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Não foi amor à primeira vista. Nem à segunda, nem à terceira. Foi à sétima, as sete horas da manhã, no sétimo andar.

A presença dele era constante em seu corredor. O cruel corredor de sorrisos simpa-té-ticos, depois do elevador e antes da porta cinza de sua sala. O corredor que não permitia que ela voltasse a cabeça para cima para cumprimentar o moço que já vira umas tantas vezes, mas nunca com a atenção devida. Cabeça ocupada em encenar a própria vida. Ocupada em conter o incêndio no seu teatro interior que faria desmoronar a sua peça cotidiana.

Mas na sétima vista, alguma coisa havia mudado no ambiente. Talvez fosse porque a manhã estava demasiado sonolenta para que ela se atrevesse a fechar os olhos e encostar-se no espelho do elevador, como sempre fazia, sem pegar no sono. Ao invés disso, ela encarou as suas próprias olheiras refletidas. Seu próprio início de sorriso simpa-té-tico. Sua própria manhã de eterna segunda-feira.

A porta do elevador abriu-se às suas costas e mostrou a silhueta de um homem refletido no espelho. A sineta suave que indica a chegada ao andar preciso soou mais lenta. A moça deteve-se por alguns instantes para observar o moço, antes de ser novamente engolida pelo elevador do antes do dia cinza da sua sala.

O homem era verde e corria, sem nem mesmo se mexer. Preso em suas duas dimensões, movimentava-se em direção a uma seta.

Saída de emergência. Em caso de incêndio.

Emergência, era a situação. Fogo. Por dentro. O homenzinho verde quimando junto e longe dela. Parados. Não conseguiam fugir.

Ela quis tirá-lo logo dalí e levá-lo para um corredor onde pudessem correr em paz, encendiando salas cinzas de prédios. Longe, bem longe!

Saída de emergência, para salvar a sua vida do frio, da ausência, da encenação.

Amou o homenzinho verde, profundamente. Devotou-lhe a atenção que nunca havia devotado e sentou-se no chão do elevador. Sentiu-se ele, idêntica. Quis casar. Sonho esquizofrênico. Até a voz metálica des-despertá-la mais uma vez.

Térreo.

Levantou-se, encostou-se no espelho. Fechou os olhos, respirou fundo. Apagou o pouco que pode do próprio fogo e matou a sua história de amor com uma placa.

Riu de si mesma.

Apertou mais uma vez: 7º andar.

