You are currently browsing the monthly archive for agosto 2009.

varal

Não fosse o espírito dessas nuvens cor-de-rosa lilases douradas cinzas recortadas por suaves navalhas do sol do fim da tarde que joga seus cabelos lisos louros sobre a cidade e tinge os prédios com o tom da sua última escolha de tintura de farmácia deixando parte das minhas roupas penduradas no varal tão acesas quanto as chamas das velas do nosso último jantar e fazendo as meias floreadas e as calcinhas baratas dançarem na parte que já virou sombra do quintal aquele rock’n’roll meio suave que me mostraste numa noite qualquer do mês passado e as laranjas do terreno da vizinha queimando em seu bronzeamento fora de época ao som da voz da minha mãe que garante que tão lindas nuvens estão anunciando chuva logo acima das construções novas velhas recuperando o multicolorido original pré-toque dos cabelos louros do sol e as luzinhas nas janelas se mostrando lentamente para enfeitar a cidade e imitar o pinheiro do natal de 1998 que o pai arrumou e hoje é tão visível por entre os galhos da velha e nua árvore chacoalhando tímida por causa do carinho do vento que chegou até os meus cílios…. Eu acreditaria que estamos no inverno.

Mas alguma alma doidivana enlouqueceu os calendários.

Eis a primavera. Under my skin.

Anúncios

Pequenos olhos abertos, fitos no teto. A respiração da irmã na cama ao lado. Luzes amarelas de um carro solitário. Passa e deixa rastros de luz em fitas. Fitas cortadas pelas venezianas da janela de madeira. Fitas que passeiam pelo papel de parede da cor do escuro. Vontade de ligar o abajur. Inventar um pouco de sombras. Sombras de vida na noite morta. Reza pra passar um outro carro. Outros moços perdidos pela madrugada quente. Ensaio de sombra. Ensaio, pelo menos. Tenta espantar os fantasmas. Mãos apertadas sobre o coração. Santa Rita de Cássia? A mãe gosta dessa. Não, Santo Antoninho. Ele tem um menino Jesus no colo. Não, não… Ouviu na aula de religião que o santo das crianças é São Domingos Sávio. É esse. São Dominguinhos, vem trazer o sono. Santo criança, ele também. Morreu só com 12 anos, a idade da irmã mais velha. Só 3 a mais do que ele próprio. Morreu praticamente dormindo. Tranquilo. Tuberculose. Jesus veio buscar. Tinha na gravura que a profe mostrou. Morreu de mansinho, na madrugada. Morreu? Frio na espinha. Solta as mãos de oração e coloca a cabeça debaixo do travesseiro. Não quer mais rezar. Espanta da cabeça a imagem daqueles olhos voltados para o céu, da gravura da profe. Dominguinhos tranquilo. Dominguinhos morto. Escuta mais um carro passando. Esperança? Tarde demais. Quando lança os olhos ansiosos pras paredes, as fitas ensaiando luz já se diluíram no escuro. Aperta as pálpebras. Aperta as mãos até doer. Aperta os lábios. Pensa. “Dorme dorme dorme…”. A respiração da irmã na cama ao lado. Inveja do sono alheio. Tem que ir pra aula amanhã. Mas amanhã só vem depois da eternidade. Madrugada infinita. O barulho do relógio lá da cozinha. Uma hora entre cada milésimo de segundo. Um milésimo de segundo entre cada batida do coração. Uma batida do coração e uma lagrima no canto do olho. Quer correr pro quarto do fim do corredor. Afundar-se na cama da mãe. Mergulhar entre os lençóis cheirosos e cobertas. Fantasmas que ele não vê, atrás. Presos no corredor. Pernas trêmulas, suadas por debaixo do lençol. Mas o pai vai brigar. Isso é coisa de homenzinho? Se meter entre os braços da mãe? Tá com medo do que, guri? O anjo luminoso que a vó deu flutuando no escuro. Se movimenta? Aperta os olhos. Segura os olhos. Não quer ter olhos. Mais uma hora entre o tic e o tac do relógio. A irmã abre a boca e solta um suspiro antes de virar-se para o outro lado. Mesma respiração pesada. Por que diabos o sono não vem? São Domingos Sávio o observa, sem olhar para dentro de seus olhos. Madrugada infinita. Até o não-amanhecer.

