Nós

Por ocasião do teu aniversário, ela subiu no mais alto telhado da sua Paris interior e recitou um poema de qualidade duvidosa. Havia te transformado em terceira pessoa, ainda que tu fosses a primeira na sua vida há algum tempo. Era um poema qualquer que falava de ti, mas também de léguas, mares, ventos… Não gritou porque sabia bem que tu a escutarias – mesmo que ela não falasse nada. Amassou o papelzinho contra o peito com vergonha de ter a autoria, mas apesar disso procurou os teus olhos no horizonte da noite escura – queria saber se o presente havia agradado o dono da festa. Porém, encontrou apenas retalhos de prédios formando os contornos da cidade a sudoeste. Foi então que ela teve uma ideia: transformar-se também em terceira pessoa. Quem sabe colocando os pronomes pessoais na mesma posição discursiva pudesse pelo menos te sentir mais perto… Sim, ele e ela. Soava bem.  Desamassou o papelzinho e trocou a conjugação dos verbos. Terminada a tarefa, recitou tudo de novo, e sentiu-se satisfeita: conseguira encontrar os teus olhos em uma das janelas das casas velhas, mudas aos seus pés. Rias da moça, não é mesmo? Ainda assim, ela estava feliz. Tão feliz que resolveu assoprar velas imaginadas em tua homenagem, fazer desejos. O desejo mais profundo – aquele que veio acompanhado de um abraço em volta do próprio corpo – era o de jogar o seu poeminha ao vento e voltar a ser primeira pessoa. Mas dessa vez contigo, e no plural.

Rei de si

Ele subiu na caixa de madeira roubada da feira, cruzou os braços e levantou o queixo. Assim ficava mais fácil olhar com a altivez desejada para a massa de gente cinza que passava pela ruazinha alguns centímetros abaixo. Meus súditos, pensou com as pálpebras quase cerradas e o sorriso de rei de si. Guarda-chuvas negros formando descompassada movimentação: um cortejo de boas-vindas ao soberano. Estranho era eles passarem olhando para a calçada, mas vai entender as manias  de cada povo… Os que não tinham guarda-chuvas corriam, apertando as bolsas e casacos contra o corpo.  Alguns colocavam-se debaixo de marquises, sem o cuidado de observar a festa. Olhavam para os pulsos, relógios, vitrinas, o céu. Pobres plebeus… Teria que implementar um programa de reeducação do olhar, para ver se viveriam mais alegres. Nem sabiam o quanto era bom ser rei e ver tudo alí de cima, sem nem ser afetado pelo temporal da segunda-feira de um janeiro qualquer. Pegou um cabo de vassoura e apoiou-se, cuidando para não cair da caixa. Com o outro braço, fez um movimento de saudação para os seus súditos. Mostrou os 10 dentes amarelados numa risada alta. Era o início de uma nova era para aquela cidade. O carro de música passou tocando algo que falava sobre supermercado e preço baixo. Tudo bem, quando começasse o seu reinado as músicas dos cortejos poderiam ser trabalhadas para terem melhor qualidade. Mexeu nos próprios cabelos molhados e longos, e deu pela falta da sua coroa de papelão. Teria perdido? Ah, mas que rei precisa de uma coroa quando se tem nas vistas um céu particular tão azul, apesar da chuvarada?

Nada, Júlia – Postagem Temática

2010

Nada, Júlia! Nada!

A frase ecoou pelo ambiente misturando-se aos reflexos nas vidraças da água da piscina. Júlia parou o treino e olhou em volta, tentando localizar a origem daquela voz masculina tão familiar. Ele não tinha morrido? Onde estava?

2004

Nada, Júlia. Não é nada…

Como assim, nada? A mão dele secando o suor da testa e o suspiro lento de quem carrega um camelo nas costas evidenciava mais do que o nada. Talvez o fim de um dia ruim e o início de uma noite pesada. Mas se ele não queria compartilhar o peso, tudo bem. Mais uma vez, ele ficava com tudo, e ela com…

2002

Nada, Júlia? Nada?

Nada, ora bolas! Não era nada que lhe quisesse contar. Nada que lhe dissesse respeito, afinal, já podia resolver seus próprios problemas. Se não contas os teus, não te conto os meus, tentava dizer só através do olhar adolescente. Fim de papo, boa noite. Trancou-se no quarto. Lágrimas.

1994

Naaaaaaaada, Júlia! Naaada!

Escutava de longe o grito e as braçadas dele na água barrenta, enquanto ela buscava o chão do fundo do lago. A vegetação grudando no rosto, o vestido volumoso puxando para baixo. Sensação de morte, sensação da chegada do

NADA!

