que me impuseste? Talvez...]

E se estas não cheiram a flores, fazes soprar um vento fresco do rio, cheirando à peixe.

Comparar flores a peixes. Que estranho! Talvez seja porque descobriste o meu signo. Vindo de ti, não duvido.

Não pense que não notei como te adornaste para a minha chegada.  Passei por entre as cores dos lençóis e toalhas estendidos nas tuas janelas.  O sol escorre neles aos pingos, depois das seis. Tive de me molhar com tal tinta, feita de luz.

Escolheste a hora do nosso encontro pensando nisso, não? De fato, essa hora te cai bem.

Te cai tão, tão bem, que me fez cair em ti. Dentro. Foi logo depois do pôr do sol. Alí, na loja de livros velhos, perto da estação de comboios. Me vi refletida numa das vidraças da vitrine. Fiz parte de ti.

Os dourados fragmentos de luz, aparecendo à minha volta em lamparinas… Lindas!

Linda. Tu és.

Pequena. Cabes na bolsa.

Cabes na alma.

Quem sabe inventaste este espetáculo todo só para que eu pudesse caber dentro de ti.

coimbra

A foto mais linda. A que nunca foi tirada – Postagem Temática

O Bruno na frente da Bia. A Camilinha na ponta, ao lado da Camila Freitas. A Camila de Grandi lá atrás. Esguia. A única menina da última fileira. O Edu, gordinho, sempre no canto, junto à Tia Mara. O Jonathan na fileira do meio, entre a Martina e a Maria Clara. Posição estratégica escolhida ditatorialmente pela professora. O pequeno demônio entre os dois anjos da classe.

Estratégia que deu errado. Mesmo tendo o braço curto, o garoto alcançava a saia da Fernandinha. O tradicional grito esganiçado. Tiaaaa, olha o Joni! Ele quer puxar a minha saia! Pronto. Parte do objetivo do pequeno estava alcançado. Fernandinha olhando furiosa para ele, vermelha de raiva. Lá veio a profe. Pára quieto! Na próxima tu vai ser suspenso, guri! Ele virou-se para a frente. As pequenas mãos escondendo o riso. Para todos, riso diabólico. Para ele… Ah, já que estava no inferno que por engano chamam de escola, pra que não tentar se divertir um pouco?

O Carlos batendo os pés em marcha na estrutura de madeira montada para a fotografia da 3ª série de 1997 da Escola Nossa Senhora de Fátima. Os tais registros escolares para os quais as pessoas só conferem alguns significado depois de algumas décadas, ou fios de cabelo a menos. Mais uma necessária intervenção da professora. Pára com isso, Carlos! Quer ser suspenso junto com o Jonathan? Uma vozinha aguda no meio das exlamações de espanto. Bem que merecia. Era a Fernandinha de novo. Carlos retruca. Mas não fui eu, foi o Otávio! A rouquidão do baixinho que insistira em ficar na fileira do meio, apesar da estatura. Nada a ver! Cala essa tua boca de mentiroso, se não o meu irmão vai te dar uma surra. Um breve e intenso rebuliço. A risada alta do Edu, que sempre observava tudo, quase que de fora.

Será que eu vou ter que chamar a diretora pra convencer vocês a ficarem quietos por 5 segundinhos e tirarmos essa bendita foto? Era o velho tom quase de súplica da tia Mara. O fotógrafo bocejando, sentado numa das mesas de madeira da sala de aula. Pronto, Seu Martim. Pode tirar a foto agora. A professora formulou essas palavras já com o sorriso forçado no rosto.

Em sua monotonia, seu Martim encaixou a câmera no tripé. Ajustou o foco. Posicionou o equipamento um pouco mais para trás, para que coubesse no enquadramento a cruz de Cristo pendurada acima do quadro negro. Um inquieto burburinho de comentários de meninas e assovios de meninos.

O momento oportuno.

O rubor.

A Fernandinha, na fileira da frente. Ainda com raiva da brincadeira de Jonathan. Ainda sem sorrir. Tonho, sempre o mais baixo da turma, ao seu lado. O roçar da manga da blusa dele no casaco do uniforme escolar dela. O garoto respirou fundo. Fechou os olhos. Reuniu toda a coragem que já havia recolhido em seus quase nove anos de vida, e mais a coragem que ainda não tinha. A coragem que talvez nunca tivesse e…

Segurou a mão da garota. Coração disparado.

Relógio congelado no tempo. Turma congelada no tempo. Sorrisos congelados no tempo. O rubor da face de Fernandinha congelado no tempo. A textura da sua mão pálida…

Pronto. Era essa a foto que o menino iria guardar para sempre. Na memória. Foto tirada antes mesmo do clique da câmera de seu Martim, previsto para acontecer dalí a alguns segundos.

Segundo perfeito. Sublime… Suave. Eterno.

Não é pra guardar esses momentos que serve a fotografia?

