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O Bruno na frente da Bia. A Camilinha na ponta, ao lado da Camila Freitas. A Camila de Grandi lá atrás. Esguia. A única menina da última fileira. O Edu, gordinho, sempre no canto, junto à Tia Mara. O Jonathan na fileira do meio, entre a Martina e a Maria Clara. Posição estratégica escolhida ditatorialmente pela professora. O pequeno demônio entre os dois anjos da classe.

Estratégia que deu errado. Mesmo tendo o braço curto, o garoto alcançava a saia da Fernandinha. O tradicional grito esganiçado. Tiaaaa, olha o Joni! Ele quer puxar a minha saia! Pronto. Parte do objetivo do pequeno estava alcançado. Fernandinha olhando furiosa para ele, vermelha de raiva. Lá veio a profe. Pára quieto! Na próxima tu vai ser suspenso, guri! Ele virou-se para a frente. As pequenas mãos escondendo o riso. Para todos, riso diabólico. Para ele… Ah, já que estava no inferno que por engano chamam de escola, pra que não tentar se divertir um pouco?

O Carlos batendo os pés em marcha na estrutura de madeira montada para a fotografia da 3ª série de 1997 da Escola Nossa Senhora de Fátima. Os tais registros escolares para os quais as pessoas só conferem alguns significado depois de algumas décadas, ou fios de cabelo a menos. Mais uma necessária intervenção da professora. Pára com isso, Carlos! Quer ser suspenso junto com o Jonathan? Uma vozinha aguda no meio das exlamações de espanto. Bem que merecia. Era a Fernandinha de novo. Carlos retruca. Mas não fui eu, foi o Otávio! A rouquidão do baixinho que insistira em ficar na fileira do meio, apesar da estatura. Nada a ver! Cala essa tua boca de mentiroso, se não o meu irmão vai te dar uma surra. Um breve e intenso rebuliço. A risada alta do Edu, que sempre observava tudo, quase que de fora.

Será que eu vou ter que chamar a diretora pra convencer vocês a ficarem quietos por 5 segundinhos e tirarmos essa bendita foto? Era o velho tom quase de súplica da tia Mara. O fotógrafo bocejando, sentado numa das mesas de madeira da sala de aula. Pronto, Seu Martim. Pode tirar a foto agora. A professora formulou essas palavras já com o sorriso forçado no rosto.

Em sua monotonia, seu Martim encaixou a câmera no tripé. Ajustou o foco. Posicionou o equipamento um pouco mais para trás, para que coubesse no enquadramento a cruz de Cristo pendurada acima do quadro negro. Um inquieto burburinho de comentários de meninas e assovios de meninos.

O momento oportuno.

O rubor.

A Fernandinha, na fileira da frente. Ainda com raiva da brincadeira de Jonathan. Ainda sem sorrir. Tonho, sempre o mais baixo da turma, ao seu lado. O roçar da manga da blusa dele no casaco do uniforme escolar dela. O garoto respirou fundo. Fechou os olhos. Reuniu toda a coragem que já havia recolhido em seus quase nove anos de vida, e mais a coragem que ainda não tinha. A coragem que talvez nunca tivesse e…

Segurou a mão da garota. Coração disparado.

Relógio congelado no tempo. Turma congelada no tempo. Sorrisos congelados no tempo. O rubor da face de Fernandinha congelado no tempo. A textura da sua mão pálida…

Pronto. Era essa a foto que o menino iria guardar para sempre. Na memória. Foto tirada antes mesmo do clique da câmera de seu Martim, previsto para acontecer dalí a alguns segundos.

Segundo perfeito. Sublime… Suave. Eterno.

Não é pra guardar esses momentos que serve a fotografia?

Nada poderia estragar aquele segundo congelado. Nem mesmo um…

Soco nas costas. A breve avalanche de garotas caindo do pequeno palanque de madeira para o chão. Gritinhos agudos (das que não caíram). Os óculos do Tonho, grandes demais para o seu rosto, indo parar no meio da sala. A face desfocada de Joni, as suas mãos segurando-o pelo colarinho. Gritando. Gritando…

Lar-ga-a-mão-da-mi-nha-na-mo-ra-daaaaa!

