You are currently browsing the tag archive for the ‘viagem’ tag.

Eu incorporo no meu código genético cada molécula exalada na respiração da multidão. Perco-me através dos atalhos mal trilhados pelo fluxo sanguíneo das travessas e becos. Viezes e transviezes dessa cidade que não é a minha. Percebo os tumtums do coração que surgem lá da esquina num protesto banal. Tambores quentes em descompasso com o caminhar frio e indeciso de cidadãos não procurados pela polícia. Desvio e adentro-me em uma das veias capilares na galeria escura – tem lojas de bugigangas e cheiro de bife bem passado. Tal corte na epiderme de concreto da quadra finda na saída pela rua transversal. Esbarro no compro ouro, no compro cabelo, nos gritos de atendimento odontológico. Passeio por entre as células de um organismo vivo e vibrante,  acometido de uma grave doença imunológica – onde estão os anticorpos contra a fumaça do cigarro barato? Tropeço em desenhos de nanquim sem vida. Harmonizo, sozinha. É o meu passo se unindo ao descompasso daquele cardíaco tambor de manifestação.

Centro, meio da manhã. Pulsa.

As palavras são amontoados de letras. As letras são uns rabiscos de sons. Os sons, por sua vez, são vibrações produzidas pelas cordas vocais. Partes do corpo, simples assim. Como os dedos! Você já se imaginou sem os seus dedos?

O velho de turbante já deveria estar me olhando enquanto eu matutava sobre o assunto. Como um gato perdido entre novelos de lã, enrolava-me entre as linhas coloridas do mapa parisiense afixado na parede da estação de metrô. Era como se meus dedos tivessem sido amputados para puxar a ponta do novelo de ruas em que me metera a partir do momento em que pisara em solo francês só sabendo falar oui.

Alguém para puxar a ponta do novelo… Onde? As linhas do mapa misturavam-se, manchavam-se, cortavam-se…

.

E de repente passara-se uma hora de caminhada pela cidade sem encontrar o endereço do hotel. Mochila pesando nas costas, neve acumulando no chapéu e nos ossos. Frio. Ninguém sabia dizer onde ficava o maldito Boulevard Jules Ferry. Encrenca pronunciada com biquinho – biquinho que eu nunca soubera fazer, e ainda não havia aprendido ao chegar mais uma vez na frente do mapa da estação. O emaranhado de palavras sem sentido à minha volta orquestravam uma confusa trilha sonora…

.

Não consegui decodificar de pronto os sons pronunciados pelo velho de turbante às minhas costas, mas eu sabia que não se tratava de francês. Era uma pronúncia que despertava cheiro de deserto, tons de amarelo queimado. A pele escura desenhada em rugas talvez fosse similar ao próprio relevo daquele que deveria ser o seu país de origem. Oriente, com certeza.

Como por intuição, eu disse: Boulevard Jules Ferry! J-U-L-E-S F-E-R-R-Y. O velho abaixou a cabeça. Senti uma pontada de dor nas costas só de imaginar que ele seria mais um entre tantos que não saberiam me indicar nem ao menos uma direção. Até que…

République.

A breve palavra surgiu por entre os lábios envelhecidos. Ele apontou no mapa uma outra estação de metrô com este nome, traçando a partir dalí uma linha até o ponto chamado “Bastille”, onde nos encontrávamos. Parecia o desenho do fim do novelo – o desenho de um sorriso nos meus lábios. Depois, os dedos começaram a traçar loucas curvas através de travessas já sem nome.

Ele fez sinal para que o seguisse. Receosa, fui. Sem entender uma vírgula, mas fui.

.

Agradecer-lhe? Sorri. Não existiam palavras – literalmente – para o momento em que ele me deixou exatamente no fim do novelo. Já disse, era como se minhas cordas vocais tivessem sido amputadas naquele país. Tudo o que eu poderia fazer era sorrir, sorrir, sorrir, e abanar-lhe, quando se afastou.

“Que ideia ridícula”, pensei, quando certa palavra surgiu brincalhona na minha mente. “Ele nunca entenderia. Nunca…”. Mas, também… O que eu tinha a perder?

Obrigada, amigo! – gritei quando o velho já quase chegava na esquina.

Ele virou-se, juntou as palmas das mãos e abaixou a cabeça em uma espécie de reverência. Sim, convencera-me de que eu escolhera o agradecimento apropriado – na língua que era a minha. Obrigada, repeti baixinho… E eis que aquele amontoado de letras, rabiscos de sons, vibrações das cordas vocais, de repente me pareceu algo bonito – bem  mais bonito do que dedos! Para além do material. Ainda que não passasse de uma…

Palavra.

Fora de contexto

- mas compreendida.

Oui. Simples assim.

……….

O tema desta edição da Postagem Temática foi Palavras.

Sugestão: cicatrizes.

