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pleu

Ana gosta do cheiro do ar quando chove. Da lama no parque, não. Pelo menos a mureta de pedra permite uma breve passarela. Não com as luzes da passarela do desfile. Melhor assim. Ninguém vê a maquiagem borrada e o cabelo arrepiado pela chuvinha fina que ignora imperiosamente o guarda-chuva petit-poá. A chuva, próprio petit-poá surgindo de todos os lados. O barulho dos carros no asfalto é um chuá suave. Mais melodioso do que aquele barulho seco do verão no asfalto. Tênis novo, cadarço molhado. Sozinha. Quem atravessa o parque depois de um dia de chuva? Maldita lama que invade a passarela de pedras.  Tudo bem. Como se brincava na idade da volta do colégio? Um passo após o primeiro. Um pé detrás do outro. Na pontinha. Isso. É mais ou menos como no desfile de ontem. Assim suja menos o tênis. Braços abertos pra não desequilibrar. Em pleno show, a equilibrista com seu guarda-chuva. De um lado, a calçada molhada é um espelho. De outro, a grama barrenta é um colchão nada convidativo. Ana, tu vais cair e sujar o teu uniforme! Mãe, pelo menos eu não sujo os sapatos!  Hoje é um jeans surrado. O preferido. Salto alto na mochila, tênis no pé. Presta atenção! A equilibrista quase decepciona no picadeiro vazio. Faz acrobacia para não cair, e se equilibra de novo. Um sorriso irônico. Viu? Não foi dessa vez, mamãe! Será que em Paris tem lama? A passarela do parque é melhor do que a do teatro da moda. O único juiz é o espelho da calçada. E dá pra olhar pro chão. Não precisa fingir segurança. O calçado sujo. Na pontinha. Sorriso de novo.
É engraçado. A chuva dá vontade de chorar. De se fundir à atmosfera e desmanchar. Molhada, Ana já está. Ela chove. Cho. Vê. Ra. E chora.
Vês?
Não quero ir embora.
Em Paris também se chove e chora. Pleu. Rer. Voir. Ana viu uma vez num filme. Pleuvoir é chover. E pleurer é chorar. Tem mais graça do que o inglês. Cry. Rain. Nada a ver. Mas Pleurer e pleuvoir se fundem. Se confundem. As únicas palavras que Ana conhece do futuro. Pobre cherrie – dizem os pingos de chuva. Pobre. Quando de uniforme colegial, queria conhecer a Disney. Por que, agora, Paris? Por que o salto alto?
Levanta o rosto. Isso não são modos. Coluna ereta. A banda já começou a tocar. Cuida pra não cair do salto. O corpete está apertando… Tudo bem. Enxerga apenas os 30 centímetros a tua frente. Rosto de indiferença. Paradinha. E volta. Nem viu os flashes.
Paris? Prefiro Porto Alegre e sua chuva. Chover aqui. Chorar. Sujar os sapatos sem me importar.
Escorrega e cai. Do salto? Não, da passarela de pedra. Suja a calça. O olhar repreensivo e preocupado da mãe não está exatamente ali, mas se forma no espelho da calçada. Machucou? Não. Só que o guarda-chuva já era. Levanta. Olha pra frente. Volta pra passarela. Agora deixa a chuva de lágrimas molhar por completo. Está tudo bem. Abre os braços. Não vai voar. Vai pra casa.
Pleurer?
Pleuvoir.

A atração é anunciada. Os palhaços correm entre o som das palmas e da música estridente. O acento no fim de cada trecho de frase. A língua italiana por si só já é uma graça.

Mas uma frase perturbadora vai parar na boca de um dos personagens do grande circo.

Em alto e bom som, cores e gestos:

Una vera sirena! Come tutti i pesci, ha il sangue freddo!

O filme é I Clown, de 1970. Frederico Fellini. Legendas em italiano em uma noite quente de fevereiro.

Um momento de pausa. Stop + Rew. Aparece a sereia, ou melhor, a mulher fantasiada de sereia. Faz parte do show. Por que ela não retruca?

É claro. Não é ‘una vera sirena’, como fora anunciada. É uma mentira. O circo, uma encenação. As risadas, desculpa para enclausurar a classe das sirenas em um aquário gelado. Come tutti i pesci…

Una vera Sirena? Aqui estou eu. E posso mostrar como é o sangue de sereia. Non é freddo. Isso eu garanto. Vamos ver até onde essa história pode chegar.

Grazie, Fellini! Pelo desafio proposto.

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