.

O tema desta postagem foi madrugada. Minha sugestão para um próximo tema é fotografia.

Até a próxima!

catedral/gramado

Tentando achar um bom ângulo para olhar o mundo. E as cores certas. Às vezes na pontinha dos pés. Às vezes por trás de muros e névoa. Às vezes um pouco mais à direita do foco principal. Outras tantas, à esquerda. Às vezes com a ajuda de alguém para dar a dica. “Olhe para cima”. Dessa vez foi o pai. E em tons de cinza.

Gramado/inverno de 2009. “No teto de um dia nublado”.

Que nem o cigarro daquele fulano.

Cigarro prometido ser o último.

Na esquina da Floriano Peixoto com a Otávio Rocha, ele dá as últimas tragadas com ares quase naturais.

Quase. Não fosse a delícia estampada no rosto traduzindo a sensação de cada partícula de veneno da fumaça encostando nas papilas e no ar gelado de uma segunda-feira bem comum.

É, deve ser o último. Só pode. Se não o Fulano não o empunharia daquele jeito. Uma espécie de carinho. Afinal, é um carinho em relação à própria morte. Um suicídio semi-intencional (isso existe?).

É um colocar pra dentro sujeira. Afundar-se na fumaça preta.

Lembra a fumaça do churrasco na casa da avó, em 1957. O vento trazia para o pátio a brisa negra que saía da chaminé. A vó corria para recolher as camisolas brancas e os panos de prato recém lavados do varal. O Fulano, esse ficava. Do alto dos seus 10 anos, ou algo próximo disso, ele mantinha o seu direito de feder à carvão ao som dos gritos da mãe.

– Menino, vem pra dentro!

A mãe, essa já não deve mais gritar. Hoje, a fumaça é a do cigarro, e não mais a da churrasqueira.

A sujeira negra vai invadindo as vias respiratórias. Mas essa sujeira não parece ser tão feia quanto aquela que o médico de avental branco e face lisa mostrou no programa de TV da noite anterior. Será que o Fulano assistiu? Será que por isso decidiu transformar o cigarro da manhã no último cigarro de todas as manhãs da eternidade?

Na TV, as pintas pretas que o fumar vai deixando no pulmão molhado e cor-de-rosa de um cidadão comum assustam. O cigarro do Fulano não deve ser assim. A fumaça do cigarro dele deve é acariciar e fazer cócegas na superfície úmida desses órgãos que nao servem pra mais nada, a não ser…

Respirar.

R.e.s.p.i.r.ar.

Pra que respirar, se não vai mais haver o último cigarro? Haverá vida depois desse último cigarro fumado próximo da floricultura e da banca de revistas do seu Antunes que brigou com o desenhista de rostos que espalhou seus retratos pela rua e que não conseguiu pagar o aluguel do apartamento a duas quadras virando à direita que a esposa escolheu no dia dos 10 anos de casamento que foi também quando ela decidiu parar de fumar porque descobrira que estava esperando um filho e passou a brigar todos os dias com a vizinha por causa do tapete que insistia em parar na frente da porta alheia?

Respirar o último cigarro. Pra depois parar de respirar.

Seu Fulano parece ser persistente. Ele vai conseguir.

A não ser que o último cigarro de toda a eternidade de amanhã escorregue pelas dobras da saia do centro de Porto Alegre e acabe caindo mais uma vez entre os dedos de seu Fulano.

Mas a vida… A vida. Essa deve ter sido inventada para ser fumada. Bem devagarinho.

Que nem o último cigarro. Daquele fulano.

Siga-me

Jornalismo Travessia

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

Junte-se a 7 outros seguidores