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Nem 30 contos: foi o preço do sapato. Notou que estava meio apertado, mas pensou em se acostumar – como se fosse a dor do último romance, que de tanto criar calos, ela nem sentia mais. Chegou no topo da escada, passou pela porta colorida, acostumou o olhar às luzes, dirigiu-se ao bar. Pediu qualquer bebida que lhe fizesse companhia até algum moço colocar suas próprias cores no ambiente. Mas os sapatos esmagando os dedos… As unhas empilhando-se nas pontas. Não teve paciência de esperar o hipotético moço para dançar até as 4 horas, como havia (a si mesma) prometido.
Não fosse o sapato apertado… Teria beijado um moço. Teriam sido feitos um para o outro. Teriam se casado. Teriam brigado para depois deixarem-se em paz.
Mas a promoção de fechamento da loja… Nem 30 contos!
Da próxima vez, um evento em que todos estiverem sentados poderá ser uma boa ocasião para o planejado desencalhe.
Guri, vem cá. Te desenhei, olha! Gostaste? Não, não te afastes, não te assustes, eu te explico. Toma um trocado, chega aqui mais perto. É que às vezes eu roubo as faces das pessoas da rua só pra rabiscar. Foi por causa dos teus olhos, quis registrá-los no meu bloco de notas. Meu Deus, são iguais àqueles olhos… Os do meu irmão Pedro. Ele fugiu de casa há anos. Eu ia fugir com ele, mas no fim das contas fiquei com medo. Ele também tinha um gato, bem mais bem cuidado do que este teu. O gato morreu velho, cansou de esperar o Pedro voltar. Nossa, faz tempo! Mas não esqueci dos olhos. Eram escuros, assim, meio nublados. Meio sonsos, às vezes… Espera, guri! Não quis te ofender. Toma mais um trocado. Acho que tu nem eras nascido quando perdemos o meu irmão de vista. Desculpe-me por te falar essas coisas, és novo de mais, ainda não sabes da vida. Também fugiste de casa, não é mesmo? Só tem esse olhar indefeso, mas bem adulto, quem alguma vez já fugiu de casa. Tá com fome? Cadê a tua mãe? A minha não deixa de rezar pela volta dele um dia sequer. Tão escuros, esses olhos… Meu Deus! Pedro, por onde andaste?
Quiçá a tua sorte será a de não perceber o temporal.
Foi o que deu pra fazer pro Blogs Sintonizados com um toco de lápis e falta de idéias escritas.
O tema dessa edição da Postagem Temática foi Sorte. Minha sugestão para a próxima é Guerra.


Não. Não gosto do ar puro. Dá um vazio. Parece que o que a gente respira é nada menos que nada. Lembro de quando criança, aquele maldito cheiro da chácara da tia Lurdes. Lá na serra. Era o cheiro do que não existe. Depois, no fim da tarde, o cheiro do bolo. Aí eu gostava. Mas à noitinha, quando tudo virava em silêncio, era só o vento de fantasmas. E o frio. Mais intenso ficava o ar-de-nada.
Quem eu era, respirando o ar puro? Era um pequeno super-homem independente da atmosfera.
A gente esquece que respira.
No fim das férias, a volta à humanidade. O cheiro que saía do asfalto quente dificultando a respiração. Mas eu me sentia mais vivo. Inspirava aquela sujeira toda do centro da cidade, de olhos fechados. Vidro do carro aberto. Respirava os muros pixados e os pedintes. As buzinas e as sirenes das ambulâncias.
Lá na tia Lurdes, o corpo era mais leve. Mas era o céu que pesava. Para além do campo aberto, da meia dúzia de árvores, as cortinas do céu azul-escuro aproximavam-se com as suas estrelas-fantasma. Fantasmas porque eram só de brilho. Eu tinha aprendido na aula de geografia. A milhares de anos luz, elas não passavam de célebres falecidas a querer mostrar um resto de alma pros outros seres do universo.
Na cidade, eu raramente as via. Só em alguma noite de verão, entre os prédios, quando a luz artificial dos postes e as nuvens de fumaça permitiam a passagem do brilho-fantasma.
Melhor assim. Sempre tive medo de fantasmas.
Caminho também hoje pelas ruas da cidade. Só pra sentir o peso dos meus órgãos e víceras. E o estralar dos ossos. Os fantasmas são feitos de nada, porque seus órgãos não pesam mais e seus ossos não rangem. Sentia e sinto a poeira pintando de cinza os pulmões. Via e vejo aqueles milhares de elementos químicos entrando pelas veias e espalhando-se em pequenos pontinhos negros por todas as células do corpo. Como os carros que chegam na cidade depois do feriado de carnaval e vão tomando as ruas e travessas, povoando de barulho e gasolina a atmosfera.
