Por ocasião do teu aniversário, ela subiu no mais alto telhado da sua Paris interior e recitou um poema de qualidade duvidosa. Havia te transformado em terceira pessoa, ainda que tu fosses a primeira na sua vida há algum tempo. Era um poema qualquer que falava de ti, mas também de léguas, mares, ventos… Não gritou porque sabia bem que tu a escutarias – mesmo que ela não falasse nada. Amassou o papelzinho contra o peito com vergonha de ter a autoria, mas apesar disso procurou os teus olhos no horizonte da noite escura – queria saber se o presente havia agradado o dono da festa. Porém, encontrou apenas retalhos de prédios formando os contornos da cidade a sudoeste. Foi então que ela teve uma ideia: transformar-se também em terceira pessoa. Quem sabe colocando os pronomes pessoais na mesma posição discursiva pudesse pelo menos te sentir mais perto… Sim, ele e ela. Soava bem. Desamassou o papelzinho e trocou a conjugação dos verbos. Terminada a tarefa, recitou tudo de novo, e sentiu-se satisfeita: conseguira encontrar os teus olhos em uma das janelas das casas velhas, mudas aos seus pés. Rias da moça, não é mesmo? Ainda assim, ela estava feliz. Tão feliz que resolveu assoprar velas imaginadas em tua homenagem, fazer desejos. O desejo mais profundo – aquele que veio acompanhado de um abraço em volta do próprio corpo – era o de jogar o seu poeminha ao vento e voltar a ser primeira pessoa. Mas dessa vez contigo, e no plural.


