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Dois olhos vivos e grandes, emoldurados por cílios e sobrancelhas grossas. Cabelos negros, arrumados em volta da cabeça. Um não-sorriso contido. Seria jovem? A chuva a faz parecer chorar.

Abaixo, um senhor de olhar grave. Esse, mais idoso. Algo perto dos 60 anos, talvez, na época do registro. Uma sobrancelha levemente arqueada em relação à outra. Rosto redondo, pressupondo um corpo acima do peso normal. A esse, a chuva faz parecer suar.

Uma mulher de pescoço longo. A gola negra dá uma impressão ainda mais esguia. Lábios finos, boca comprida. Um sorriso naquele rosto seria algo tão improvável quanto um arquear de sobrancelhas. Indiferente à chuva, ela parece observar por trás de uma vidraça, sem nem menos perceber os pingos e rajadas de vento.

Molduras douradas. Estrelas diferentes. Só as cruzes coincidem. Mesma data.

Ei? Olha pra cá! Aloou? Vocês são novos por aqui?

Nenhuma resposta. O vento aumenta. O choro da jovem também, e o suor do velho.

Ei? Vocês não me escutam? Eu estava dormindo quando vocês chegaram. Mocinha? Está tudo bem?

A frase ao seu lado diz: “Nos dias de temporal, use o amor como guarda-chuvas”.

Quanta ironia! Abra o guarda-chuvas, moça. Não chore.

– Pare de chateá-la. Não vês que ela não está chorando? São só os pingos de chuva!

Desculpe, senhora. Só queria dar as boas vindas pros meus novos vizinhos de porta! Já que terei que olhar pra vocês por um bom tempo…

– Se depender da sua saúde, acho que o tempo será breve, mesmo. Quase não posso distinguir seus traços!

Ah, sim. Tinha esquecido. Estou há tanto tempo aqui que já devo estar todo manchado. Mas mesmo assim, acho que dura um pouco até me trocarem por outro retrato.

– E trocam? Não creio. Acho que só quando removerem a ossada.

Enfim. Não importa o quanto eu permaneça. Só quero dar minhas felicitações.

– Felicitações… Eu estava tranqüila em meu álbum de família, me arrancam e me colocam nesse lugar tenebroso. Com essa moldura antiquada, ainda por cima! Não combina em nada com os meus gostos par decoração.

– Regina! Não reclame. Aqui pelo menos podemos ver mais gente! A vida lá no álbum era muito parada. Nunca víamos ninguém. Só nas festas de família, resolviam tirar-nos da caixa!

O homem gordo parece ter despertado.

Desculpe, senhor. Acho que não me apresentei. Jaime Caruzo, aqui desde 1969. Desejo-lhe as boas vindas.

Arqueando mais ainda as sobrancelhas, o homem encara e não responde.

Um ruído estranho… Doce e melancólico. Um choro de criança? Não, um choro de uma moça.

Eu disse que a mocinha chorava! Menina… Por que estás triste? O céu está lavando o cemitério inteiro só pra te receber!

– Esse lugar me assusta! Por que me tiraram do porta-retrato da sala? É tão cinza, aqui…

Menina, veja por outro ângulo! Olha as lindas estátuas de anjos. Olha aquela que tem lá no fundo, de Nossa Senhora! Acho que é a das Graças. E quando não está chovendo, o pôr do sol cobre tudo com uma capa dourada. As lápides brilham. De onde estás, podes até avistar os prédios da cidade dando boa-noite ao sol.

A menina soluça, mas parece tentar parar de chorar. Ela pergunta pra senhora

– Como viemos parar aqui?

– Parece que morremos num acidente de carro. Ouvi quando estavam nos afixando no mármore.

– Você quer dizer… devemos estar em outra dimensão! Céu, inferno, nirvana… Lugar nenhum! – diz o homem com um riso de canto de boca.

– Não ofenda a nossa religião! Eu devo estar no céu, a essa hora! Pulando de nuvem em nuvem, conhecendo e apertando as mãos de todos os santos. Já, quanto a você… não tenho tanta certeza!

A chuva vai parando. A mocinha parece ter se acalmado. Uma lágrima de chuva escorre lentamente pelo seu rosto, indo parar no chão de mármore, entre as últimas flores da noite.

Tens belos olhos… Se eu pudesse, pediria emprestado o teu guarda-chuvas.

Ainda bem que os retratos não são em cores, porque se não o rosto da jovem estaria todo pintado de vermelho.

Tu vais ver o espetáculo mais belo, todos os dias. O pôr-do-sol… Mas a minha visão é a mais privilegiada do cemitério.

– Mas quanta insolência!

Vozes distantes. A chuva cada vez mais leve…

R.I.P.

Mais de um mês de blog… Nada melhor do que retornar ao Fellini, que inspirou o primeiro post!

O trecho final de I Clowns. Lindo.

Uma exceção aqui no blog. Nada de devaneios hoje.

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Começou o Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre.

Pra quem não puder aparecer lá no Centro de Cultura Érico Veríssimo, fica a dica da cobertura que o Garapa está fazendo do festival.

Dá pra acompanhar a transmissão ao vivo, também.

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Tá. Só pra não perder o costume dos devaneios, deixo uma frase  que, afixada na entrada do Centro de Cultura Érico Veríssimo, me fez balançar a cabeça em tom de concordância com as sábias palavras da mente de Bibiana, em O Tempo e o Vento.