E era eu a cem por hora na highway das minhas veias, procurando o meu próprio rosto entre os rostos dos andarilhos que pediam carona pela estrada. A placa depois da ponte dizia: “A gente nunca encontra a si mesmo”. Não confiei na sinalização. Acelerei mais um pouco e segui em frente, sem olhar pros atalhos, sem dar atenção aos andarilhos que me rogavam pragas.

Sobre a mesa lá de casa, apenas um bilhete: “Mãe, não chora, um dia eu volto, e trago comigo o pedaço de mim que eu ainda estou por encontrar em algum ponto já rasgado do nosso mapa”. Deixei o recado debaixo da xícara manchada de café, pensando que o meu desrespeito de nem mesmo lavar a louça evitasse algumas lágrimas por parte da velha.

Pé na estrada. O pedaço de mim que me faltava estaria ali no caminho, certeza! Era só olhar com atenção… Talvez em algum posto de gasolina, ou descansando sob a sombra de alguma árvore.

“As moléculas da estrada penetram na epiderme e mudam o nosso código genético” – disse-me uma vez um dos andarilhos. – “O pedaço que te falta é aquele que tu deixaste em casa, e que já é um outro tu”.

A highway conduzia-me pelas linhas de uma circunferência. Era o meu fluxo sanguíneo sempre voltando para o coração, subvertendo as setas rascunhadas no velho mapa.

E era eu a cem por hora procurando – sem nem saber – a xícara de café a ser lavada. Correndo sempre de volta.

De volta para casa.

Post feito aos trancos e barrancos para a Postagem Temática. Dêem um desconto, porque eu tô atrasada pra pegar o avião (pra voltar pra casa, hehe).

Desta vez o tema foi Retorno. Minha sugestão para o próximo é Silêncio.

Assim, de perto, pareces pequena. Cabes num mapa, dobrado na bolsa.

Não me deste medo. Nem um pouco. Tentaste me assustar, eu percebi. Mas sei que foi de brincadeira quando puxaste para cima os tapetes de pedra que estavam aos meus pés.

Não caí.

Desequilibrei. Adimito. E senti as pernas doerem quando tive de enfrentar a angulação de chão que me propuseste.

Mas foi só pra fazer a coisa toda ter um gostinho a mais. Te peguei! E me pegaste pela dificuldade.

No fim, a descida compensa. Não evito o riso na corridinha ladeira abaixo. Eu fazia isso, quando criança. Tão íngreme quanto, do colégio para casa. Em gargalhadas. Mão na mão da mãe.

Nesta descida, me deste flores. De azulejo, sim. Duras, mas belas.

[Um pedido de desculpas pela subida que me impuseste? Talvez...]

E se estas não cheiram a flores, fazes soprar um vento fresco do rio, cheirando à peixe.

Comparar flores a peixes. Que estranho! Talvez seja porque descobriste o meu signo. Vindo de ti, não duvido.

Não pense que não notei como te adornaste para a minha chegada.  Passei por entre as cores dos lençóis e toalhas estendidos nas tuas janelas.  O sol escorre neles aos pingos, depois das seis. Tive de me molhar com tal tinta, feita de luz.

Escolheste a hora do nosso encontro pensando nisso, não? De fato, essa hora te cai bem.

Te cai tão, tão bem, que me fez cair em ti. Dentro. Foi logo depois do pôr do sol. Alí, na loja de livros velhos, perto da estação de comboios. Me vi refletida numa das vidraças da vitrine. Fiz parte de ti.

Os dourados fragmentos de luz, aparecendo à minha volta em lamparinas… Lindas!

Linda. Tu és.

Pequena. Cabes na bolsa.

Cabes na alma.

Quem sabe inventaste este espetáculo todo só para que eu pudesse caber dentro de ti.

coimbra

catedral/gramado

Tentando achar um bom ângulo para olhar o mundo. E as cores certas. Às vezes na pontinha dos pés. Às vezes por trás de muros e névoa. Às vezes um pouco mais à direita do foco principal. Outras tantas, à esquerda. Às vezes com a ajuda de alguém para dar a dica. “Olhe para cima”. Dessa vez foi o pai. E em tons de cinza.

Gramado/inverno de 2009. “No teto de um dia nublado”.

Noite dentro do quarto. Noite densa verde-esmeralda.

Os milhares de homenzinhos do quadro tocam rock’n'rool no volume da imaginação.

Cócegas no calcanhar do pé da cama. Um copo com um milésimo de gota de leite. Dentro do armário.

Um bichano espreguiçando-se por entre as roupas sujas no chão da testa. Um elefante passeia no relógio do último aniversário.

Lá está Ghandi. Tem o Che, também.

Alguém pode pedir uma música pros homenzinhos? Toca um blues do Mississipi, que é na esquina depois do sono.

Não, não. Breathe in the air.

Mas o ar tem cheiro de grama úmida. Aquela que deu dor na bexiga,  quando eras criança.

Atchim. Saúde. Um brinde!

Lá vem a maldita fábula de antes de dormir.

Esmeralda verde-densa. Noite.

Quarto dentro das constelações. No teto do dia nublado.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.