Tonho virou o rosto para o lado, tentando proteger-se da fúria de Joni. Viu a Fernandinha, segurando a manga da camisa da profe. Ela olhava para ele. Olhos tristes. Balança a cabeça de um lado para outro…

Mas olhava. Pelo menos isso. Ela nunca o tinha olhado antes.

O pequeno menino sorrindo no chão. Mais um soco de Joni. Alguém puxou-o para longe. O gosto de sangue entre os lábios. As meias brancas da Fernandinha. Imagem desfocada, alí bem perto…

.

Não houve foto. Um buraco nos registros da escola. Jonathan com uma semana de suspensão. Fernandinha tentando convencer a todos que não era namorada do pequeno demônio. As suas bochechas ficando vermelhas em qualquer ensaio de olhar que Tonho lhe lançasse. As mil e uma versões da história passeando em cochichos e risos pelo pátio da escola.

E a foto mais linda da vida de um certo menino.

A foto que não foi tirada.

É nisso que dá deixar pra fazer a postagem temática na última hora. Fugi do tema de novo, hehe. Desculpem-me.

O tema dessa vez foi (era para ser) fotografia. Minha sugestão para o próximo é Músicas dos Beatles.

Só pra aproveitar a deixa da temática, coloco aqui a dica de um livro que não é sobre fotografia, mas toca na questão de uma maneira muito peculiar. É o livro Memória do Brasil, de Evgen Bavcar. Pra quem não conhece, o Bavcar é um fotógrafo cego. Nesse livro ele conta um pouco da viagem que ele fez para o Brasil (Porto Alegre está no roteiro). Além de ser muito bem escrito, traz também imagens belíssimas. Vale a pena.

O choro rasgado da moça da novela ainda atravessava o quarto quando o estrago foi feito do lado de cá da tela. E foi pelas próprias mãos daquela que era a protagonista da noite. Na vida real.

A mancha marrom-escura aumentava à medida em que a melodia de gritos da TV transformava-se em um eco distante, perdendo-se dentro do apartamento de uma janela só. Por coincidência, estava aberta naquela noite. A mãe nunca a abria. Só por causa do calor infernal de janeiro, mesmo. E dos novos ares que passavam por entre as venezianas dos nossos dias. A brisa suave de minutos antes da tragédia cumpria com a árdua tarefa de refrescar o mês amarelo-queimado, já que o ventilador de teto não dava conta. Só a sua voz de tédio marcava presença, fundindo-se aos gritos cada vez mais abafados da TV mau-sintonizada.

O gosto do café requentado. Maldito café requentado. O café que fez o coração parar em um baque. A mãe deixou cair no chão o copo reaproveitado de vidro de requeijão, ainda com algumas gotas do líquido escuro. E a mancha, ganhando tamanho. As gotículas, moléculas, átomos, emaranhavam-se cruelmente por entre os fios da seda violeta. Bem ali, acima do corte que marcava a cintura, deixando lugar para a fita.

Lembro-me bem da fita. Das horas, dos meses, das noites na cama quando ela me perguntava se não era muita pretensão. Não diriam que era já muito velha para fitas? Seu corpo estaria em dia para tal luxo? A saliência da barriga de quem já teve um filho não a colocaria no centro de um palco para ser alvo de tomates?

“Mãe, pelo amor de Deus! O vestido tem que ser feito pra ti, e não tu para o vestido!”

Eu virava para o lado e fingia dormir. Ela desligava a TV. Mas a saga não terminava naquele momento. A mãe seguia pensando. Calculando. Quantas pinças ao longo das costas? Zíper por trás, ou lateral? Às vezes ela passava a mão desde o seio até o início do quadril, para conhecer melhor as suas proporções. Eu sentia pelo movimento dos lençóis. No dia seguinte, redesenhava o tal vestido pela décima, décima quinta, vigésima sétima vez.

Era a ânsia de sentir-se linda.

A mãe era linda. E estava deslumbrante quando deixou-se cair de joelhos no chão do quarto. O vestido manchado de café entre as mãos. Uma lágrima grossa arrastando parte da maquiagem num rio negro que foi tingir o sutiã. Era mais bonita do que a artista da novela, que também chorava. De joelhos. E ainda por cima ela exalava um cheiro gostoso de sabonete, aquele sabonete barato. O cheiro dela. Os cabelos ainda molhados.