Nada poderia estragar aquele segundo congelado. Nem mesmo um…

Soco nas costas. A breve avalanche de garotas caindo do pequeno palanque de madeira para o chão. Gritinhos agudos (das que não caíram). Os óculos do Tonho, grandes demais para o seu rosto, indo parar no meio da sala. A face desfocada de Joni, as suas mãos segurando-o pelo colarinho. Gritando. Gritando…

Lar-ga-a-mão-da-mi-nha-na-mo-ra-daaaaa!

Tonho virou o rosto para o lado, tentando proteger-se da fúria de Joni. Viu a Fernandinha, segurando a manga da camisa da profe. Ela olhava para ele. Olhos tristes. Balança a cabeça de um lado para outro…

Mas olhava. Pelo menos isso. Ela nunca o tinha olhado antes.

O pequeno menino sorrindo no chão. Mais um soco de Joni. Alguém puxou-o para longe. O gosto de sangue entre os lábios. As meias brancas da Fernandinha. Imagem desfocada, alí bem perto…

.

Não houve foto. Um buraco nos registros da escola. Jonathan com uma semana de suspensão. Fernandinha tentando convencer a todos que não era namorada do pequeno demônio. As suas bochechas ficando vermelhas em qualquer ensaio de olhar que Tonho lhe lançasse. As mil e uma versões da história passeando em cochichos e risos pelo pátio da escola.

E a foto mais linda da vida de um certo menino.

A foto que não foi tirada.

É nisso que dá deixar pra fazer a postagem temática na última hora. Fugi do tema de novo, hehe. Desculpem-me.

O tema dessa vez foi (era para ser) fotografia. Minha sugestão para o próximo é Músicas dos Beatles.

Só pra aproveitar a deixa da temática, coloco aqui a dica de um livro que não é sobre fotografia, mas toca na questão de uma maneira muito peculiar. É o livro Memória do Brasil, de Evgen Bavcar. Pra quem não conhece, o Bavcar é um fotógrafo cego. Nesse livro ele conta um pouco da viagem que ele fez para o Brasil (Porto Alegre está no roteiro). Além de ser muito bem escrito, traz também imagens belíssimas. Vale a pena.

Copo, tempestade

O choro rasgado da moça da novela ainda atravessava o quarto quando o estrago foi feito do lado de cá da tela. E foi pelas próprias mãos daquela que era a protagonista da noite. Na vida real.

A mancha marrom-escura aumentava à medida em que a melodia de gritos da TV transformava-se em um eco distante, perdendo-se dentro do apartamento de uma janela só. Por coincidência, estava aberta naquela noite. A mãe nunca a abria. Só por causa do calor infernal de janeiro, mesmo. E dos novos ares que passavam por entre as venezianas dos nossos dias. A brisa suave de minutos antes da tragédia cumpria com a árdua tarefa de refrescar o mês amarelo-queimado, já que o ventilador de teto não dava conta. Só a sua voz de tédio marcava presença, fundindo-se aos gritos cada vez mais abafados da TV mau-sintonizada.

O gosto do café requentado. Maldito café requentado. O café que fez o coração parar em um baque. A mãe deixou cair no chão o copo reaproveitado de vidro de requeijão, ainda com algumas gotas do líquido escuro. E a mancha, ganhando tamanho. As gotículas, moléculas, átomos, emaranhavam-se cruelmente por entre os fios da seda violeta. Bem ali, acima do corte que marcava a cintura, deixando lugar para a fita.

Lembro-me bem da fita. Das horas, dos meses, das noites na cama quando ela me perguntava se não era muita pretensão. Não diriam que era já muito velha para fitas? Seu corpo estaria em dia para tal luxo? A saliência da barriga de quem já teve um filho não a colocaria no centro de um palco para ser alvo de tomates?

“Mãe, pelo amor de Deus! O vestido tem que ser feito pra ti, e não tu para o vestido!”

Eu virava para o lado e fingia dormir. Ela desligava a TV. Mas a saga não terminava naquele momento. A mãe seguia pensando. Calculando. Quantas pinças ao longo das costas? Zíper por trás, ou lateral? Às vezes ela passava a mão desde o seio até o início do quadril, para conhecer melhor as suas proporções. Eu sentia pelo movimento dos lençóis. No dia seguinte, redesenhava o tal vestido pela décima, décima quinta, vigésima sétima vez.

Era a ânsia de sentir-se linda.

A mãe era linda. E estava deslumbrante quando deixou-se cair de joelhos no chão do quarto. O vestido manchado de café entre as mãos. Uma lágrima grossa arrastando parte da maquiagem num rio negro que foi tingir o sutiã. Era mais bonita do que a artista da novela, que também chorava. De joelhos. E ainda por cima ela exalava um cheiro gostoso de sabonete, aquele sabonete barato. O cheiro dela. Os cabelos ainda molhados.

Na segunda lágrima, o corpo todo começou a tremer em soluços. Apertava o traje violeta entre os dedos. Unhas pintadas. Ia rasgar.