Como o tempo custa a passar quando a gente espera! Principalmente quando venta. Parece que o vento maneia o tempo…

Atualizada na experiência de uma certa garota que fez vez de recepcionista, a frase veio acompanhada de um dos primeiros ventinhos frios desse ano no Rio Grande…

Porto Alegre. Érico. In-vento.

A velha com a xícara no colo. O calor dos últimos goles que ainda descansam ali dentro esquentando as mãos e a barriga. A colcha de retalhos em volta do corpo. Um travesseiro com nuvens e carneiros nas costas.

Carneiros nas nuvens. Quem já viu isso?

O mundo passa rápido lá fora. Pela janela, vê apenas o rastro de luz deixado pela matéria em movimento. Ilusão de ótica. Velocidade.

Pelos óculos de lentes grossas, dá pra identificar as linhas coloridas, horizontais, que surgem, intensificam-se e somem, dando lugar a outras cores. As gotas de chuva na vidraça fazem a janela parecer um canal de TV mal sintonizado.

O ruído da chuva. Os carros passam. O ruído do telefone. Ruído distante… Não dá vontade de levantar.

Aconchego da colcha. Cheiro do inverno passado. Do armário. As meias nos pés.

Atende o telefone?

Mais um gole. Outro. Termina o chá. Mas o calor que fica na xícara ainda aquece uma alma enrugada. Aquece pelas mãos.

Sono. O tempo passa tão devagarinho da janela pro lado de dentro!

Campainha. Ignora.

Uma luz vermelha faz movimentos circulares pela janela.

Campainha. Ignora.

O ruído distante do telefone…

Campainha. Ignora. Tem todo o tempo do mundo.

Campainha. Tudo bem. Levanta devagarinho e sente o frio subindo pelas costas recém-saídas das nuvens. Os carneiros na espera.

O frio da maçaneta. Abre.

Barulho. Buzinas. Respringos molhados. Um pequeno de olhos grandes encara, todo molhado. Fala algo. Um trocado?

Olhos grandes e negros. Alma enrugada na pele jovem de criança.

Fecha a porta e volta pra poltrona. Alma velha em pele velha de uma velha. Já não tem mais idade pra comoção.

O calor não volta mais. O calor foi embora com o menino.

Campainha. Ignora.

Ela viu os carneiros nas nuvens. O menino, não viu.

Cheiro do inverno passado. Mas acabou o chá.

fantasmas

Não. Não gosto do ar puro. Dá um vazio. Parece que o que a gente respira é nada menos que nada. Lembro de quando criança, aquele maldito cheiro da chácara da tia Lurdes. Lá na serra. Era o cheiro do que não existe. Depois, no fim da tarde, o cheiro do bolo. Aí eu gostava. Mas à noitinha, quando tudo virava em silêncio, era só o vento de fantasmas. E o frio. Mais intenso ficava o ar-de-nada.

Quem eu era, respirando o ar puro? Era um pequeno super-homem independente da atmosfera.

A gente esquece que respira.

No fim das férias, a volta à humanidade. O cheiro que saía do asfalto quente dificultando a respiração. Mas eu me sentia mais vivo. Inspirava aquela sujeira toda do centro da cidade, de olhos fechados. Vidro do carro aberto. Respirava os muros pixados e os pedintes. As buzinas e as sirenes das ambulâncias.

Lá na tia Lurdes, o corpo era mais leve. Mas era o céu que pesava. Para além do campo aberto, da meia dúzia de árvores, as cortinas do céu azul-escuro aproximavam-se com as suas estrelas-fantasma. Fantasmas porque eram só de brilho. Eu tinha aprendido na aula de geografia. A milhares de anos luz, elas não passavam de célebres falecidas a querer mostrar um resto de alma pros outros seres do universo.

Na cidade, eu raramente as via. Só em alguma noite de verão, entre os prédios, quando a luz artificial dos postes e as nuvens de fumaça permitiam a passagem do brilho-fantasma.

Melhor assim. Sempre tive medo de fantasmas.

Caminho também hoje pelas ruas da cidade. Só pra sentir o peso dos meus órgãos e víceras. E o estralar dos ossos. Os fantasmas são feitos de nada, porque seus órgãos não pesam mais e seus ossos não rangem. Sentia e sinto a poeira pintando de cinza os pulmões. Via e vejo aqueles milhares de elementos químicos entrando pelas veias e espalhando-se em pequenos pontinhos negros por todas as células do corpo. Como os carros que chegam na cidade depois do feriado de carnaval e vão tomando as ruas e travessas, povoando de barulho e gasolina a atmosfera.

É a morte que vai tomando conta. A cidade, que mata lentamente. E lembra que estamos vivos. Porque estaremos mortos. E a cidade também morrerá.

Os cartazes gritam protestos. Shows de música. Bizarrices. Prostitutas. Ganhe dinheiro. Viagem para o nordeste. Raul Seixas. Procura-se animal perdido. Perdido na rua. Não quero ser encontrado. Não hoje. Quero andar e ver os muros pixados e destruídos e ser pixado e destruído. Por dentro e por fora. Vende-se teclado em bom estado. Terça-feira tributo The Doors. Só Jesus salva.

Pés sujos de pó, não da lama do riacho lá da chácara. É bom assim. Dá pra se fundir com a cidade. Se grudar no concreto pelo peso do próprio corpo.

E fugir dos fantasmas. Só eles são eternos, lá no ar puro da Tia Lurdes.

Ou será que os fantasmas só mudaram de nome?

Respiro fundo. Só pra acreditar que ainda vivo…

Vivo?

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