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Nunca, mas nunca mesmo, me deixe acreditar em foguetes, relógios, cartões de crédito. Nem mesmo em pixels, ou aquela lorota da mistura pronta para bolo de fubá. Quanto aos políticos, os óculos escuros, as tomografias computadorizadas, não permita que eu fale qualquer pedaço de palavra em defesa desse tipo de besteira. Não preciso acreditar em nada disso. Muito menos o monte de porcarias que nos empurram goela abaixo pelas ruas, nos outdoors, nas prateleiras dos supermercados. Há gente besta por aí que acredita em cada coisa… “Mais barato”, “cabelo mais liso”, “homens aos seus pés”, “viagens”. Eu não. Eu boto a minha fé em outro lugar. É justamente no mesmo bidê em que coloquei a rosa que me destes. Lembre-me de regá-la, porque é nesta rosa que eu acredito quando abro os olhos meio sem vontade todo dia cedo da manhã. Se ela morrer, vou me esquecer da beleza. Se eu esquecer da beleza, não vou ter forças pra levantar. Durmo pra sempre – mesmo que de olhos abertos e movendo-me pela cidade. Se isso acontecer, vou perder o sabor do leite misturado com café passado, lá pelas 7 e 15, quando ainda está tocando no rádio o programa de música dos anos 60. Vou perder de sentir a bolacha maria com um pouquinho de geléia de morango desmanchando na boca. Se eu dormir pra sempre, como é que a minha Lua em Aquário vai avivar a vontade de liberdade que me faz mecher as pernas e transformar em fantástico um dia normal? Não vou sentir o vento que as asas dos anjos fazem na travessa que dá no colégio Martim de Freitas. Eles passam ligeiro, é preciso estar acordada para percebê-los. Vou perder de perder a hora da aula, só para sentir o roçar desse vento. Vou perder de subverter os relógios. Ah, e se não sair da cama, vai demorar mais tempo ainda pra minha fita verde do pulso se rasgar. Senhor do Bom Fim, três pedidos. Não esqueci de nenhum deles. E se eu só dormir, não vou viver. Se eu não viver, não vou morrer. Se eu não morrer, não vou pro céu, que segundo os meus cálculos deve ser tipo um Woodstock com um público mais diversificado. Vou perder de assistir ao Jimi Hendrix e sua guitarra inflamada, The Who, a Janis. Basta ter perdido o evento por não ser nascida, só faltava eu perdê-lo por não-estar-morta. Não quero isso. Preciso viver, pra depois morrer! Preciso também criar coragem, porque se eu chegar no céu e lá não estiver o teu sorriso, eu arrumo as trouxinhas e volto. Mesmo que o Jimi Hendrix esteja lá. Não vale a pena. Eu falo com Deus, negocio a passagem aérea. Ah, juro que volto! Não duvide. Volto pra te ver, e pra pegar também a rosa. Sim. A beleza da rosa. É nela que eu acredito. Ela pode me ajudar a começar sempre de novo, assim como ela me acorda todos os dias de manhã, e me puxa para fora das cobertas. Então, reforço o pedido mais uma vez… Não permita que eu a deixe murchar. Nunca! Não quero nem imaginar a minha vida feita só de xampús, bárbies grávidas, carros de fórmula 1. Não quero ser um zumbi. Quero a minha vida feita da rosa. Eu tenho fé nessa rosa.

E então, me ajudas a regá-la?

O tema desta edição da Postagem Temática foi .

Sugestão para o próximo tema: Chuva

Assim, de perto, pareces pequena. Cabes num mapa, dobrado na bolsa.

Não me deste medo. Nem um pouco. Tentaste me assustar, eu percebi. Mas sei que foi de brincadeira quando puxaste para cima os tapetes de pedra que estavam aos meus pés.

Não caí.

Desequilibrei, admito. E senti as pernas doerem quando tive de enfrentar a angulação de chão que me propuseste.

Mas foi só para fazer a coisa toda ter um gostinho a mais. Te peguei! E me pegaste pela dificuldade.

No fim, a descida compensa. Não evito o riso na corridinha ladeira abaixo. Eu fazia isso, quando criança. Tão íngreme quanto, do colégio para casa. Em gargalhadas. Mão na mão da mãe.

Nesta descida, me deste flores. De azulejo, sim. Duras, mas belas.

[Um pedido de desculpas pela subida que me impuseste? Talvez…]

E se estas não cheiram a flores, fazes soprar um vento fresco do rio, cheirando a peixe.

Comparar flores a peixes. Que estranho! Talvez seja porque descobriste o meu signo. Vindo de ti, não duvido.

Não pense que não notei como te adornaste para a minha chegada.  Passei por entre as cores dos lençóis e toalhas estendidos nas tuas janelas.  O sol escorre neles aos pingos, depois das seis. Tive de me molhar com tal tinta, feita de luz.

Escolheste a hora do nosso encontro pensando nisso, não? De fato, essa hora te cai bem.

Te cai tão, tão bem, que me fez cair em ti. Dentro. Foi logo depois do pôr do sol, ali, na loja de livros velhos, perto da estação de comboios. Me vi refletida numa das vidraças da vitrine. Fiz parte de ti.

Os dourados fragmentos de luz, aparecendo à minha volta em lamparinas… Lindas!

Linda. Tu és.

Pequena. Cabes na bolsa.

Cabes na alma.

Quem sabe inventaste este espetáculo todo só para que eu pudesse caber dentro de ti.

coimbra

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