A mão dele em volta da sua cintura, a água saindo pela boca. A textura da madeira do chão do barco, vida de novo. O beijo molhado na bochecha depois que ela abriu os olhos assustados de criança… Pai? Tô viva? O sorriso aliviado dele… Sim, filha. Não foi nada… Não foi nada…

2010

Nada, Júlia…. Não era nada.

A sua própria voz dentro da cabeça. Que ideia maluca, parecia mesmo que tinha ouvido a voz do pai morto! Devia ser o treino em demasia, percebeu nos dedos já murchos de tanto nadar. Não era nada de mais…

Mas por um instante resolveu parar. Júlia ousou desobedecer a ordem da sua cabeça e do pai de seu delírio. Deixou o corpo soltar-se no meio da água, no cheiro do cloro, no vazio do não querer lembrar. Boiou um pouco. Sentiu-se desfazer na piscina, na voz dele misturada com a própria voz.

Deixou-se submergir.

O braço dele não apareceu em volta da sua cintura, puxando-a para a superfície.

Sentiu aquele nada do não contado de noites de tanto para lhe contar, e também dele saber.

Dura verdade sentida. Sem ele, ela não era…

Nada, Júlia! Nada!

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O tema desta edição da Postagem Temática foi Nada. Minha sugestão para a próxima é Moda.

Porque eu preciso de um segredo

Criarei um símbolo só pra mim. Será o meu carretel, o meu Viva la Vida. Será a pétala de flor que deitará sobre os meus lábios para sempre fechados, e a vela que aquecerá as maçãs do rosto no dia do meu 15º aniversário. Será a sola do meu sapato na próxima queda, e a pedra da calçada que esfolará o joelho sem meia-calça. Será a palma da minha mão apertando as pálpebras quando eu quiser enxergar o mar, e o meu livro de memórias de não mais do que duas páginas. Será o que verei em todas as placas, nos aeroportos, estações de trem, cruzamentos, destinos, praças. Ele estará nas publicidades de supermercados, nos planos e mapas do próximo assalto. Um símbolo para a próxima guerra. De travesseiros, de pijamas, de sinfonias de ninar.  Fincarei bandeira! Tomarei um país qualquer. Um país da península da minha saia. Riscarei o símbolo na minha pele, pintarei ele em cada ruga do meu rosto. E será só meu.

Esconderei-o dentro da minha caixinha de lápis.

Será o meu próximo devaneio. Mas esse, não. Esse eu não te darei de graça.

Teclas pretas, teclas brancas – Postagem Temática

Era quando os dedos de Clara passavam pelo Si bemol que o Lá começava a dar sinais de ciúme.

A nota seguinte seria ele, mas não queria soar. Não daquela vez. Protesto pelo silêncio. “Onde já se viu…” – pensava a tecla. Os dedos pálidos da menina sempre acariciavam com mais intensidade aquela nota preta. Ouvira a professora de piano dizer “Chamam-se acidentes, os sustenidos e bemóis. São essas pretas. As notas da oitava são as naturais, as brancas. Dó ré mi fá sol lá si dó. Repita!” E lá ia o toque delicado da Clara espalhar-se pelo teclado, horas a fio depois do lanche da tarde.

Acidentes…

Naturais?

Ela costumava errar na segunda linha da página 2 do exercício 5. Acidentalmente previlegiava os acidentes. Pulava o Lá, indicado na partitura logo depois do Si bemol. “O Lá, olha o Lá, cabeça de vento!” Repetia para si mesma a garota com sua voz aguda. Tentava mais uma vez, mas perdia o ritmo. Batia na própria testa com as mesmas pontas de dedos que tornavam aquele maldito Si bemol bem sonoro, ao invés do Lá.

Si bemol sorria. Lá chingava. Mi sentia Dó, que lamentava a situação. Ré e Fá dormiam, e o Sol ficava lá fora, além da janela.

Era para a janela que Clara olhava na tentativa de clarear as idéias.

Mas só vai brincar na rua depois de estudar todas as escalas, dizia a mãe.

Agora essa. O Lá sem soar. Mããããe, o piano tá quebrado, lá não tá tocando mais! Já posso ir andar de bicicleta?

Não, não podia. Começou a bater no Lá para que destravasse e terminasse logo com o tormento.

A textura do dedo indicador da garota satisfazia a tecla teimosa. Conseguira a sua atenção! O Lá chegou a mostrar a língua pro Si bemol. “Toma essa, acidente!”

Pronto, missão cumprida. Já poderia destravar.

Teclas de marfim, teclas de ébano. Oposição de cores.

Harmonia?

O certo é que para tocar a valsinha preferida, Clara passeava por todas elas, acidentando-se nas naturais e naturalizando-se nos acidentes.

