Foto: Gentil Barreira

 

tem um ser-tão fértil bem aqui no meio
bem no silva que eu, às vezes árida, esqueço de escrever
no interlúdio entre o ato do que não fui e o do que ainda posso ser
um ser-tão vasto que, pregando peças e ocultando placas, me faz me perder, me explorar e me esquecer

um ser-tão aconchegante que, por ser tão casa, me puxa sempre de volta
apesar de ser casa em que nunca morei
um ser-tão oceânico, do peixe e da sereia, não-geográfico
que acesso apenas pela estrada das minhas artérias, molhada pela chuva do inverno que nunca vem

um ser-tão do sul do sul do mundo
que neste janeiro pega fogo numa pequena capital
um ser-tão quente que ferve na minha assinatura e na minha genética
e que por ser tão, por ser tanto, se espalha pro começo e pro final

ser-tão. saudade

[mariana silva sirena]

***

Pessoal, não reativei este blog falecido. O texto acima foi só minha participação na edição especial da Postagem Temática (aqui tem informações sobre). Não podia deixar de fazer parte do “remember” desse projeto super bacana de que participei por um ano, entre 2009 e 2010, e que me fez trocar experiências com gente muito interessante.

O tema da vez foi – que apropriado! – nostalgia. Não consegui pensar em uma abordagem que não estivesse ligada à minha experiência pessoal, então tentei ver a saudade como um sertão. Um dos lugares que mais me causam nostalgia é a terra de minha mãe (ela nasceu em Itaiçaba e cresceu em Aracati, cidades cearenses), que não é bem sertão mas é tão, é tanto, e é eu.

Aproveito para dedicar essas palavras a todos os nordestinos que vivem me inspirando. Faço também um agradecimento especial à Bárbara Cunha, que me presenteou com a foto de Gentil Barreira que ilustra a postagem.

… a gente brinca.

Queria poder escrever no escuro. Deixar as silhuetas imaginadas da noite passarem pela navalha do lápis e sangrarem o papel.

A lâmpada afoga na garganta o grito. Ou o choro nervoso. A saudade de um beijo molhado no pescoço.

E aquela vontade de palavras que circula até as pontas dos dedos dos pés.

Pedalando em círculos no quintal da casa em que nasceu, Pedro notou que se passara apenas um breve cochilo desde que tivera a centimétrica coragem de tirar os pés do chão e colocá-los nos pedais da bicicleta. “Passou rápido, voando”, ressoou o irritante clichê no interno da caixa craniana. Irritante por ser completamente verdadeiro – assim como a maioria dos clichês que dizem por aí as pessoas chatas. Parecia que não acontecera absolutamente nada desde que aprendera a pedalar, a não ser a sensação gostosa de autonomia que experimentara ao longo dos 30 primeiros segundos de sua vida que transcorreram sobre a bicicleta. Depois disso, sempre a mesmice. Sempre as mágoas. Sempre o desconforto. Sempre o soar repetitivo das pedrinhas do chão que se deslocavam sob o peso das rodas. “Por isso passou tão rápido”, refletiu. Era a falta de ação (da sua parte). Mergulhou então no circular silêncio interior em que enterrava tudo. A última coisa nele sepulta fora a desgostosa ironia feita por Daiana sobre a incapacidade dele de pedalar em linha reta. Daiana tinha um sorriso bonito quando não era irônico. Pedro guardava todas as mágoas no silêncio da caixa toráxica, na tentativa de expulsá-las da caixa craniana. Ali, mais uma vez, ecoava: “Passou rápido, voando”. Clichê verdade acidental. A centimétrica coragem de manter os lábios cerrados era um pouco menos longa do que a centimétrica coragem que tivera aos 9 para colocar os pés nos pedais. “Se gritasse na cara de Daiana minhas mágoas, eu sentiria mais uma vez os trinta segundos de prazer da primeira vez que pedalei?”, pensou.

Pedro completou 78 anos pedalando em círculos no quintal da casa em que nasceu, ouvindo as pedrinhas darem espaço às rodas de sua bicicleta.

Era ela dentre todas as coisas bonitas que jamais vi. Sorriso discreto, refinado quase que por esforço – apesar da infantilidade escancarada na gotinha de travessura colada por detrás da pupila. Maldosa de leve. Peste de mansinho. Portava na cabeça raios louros do sol no meio da dança fria de guarda-chuvas e vestidos cor de chumbo. Sim, sim, já dizia Renoir: pour moi un tableau doit être une chose aimable, joyese et jolie, oui jolie! Tão agradável, alegre, bonito. Um quadro deve ser, para mim. Eu não diria só do quadro, mas também da própria vida. E ela era a minha vida, a menina: agradável alegre bonita. Tanto.

 

"Os guarda-chuvas" de Pierre Auguste Renoir (1881-1885)

Pena que a menina não existia.

Como a vida deve ser.

Ela sempre pensou que deixaria de ser criança e viraria adulta no momento em que passasse a preferir torta de marta-rocha a nega maluca. Ou então quando gostasse mais de comer a casca do pão do que o seu miolo. O caráter gastronômico das suas reflexões não significa que ela tenha sido uma criança gordinha, ou que seja uma adulta obesa. De forma alguma. Para o fato de estes aspectos sempre terem lhe saltado às vistas, não há uma explicação lógica.

Só sabia que não compreendia o prazer de quando o pai levava o pedaço de torta branca até a boca, recusando um magnífico pedaço de torta preta, ou então o seu molhar de dedos com a saliva para recolher as casquinhas de pão francês que despencavam em seu mastigar sobre a toalha. Se as suas reflexões acerca da maturidade durante a infância estavam corretas, continua sendo uma perfeita pirralha, comendo nega maluca e miolo de pão.

