You are currently browsing the tag archive for the ‘frio’ tag.
Dentre as lembranças literárias que tenho da minha adolescência, uma das mais fortes tem a ver com a caminhada noturna de um moço pelas ruas de Paris. Lembro bem da brisa gélida que senti no pescoço quando o moço olhou para o rio Sena congelado. Ele lamentou-se por nem mesmo o rio ser caridoso o suficiente para deixá-lo afogar-se. Sim, senti frio naquele momento da leitura, mesmo estando enrolada em um cobertor ao lado do fogão à lenha da cozinha da minha casa.
Falo de Paris no Século XX, obra de Júlio Verne que não estava na minha lista de leituras mais urgentes da época. Eu queria ler O Raio Verde ou O Senhor do Mundo, mas como o limitado acervo da biblioteca da minha escola não permitiu, peguei o livro de capa esquisita, cuja orelha informava a publicação apenas de 1994. Verne não publicou esse livro em vida, pois seu editor convenceu-o de que apresentava uma visão muito diferente da que ele vinha consolidando com o público.
O personagem principal é Michel, jovem poeta obrigado a adaptar-se a uma sociedade toda configurada pelo uso das máquinas e pela importância do dinheiro, nos anos 1960. Cabe dizer que a obra está datada em 1863, ou seja, Verne imaginou a sua própria sociedade dali a cem anos. A graça é que, salvo algumas invenções esdrúxulas próprias da obra do Verne, o livro desenha uma sociedade muito parecida com a que viria a existir no período em questão.
Li muito rápido, correndo contra o vento cortante da noite parisiense em alguns momentos. Senti também o fiozinho de sol que passava apenas uma vez por ano pela janela de um dos personagens, proporcionando a ele um breve minuto de deleite – a pouca frequência era devida à construção desenfreada de prédios, outra semelhança com a realidade que se seguiu aos escritos. A Paris retratada é uma Paris de tal maneira fria que chega a rachar os lábios. Mas não apenas pela temperatura: também pela ganância e pela falta de poesia.
Penso que Paris no Século XX seja uma pista para uma necessária relativização do pensamento de Júlio Verne, pois evidencia os receios que ele tinha com a frieza que o desenvolvimento da tecnologia poderia gerar. É normal que, depois de um tempo, comecemos a perceber algumas ideias que estão por trás dos seus celebrados romances, e a repensá-lo como autor. Um defensor ferrenho da tecnologia? Um homem branco que descreve outras etnias sem nem mesmo conhecê-las? Um consolidador do pensamento burguês? Aí vem o Barthes e fala em um de seus textos de “Mitologias” que o Nautillus de As Vinte Mil Léguas Submarinas é a própria representação da dominação do ser humano sobre o mundo. Paris no século XX dá um possível contraponto a essa linha de raciocínio, num perâmbulo do autor pelos rumos de sua própria sociedade.
Li esse livro há muitos anos atrás, e peço desculpas por escrever algo sobre ele sem nem mesmo tê-lo em mãos para relembrar qualquer coisa. Então, faço um convite: que tal um encontro com essa Paris fria imaginada pela mente verniana? Que tal um encontro com o ser humano mais frio ainda? Eu pretendo realizar esse (re)encontro nos próximos dias. Coloquemos a toca e as luvas e andemos à livraria mais próxima. Bon Voyage!
A imagem não tem nada a ver, mas eu gosto. E o blog é meu, e tal. =D
Esta edição da Postagem Temática foi sobre Frio. Minha sugestão para a próxima é Riso.