Música girando nos dedos pálidos. Nas teclas brancas. Nas teclas pretas.

Todas apaixonadas.

Por Clara.

Escurecia…

O tema desta edição da Postagem Temática foi Preto e Branco. Minha sugestão para o próximo tema é Rock.

Aproveito para encerrar o ano de postagens agradecendo a todos os que me honraram com suas visitas.

Até ano que vem!

O próximo primeiro dia de aula

Foi por causa da bexiguinha que Rita empurrou com toda a sua pouca força o peito de Renato.

Foi por causa da presença do Augusto no canto do pátio que Renato atirou a bexiguinha.

Foi por causa da falta de mira que a Rita ficou toda molhada.

Foi por causa da dor de barriga que Rita estava chorando encolhida no meio do caminho entre o atirador e o alvo.

Foi por causa do boletim vermelho a dor de barriga e o medo de voltar pra casa.

Foi por causa do calafrio por baixo da blusa enxarcada que Rita gritou que odiava Renato.

Foi por causa do grito que Renato foi parar na sala da direção da escola.

Foi por parar na sala da direção da escola que Renato não ganhou presentes de Natal.

Foi por causa da falta de presentes de Natal que Renato comemorou a data de forma semelhante a de Rita.

Foi por causa do boletim vermelho que Rita não ganhou nem mesmo as tradicionais cócegas do pai fantasiado de Noel.

Mas foi por causa da delicadeza do toque nas mãos que o empurraram que Renato pela primeira vez sentiu as cócegas do lado de dentro.

Foi por causa das cócegas do lado de dentro que ele conheceu a estranha vontade de que logo chegasse o próximo

primeiro

dia

de

aula.

Pink

Quando eu nasci a enfermeira do hospital não me olhou nos olhos. Gritei com ela! Tentei chuta-la. Olha pra mim, garota! Onde já se viu… Ainda por cima ela usava uns brincos redondos rosa-pink. Ridículos. Totalmente em contraste com a sala branca, fria e esterilizada em que eu vim ao mundo. Nem aí pra dor da minha mãe, a chata. Ela me entregou no seu colo com uma cara lisa de porta e foi encostar-se no canto da sala, olhando as próprias unhas. Notei a breve careta que ela fez quando viu a sujeira do meu nascimento no seu avental. Por que não me olhou? Droga! Deve ser por isso que eu peguei nojo das mulheres que usam brincos coloridos. Dizes que eu não posso lembrar? Mas é claro que lembro! É como se eu visse a cena de novo aqui, na minha frente! Ela toda nhem-nhem-nhem, depois, pegando-me pela cintura com as mãos geladas. Pesando-me. Medindo-me. Deitando-me no berço da maternidade. Não me olhando nos olhos. Aquele jeito profissional mas sem um pingo de respeito pela pessoa que eu ia virar. O que eu ia virar? Eu, bolas! Não é mais do que o suficiente? Eu e a minha vida meio sem metas, meio sem nada, mas com um certo vazio repentino do vez em quando que vale a pena por poder ser preenchido. Geralmente o preencho com literatura policial e morangos. Morangos só quando sobra dinheiro. Quase nunca, mas morangos. Pink. Nunca me atreveria a gastar o meu dinheiro com um brinco daqueles. Que coisa ridícula. Vi ela esses dias na rua, já está velha. Como não olhar pros brincos? Não me olhou nos olhos. Me lembro bem. Rosa. Redondos. Ei, olha pra mim!

Videoclipes sem cortes – Top 5 Postagem temática

Sem cortes, sem sangue. Alguns arranhões, cicatrizes discretas.

Basta uma boa ideia. Liga a câmera e deixa rolar!

Top 5 dos videoclipes sem cortes (quase sem cortes ou com intenção de parecerem sem cortes) mais bacanas escolhidos exclusivamente segundo o critério do meu gosto duvidoso e dos meus limitados conhecimentos videoclípticos.

Comecemos pelo óun.

5.  Goldfrapp – Happiness

Tá, não é difícil deduzir onde estão os cortes desse videoclipe coisa-mais-fofa da Goldfrapp. Mas eu o incluí no top por três motivos: originalidade, poder de me fazer sorrir e inveja do fôlego do ator.

4. Kaiser Chiefs – Loves not a competition but Im winning

Zoom in, zoom out! Legal a sacada de focar um integrante de cada vez até formar a banda toda, no final. Me lembra as imagens do programa do Datena (observação totalmente dispensável).

3. Foo Fighters – My Hero

Tem cortes alí no início, mas esse clipe tinha que entrar na lista. Por que? Em respeito ao trabalhador de quem ninguem lembra: o cameraman. Um brinde a esse “hero”!