Mas existe um ponto sobre o qual não refletiu naquela época, e que nesta noite a coloca sentada na cama: a maturidade na solidão. Admirava-lhe lá pelos 8 a desenvoltura com a qual o pai dormia no escuro, e inclusive apagava a luz do próprio quarto, enquanto a pequena não poderia imaginar desligar o abajour com a digna certeza da fileira de fantasmas que enxergaria ao lado da sua cama.

Amizade com eles: esse é o segredo do adultescer. Cresceu, sim, pois sua solidão já não é mais a mesma. Hoje já aperta as mãos dos fantasmas, e deseja bons sonhos a cada um que coloca os dedos frios sobre as suas pálpebras lá pelas 00:00. Tranquila. O único problema é que eles não lhe desejam bons sonhos. Na verdade, sopram gélidos por detrás da sua nuca.

Ela enterra a cabeça no lençol até a orelha. Os fantasmas não param de soprar a noite inteira, porém, ao mesmo tempo que causam o incômodo, não provocam medo algum. Adultesceu, ainda que comendo miolo de pão e nega maluca. Sim, sente-se só, mas só na própria coragem frente ao escuro. Dolorida.

Ou, talvez, pela diferença entre um pólo e outro das suas nem tão complexas classificações de maturação humana, ela esteja no meio do caminho. Eu sigo lhe sugerindo com segurança: que tal ligar o abajour, e passar o relógio de trás pra frente? Mas, de que adianta… Ela acredita que um dia terá a respiração quente de alguém por detrás de seu pescoço enquanto dorme, e um braço em volta do seu ventre. Pobrezinha. Dorme, come, sonha. Adolescente criatura.

Leve. Tão leve que o vento nem notou levar. Passou por entre as camisas de listras coloridas estendidas no varal e atravessou a cerca de arame. Chegou na calçada de pedra e desacordou até o fusca barulhento empurrá-la para mais uma dança no ar. Sentia-se livre, branca, pequena, invisível. Não carregava nada de sólido, nem de duro: apenas um amor amarelo recém-desperto pelos primeiros raios do dia. Deitou-se sobre a bola vermelha que ficara a noite inteira jogada no pátio até o garoto dedicar-se ao nobre ofício de brincar. Num chute, elevou-se ao céu petit-poá azul e branco, e desapareceu: virou mais uma bolinha de nuvem na abóboda celeste. Imperceptível a olho nu, na ausência terrestre. Via todos os prédios e casas lá de cima, sem por eles ser vista. Desintegrou-se.

Era só mais uma leva de átomos no universo, na mais completa sensação de felicidade.

“Eu quero a sorte de um amor tranquilo” – com o cigarro apoiado entre os lábios, a articulação tosca das suas palavras dava à mensagem uma certa carga de absurdo. O seu tom displicente não me deixava crer na veracidade da afirmação.  Não estava segurando o cigarro entre os dedos indicador e médio com a maestria e a elegância costumeiras porque tinha as duas mãos ocupadas: amarrava as minhas pelas costas da cadeira velha que compráramos em um brique qualquer um pouco antes do nosso casamento. “Mas se eu aprendi uma coisa depois de 4 maridos, meu bem” – tirou o cigarro da boca antes de terminar a linha de raciocínio, não sem antes soltar uma lenta nuvem de fumaça no ar do sótão – “é que tranquilidade mesmo, a gente só tem a sete palmos, debaixo de Deus”. Eu não podia responder, com o esparadrapo colando toda a minha boca, mas se pudesse, responderia com um sincero “o que foi que eu te fiz?” Ela sorriu de um jeito quase doce – quase, porque doçura não é o que se pode esperar de uma mulher que acaricia um revólver enquanto fala. Deve ter lido a pergunta dentro do meu pensamento. “Com você até que foi bem tranquilo, amor. Mas não o suficiente”. Ela esfregou na minha cara uma pequena foto: eu e a minha colega de trabalho em um abraço. Acaso, obviamente. Não consegui segurar o desespero de esclarecer o equívoco, mas minha explicação não atravessou aquele esparadrapo maldito. “Vocês 4 deveriam me agradecer. Dou-lhes a tranquilidade do não existir… Quer maior amor que isso?” Engatilhando o revólver, ela disse baixinho no meu ouvido, pra nem as aranhas do sótão escutarem… “Mas vocês só me dão azar, amor. Azar…” Senti o cano frio do revólver no meu pescoço, em contraste com a pele quente do rosto dela no meu. O cheiro de cigarro ainda estava naquela boca. “Um amor tranquilo, babe. É pedir demais?”

Ela foi passando o revólver acima na minha face até beijar a minha testa (com beijo de fumaça).

Esta edição da Postagem Temática foi especial “sugestão de frase”. Cada blog sugeriu uma frase para iniciar o texto de outro. A sugestão para o meu post foi da Andi.

Coloco em votação para o próximo tema: quedas.

Da infância, ela só lembra da textura da camisola da mãe acariciando as suas bochechas. Sentia a malha de algodão quando tinha a cabecinha repousada no seu peito durante as crises de asma. Ficou também soando no ouvido a melodia suave destas ocasiões: uma canção religiosa que a mãe afirmava ser a mesma que São Paulo cantara para se libertar milagrosamente da prisão romana. Mas naquelas horas, a música virava apenas uma espécie de mantra. Sabiam bem letra, mas as notas soltas no ar frio do quarto eram o suficiente para abafar a tosse da pequena adoentada. Não se recorda como conseguia, mas sempre adormecia. Sempre. Sem correntes, e milagrosamente sem tosse. Livre – não era como o apóstolo da história, o Paulo?

O tema desta edição da Postagem Temática foi Do que eu não quero saber.