É a morte que vai tomando conta. A cidade, que mata lentamente. E lembra que estamos vivos. Porque estaremos mortos. E a cidade também morrerá.
Os cartazes gritam protestos. Shows de música. Bizarrices. Prostitutas. Ganhe dinheiro. Viagem para o nordeste. Raul Seixas. Procura-se animal perdido. Perdido na rua. Não quero ser encontrado. Não hoje. Quero andar e ver os muros pixados e destruídos e ser pixado e destruído. Por dentro e por fora. Vende-se teclado em bom estado. Terça-feira tributo The Doors. Só Jesus salva.
Pés sujos de pó, não da lama do riacho lá da chácara. É bom assim. Dá pra se fundir com a cidade. Se grudar no concreto pelo peso do próprio corpo.
E fugir dos fantasmas. Só eles são eternos, lá no ar puro da Tia Lurdes.
Ou será que os fantasmas só mudaram de nome?
Respiro fundo. Só pra acreditar que ainda vivo…
Vivo?

Ana gosta do cheiro do ar quando chove. Da lama no parque, não. Pelo menos a mureta de pedra permite uma breve passarela. Não com as luzes da passarela do desfile. Melhor assim. Ninguém vê a maquiagem borrada e o cabelo arrepiado pela chuvinha fina que ignora imperiosamente o guarda-chuva petit-poá. A chuva, próprio petit-poá surgindo de todos os lados. O barulho dos carros no asfalto é um chuá suave. Mais melodioso do que aquele barulho seco do verão no asfalto. Tênis novo, cadarço molhado. Sozinha. Quem atravessa o parque depois de um dia de chuva? Maldita lama que invade a passarela de pedras. Tudo bem. Como se brincava na idade da volta do colégio? Um passo após o primeiro. Um pé detrás do outro. Na pontinha. Isso. É mais ou menos como no desfile de ontem. Assim suja menos o tênis. Braços abertos pra não desequilibrar. Em pleno show, a equilibrista com seu guarda-chuva. De um lado, a calçada molhada é um espelho. De outro, a grama barrenta é um colchão nada convidativo. Ana, tu vais cair e sujar o teu uniforme! Mãe, pelo menos eu não sujo os sapatos! Hoje é um jeans surrado. O preferido. Salto alto na mochila, tênis no pé. Presta atenção! A equilibrista quase decepciona no picadeiro vazio. Faz acrobacia para não cair, e se equilibra de novo. Um sorriso irônico. Viu? Não foi dessa vez, mamãe! Será que em Paris tem lama? A passarela do parque é melhor do que a do teatro da moda. O único juiz é o espelho da calçada. E dá pra olhar pro chão. Não precisa fingir segurança. O calçado sujo. Na pontinha. Sorriso de novo.
É engraçado. A chuva dá vontade de chorar. De se fundir à atmosfera e desmanchar. Molhada, Ana já está. Ela chove. Cho. Vê. Ra. E chora.
Vês?
Não quero ir embora.
Em Paris também se chove e chora. Pleu. Rer. Voir. Ana viu uma vez num filme. Pleuvoir é chover. E pleurer é chorar. Tem mais graça do que o inglês. Cry. Rain. Nada a ver. Mas Pleurer e pleuvoir se fundem. Se confundem. As únicas palavras que Ana conhece do futuro. Pobre cherrie – dizem os pingos de chuva. Pobre. Quando de uniforme colegial, queria conhecer a Disney. Por que, agora, Paris? Por que o salto alto?
Levanta o rosto. Isso não são modos. Coluna ereta. A banda já começou a tocar. Cuida pra não cair do salto. O corpete está apertando… Tudo bem. Enxerga apenas os 30 centímetros a tua frente. Rosto de indiferença. Paradinha. E volta. Nem viu os flashes.
Paris? Prefiro Porto Alegre e sua chuva. Chover aqui. Chorar. Sujar os sapatos sem me importar.
Escorrega e cai. Do salto? Não, da passarela de pedra. Suja a calça. O olhar repreensivo e preocupado da mãe não está exatamente ali, mas se forma no espelho da calçada. Machucou? Não. Só que o guarda-chuva já era. Levanta. Olha pra frente. Volta pra passarela. Agora deixa a chuva de lágrimas molhar por completo. Está tudo bem. Abre os braços. Não vai voar. Vai pra casa.
Pleurer?
Pleuvoir.