2. U2 – The Sweetest Thing

Bono Vox nos conduz pela avenida apaixonada de Dublin. Um dos clipes preferidos da pessoa que vos fala.

1. Bob Dylan – Subterrean Homesick Blues

Porque um dos primeiros videoclipes feitos sem cortes tinha que ser o primeiro do top! O mais antigo, o mais simples, o mais original! Câmera parada e deixa rolar o Dylan. Yeah!

Feito, então.

E aí? Concordam? Discordam? Quais eu esqueci? Quais eu preciso conhecer?

Sugestão para a próxima Postagem Temática: Anos 90.

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Eu estava só esperando uma boa desculpa pra fazer um post que fugisse um pouco da proposta do Devaneios Grátis (não que o meu blog tenha exatamente uma proposta). Obrigada ao Blogs Sintonizados por conseguir me arranjar essa desculpa!

Isso deve estar fora das regras, mas se vocês não se importam, vou citar mais alguns videoclipes que quase chegaram no top acima. Pode? Ah, o blog é meu. Eu posto o que eu quiser. Então, pra diminuir o peso na consciência (porque eu sei que cometi alguns crimes deixando uns clipes de fora e esquecendo da existência de outros), segue a continuação do top, mais ou menos na ordem de preferência, começando pelo melhor depois do 5º.

Coldplay – Yellow Travis – Selfish Jean Alanis Morissette – Head over feet Eagle-Eye Cherry – Save Tonight Kylie Minogue – Come Into my world Radiohead – No Surprises Nouvelle Vague – Dance with me Jack Johnson – Sitting, waitting, wishing The Cribs – Mens needs Spice Girls – Wannabe Feist – 1234

Ah, tem também esse videoclipe ótimo que o Demétrio postou na última edição da Postagem Temática.

Ufa! Chega de links. Acho que não tenho talento para tops. Voltarei aos devaneios. Até!

Uma casa

Às vezes ela deixava a janela da sua casa entreaberta para que algum transeunte menos distraído notasse a violeta do parapeito combinando com a cortina. Porém, naquela tarde, alguma brisa do oeste inspirou o desejo repentino de abrir também a porta e compartilhar o seu bule de chá.

O moço entrou, acomodou-se confortavelmente na poltrona e falou com alguns pormenores sobre a sua própria casa. Combinação estupenda! Ambos apreciavam a decoração em verde escuro, louça pintada à mão e toca-discos na sala de estar.

O problema era o relógio. O de um era branco e prata com ponteiros negros, e o de outro era retrô de madeira com um pêndulo que marcava cada hora com uma melodia muito particular.

17:45. Às seis, o carro da mudança. A moça viajaria para ver novas janelas e novas portas.

Ele não teve tempo de contar a ela sobre a goteira da sua cozinha, e nem sobre o azulejo do banheiro que caíra na semana anterior por causa da umidade. Tampouco ela lhe falou sobre os cupins que enchiam o quarto com a poeira fina de madeira, destruindo a sua escrivaninha de trabalho.

Ele nunca se importava com os cupins. Tinha folhas de louro espalhadas pela casa para espantar a praga. Ela, por sua vez, nunca se preocupava com goteiras. Até colocava as suas plantas debaixo dos buracos do teto para que lentamente fossem regadas nos meses de chuva.

Goteiras. Cupins. Janelas. Cortinas. Toca-discos. Sentimento. Repentino.

Tudo dentro de uma casa que ainda não tinha como existir.

Malditos relógios que não combinavam.

Clave de chuva – Postagem Temática

*Para Nives

Maria Bonomi. Tetraz VA

Te digo que às vezes é saudável colocar o toca-discos pra funcionar enquanto a chuva faz a sua festa na vidraça.

O chiado do vinil e o chuá de um carro velho perdido na madrugada.

O acompanhamento compassado da goteira do meio da sala em perfeita harmonia com o vazamento da torneira na cozinha. Drip-drop em dois tempos e duas distâncias.

Uma gota ecoa dentro do hall do ouvido, outra no da panela já cheia dágua.

As sombras dos braços das árvores no papel de parede duram o segundo do raio. Maestro projetado.

Composição digna de uma grande ópera, brincando na partitura feita de linhas das tábuas  do açoalho.

As roupas limpas encharcadas no varal, dançarinas do ballroom improvisado a céu aberto.

O som do prato da bateria é o próprio trovão. Momento ápice.

E os livros todos espalhados no gramado, desfazendo-se na clave de sol.

Ou seria essa a clave de chuva?

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O tema desta edição da Postagem temática foi chuva. Minha sugestão para a próxima é videoclipes.

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