Pensa. Pensa. Passar um pouco de água. Isso! “Mãe, a gente lava rapidinho! Com esse calor, seca a tempo. Certeza!”. Não iria secar. Não mesmo! “Já sei! Por que tu não coloca aquele outro? O preto! Tu fica tão linda naquele preto… Parece o da novela! Olha!”. Não. Não… Há alguns anos aquele preto já não fechava mais. Ela sabia. Eu sabia. Não havia outra opção. “Vestido de velório”. Era o que a mãe sempre dizia quando olhava pra ele, e talvez nem tivesse pensado nisso quando começou a balançar a cabeça de um lado para o outro negativamente, apertando o vestido contra o peito e já deixando que a maquiagem o borrasse, formando um belo e triste quadro com seu rosto todo manchado. O batom vermelho em contraste.

Intervalo da novela. Agora era só o choro triste da mãe, ajoelhada entre as roupas espalhadas pelo chão surrado. O chão da nossa casa de uma peça só. Ajoelhada ao pé da nossa cama. A cama que há tanto tempo ela queria trocar por duas de solteiro. Afinal, eu era já uma mocinha. A velha máquina de costura em um cruel silêncio. Inoportuno. A máquina que compunha a trilha sonora de tantas madrugadas, quando a mãe tentava juntar umas notas pra comprar qualquer pequeno luxo que nos tirasse por alguns segundos do inferno amarelo-queimado. Aquele inferno que, naquela noite, iria desfazer-se por alguns instantes.

De repente o convite azul com letras douradas não fez mais sentido. Nem a esperança de encontrar o pai. De mostrar pra ele o que ele estava perdendo. Uma bela mulher num vestido violeta, passeando pelo salão da festa. A festa de 20 anos de formatura do colégio de interior. O interior que o pai tinha deixado pra trás. O interior que era interior de mais pra ele pra ser suportável. Preferiu o por fora.

E a mãe em violeta, violentamente bonita, num instante se desfez.

Ergueu-se. Deixou o vestido onde estava. Caminhou até o banheiro, ainda em roupas de baixo. Voltou sem os borrões de maquiagem. Voltou com a camisola já há anos rasgada na barra. Voltou para a frente da máquina de costura. Envelheceu uns 10 anos em 5 minutos.

Levantei pra recolher o copo velho, caído. Sujo do café requentado da manhã. Este não quebrara. Dizem que coisa ruim não quebra…

E assim voltamos à tempestade. Dentro do nosso copo.

Um copo reaproveitado de vidro de requeijão que acabara com o sonho de uma Cinderela velha, numa noite quente de janeiro.

E nos afogamos. No meio da nossa enxurrada particular.

@franzkafka – postagem temática

“o escrito não passa de escórias do vivido”.
ok. menos de 140 caracteres.
upload.
quem twittou foi Kafka. um tal.
followers? ah, ele devia ter uns tantos.
doidos seguindo doidos.
twittando desde mil oitocentos e bicos.
talvez antes. talvez com a invenção da escrita.
só nao dava pra ver a frase colorida na tela com a foto do twitteiro feliz.
claro, naquela época também não dava pra colocar os links.
mas assim caminha a humanidade. enchendo a comunicação de perecotecos.
fragmentos de ideias. jogados por aí.
escórias do vivido, de acordo com o twitteiro homenageado do dia.
@franzkafka pra que escrever?
ah, escórias do vivido também têm um tantinho de vida.
talvez, até mais do que isso.
140 caracteres…
“eu te amo” tem só 9 e faz um impacto danado em certas moças por aí.
o tamanho da escória nao é o documento da escória.
bom. ou é. pra quem nao sabe twittar.
@franzkafka me ensina?
A gente pode colocar um laço azul em todo esse lixo.
e fazer bem feito.
se não quiseres, tudo bem. podemos trocar uns emoticons.
afinal, são só escórias mesmo.
escórias. bem menores do que a vida.
escórias não tomam o lugar da vida.
tomam?
@franzkafka :/

.

O tema dessa edição da Postagem Temática foi twitter.
Para a próxima, vou repetir a idéia que eu já tinha dado. Que tal falar sobre fotografia?

Primavera multicolor apressando os calendários.

varal

Não fosse o espírito dessas nuvens cor-de-rosa lilases douradas cinzas recortadas por suaves navalhas do sol do fim da tarde que joga seus cabelos lisos louros sobre a cidade e tinge os prédios com o tom da sua última escolha de tintura de farmácia deixando parte das minhas roupas penduradas no varal tão acesas quanto as chamas das velas do nosso último jantar e fazendo as meias floreadas e as calcinhas baratas dançarem na parte que já virou sombra do quintal aquele rock’n'roll meio suave que me mostraste numa noite qualquer do mês passado e as laranjas do terreno da vizinha queimando em seu bronzeamento fora de época ao som da voz da minha mãe que garante que tão lindas nuvens estão anunciando chuva logo acima das construções novas velhas recuperando o multicolorido original pré-toque dos cabelos louros do sol e as luzinhas nas janelas se mostrando lentamente para enfeitar a cidade e imitar o pinheiro do natal de 1998 que o pai arrumou e hoje é tão visível por entre os galhos da velha e nua árvore chacoalhando tímida por causa do carinho do vento que chegou até os meus cílios…. Eu acreditaria que estamos no inverno.

Mas alguma alma doidivana enlouqueceu os calendários.

Eis a primavera. Under my skin.

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