Na segunda lágrima, o corpo todo começou a tremer em soluços. Apertava o traje violeta entre os dedos. Unhas pintadas. Ia rasgar.

Pensa. Pensa. Passar um pouco de água. Isso! “Mãe, a gente lava rapidinho! Com esse calor, seca a tempo. Certeza!”. Não iria secar. Não mesmo! “Já sei! Por que tu não coloca aquele outro? O preto! Tu fica tão linda naquele preto… Parece o da novela! Olha!”. Não. Não… Há alguns anos aquele preto já não fechava mais. Ela sabia. Eu sabia. Não havia outra opção. “Vestido de velório”. Era o que a mãe sempre dizia quando olhava pra ele, e talvez nem tivesse pensado nisso quando começou a balançar a cabeça de um lado para o outro negativamente, apertando o vestido contra o peito e já deixando que a maquiagem o borrasse, formando um belo e triste quadro com seu rosto todo manchado. O batom vermelho em contraste.

Intervalo da novela. Agora era só o choro triste da mãe, ajoelhada entre as roupas espalhadas pelo chão surrado. O chão da nossa casa de uma peça só. Ajoelhada ao pé da nossa cama. A cama que há tanto tempo ela queria trocar por duas de solteiro. Afinal, eu era já uma mocinha. A velha máquina de costura em um cruel silêncio. Inoportuno. A máquina que compunha a trilha sonora de tantas madrugadas, quando a mãe tentava juntar umas notas pra comprar qualquer pequeno luxo que nos tirasse por alguns segundos do inferno amarelo-queimado. Aquele inferno que, naquela noite, iria desfazer-se por alguns instantes.

De repente o convite azul com letras douradas não fez mais sentido. Nem a esperança de encontrar o pai. De mostrar pra ele o que ele estava perdendo. Uma bela mulher num vestido violeta, passeando pelo salão da festa. A festa de 20 anos de formatura do colégio de interior. O interior que o pai tinha deixado pra trás. O interior que era interior de mais pra ele pra ser suportável. Preferiu o por fora.

E a mãe em violeta, violentamente bonita, num instante se desfez.

Ergueu-se. Deixou o vestido onde estava. Caminhou até o banheiro, ainda em roupas de baixo. Voltou sem os borrões de maquiagem. Voltou com a camisola já há anos rasgada na barra. Voltou para a frente da máquina de costura. Envelheceu uns 10 anos em 5 minutos.

Levantei pra recolher o copo velho, caído. Sujo do café requentado da manhã. Este não quebrara. Dizem que coisa ruim não quebra…

E assim voltamos à tempestade. Dentro do nosso copo.

Um copo reaproveitado de vidro de requeijão que acabara com o sonho de uma Cinderela velha, numa noite quente de janeiro.

E nos afogamos. No meio da nossa enxurrada particular.

“o escrito não passa de escórias do vivido”.
ok. menos de 140 caracteres.
upload.
quem twittou foi Kafka. um tal.
followers? ah, ele devia ter uns tantos.
doidos seguindo doidos.
twittando desde mil oitocentos e bicos.
talvez antes. talvez com a invenção da escrita.
só nao dava pra ver a frase colorida na tela com a foto do twitteiro feliz.
claro, naquela época também não dava pra colocar os links.
mas assim caminha a humanidade. enchendo a comunicação de perecotecos.
fragmentos de ideias. jogados por aí.
escórias do vivido, de acordo com o twitteiro homenageado do dia.
@franzkafka pra que escrever?
ah, escórias do vivido também têm um tantinho de vida.
talvez, até mais do que isso.
140 caracteres…
“eu te amo” tem só 9 e faz um impacto danado em certas moças por aí.
o tamanho da escória nao é o documento da escória.
bom. ou é. pra quem nao sabe twittar.
@franzkafka me ensina?
A gente pode colocar um laço azul em todo esse lixo.
e fazer bem feito.
se não quiseres, tudo bem. podemos trocar uns emoticons.
afinal, são só escórias mesmo.
escórias. bem menores do que a vida.
escórias não tomam o lugar da vida.
tomam?
@franzkafka :/

.

O tema dessa edição da Postagem Temática foi twitter.
Para a próxima, vou repetir a idéia que eu já tinha dado. Que tal falar sobre fotografia?

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