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Era quando os dedos de Clara passavam pelo Si bemol que o Lá começava a dar sinais de ciúme.

A nota seguinte seria ele, mas não queria soar. Não daquela vez. Protesto pelo silêncio. “Onde já se viu…” – pensava a tecla. Os dedos pálidos da menina sempre acariciavam com mais intensidade aquela nota preta. Ouvira a professora de piano dizer “Chamam-se acidentes, os sustenidos e bemóis. São essas pretas. As notas da oitava são as naturais, as brancas. Dó ré mi fá sol lá si dó. Repita!” E lá ia o toque delicado da Clara espalhar-se pelo teclado, horas a fio depois do lanche da tarde.

Acidentes…

Naturais?

Ela costumava errar na segunda linha da página 2 do exercício 5. Acidentalmente previlegiava os acidentes. Pulava o Lá, indicado na partitura logo depois do Si bemol. “O Lá, olha o Lá, cabeça de vento!” Repetia para si mesma a garota com sua voz aguda. Tentava mais uma vez, mas perdia o ritmo. Batia na própria testa com as mesmas pontas de dedos que tornavam aquele maldito Si bemol bem sonoro, ao invés do Lá.

Si bemol sorria. Lá chingava. Mi sentia Dó, que lamentava a situação. Ré e Fá dormiam, e o Sol ficava lá fora, além da janela.

Era para a janela que Clara olhava na tentativa de clarear as idéias.

Mas só vai brincar na rua depois de estudar todas as escalas, dizia a mãe.

Agora essa. O Lá sem soar. Mããããe, o piano tá quebrado, lá não tá tocando mais! Já posso ir andar de bicicleta?

Não, não podia. Começou a bater no Lá para que destravasse e terminasse logo com o tormento.

A textura do dedo indicador da garota satisfazia a tecla teimosa. Conseguira a sua atenção! O Lá chegou a mostrar a língua pro Si bemol. “Toma essa, acidente!”

Pronto, missão cumprida. Já poderia destravar.

Teclas de marfim, teclas de ébano. Oposição de cores.

Harmonia?

O certo é que para tocar a valsinha preferida, Clara passeava por todas elas, acidentando-se nas naturais e naturalizando-se nos acidentes.

Música girando nos dedos pálidos. Nas teclas brancas. Nas teclas pretas.

Todas apaixonadas.

Por Clara.

Escurecia…

O tema desta edição da Postagem Temática foi Preto e Branco. Minha sugestão para o próximo tema é Rock.

Aproveito para encerrar o ano de postagens agradecendo a todos os que me honraram com suas visitas.

Até ano que vem!

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Foi por causa da bexiguinha que Rita empurrou com toda a sua pouca força o peito de Renato.

Foi por causa da presença do Augusto no canto do pátio que Renato atirou a bexiguinha.

Foi por causa da falta de mira que a Rita ficou toda molhada.

Foi por causa da dor de barriga que Rita estava chorando encolhida no meio do caminho entre o atirador e o alvo.

Foi por causa do boletim vermelho a dor de barriga e o medo de voltar pra casa.

Foi por causa do calafrio por baixo da blusa enxarcada que Rita gritou que odiava Renato.

Foi por causa do grito que Renato foi parar na sala da direção da escola.

Foi por parar na sala da direção da escola que Renato não ganhou presentes de Natal.

Foi por causa da falta de presentes de Natal que Renato comemorou a data de forma semelhante a de Rita.

Foi por causa do boletim vermelho que Rita não ganhou nem mesmo as tradicionais cócegas do pai fantasiado de Noel.

Mas foi por causa da delicadeza do toque nas mãos que o empurraram que Renato pela primeira vez sentiu as cócegas do lado de dentro.

Foi por causa das cócegas do lado de dentro que ele conheceu a estranha vontade de que logo chegasse o próximo

primeiro

dia

de

aula.

Quando eu nasci a enfermeira do hospital não me olhou nos olhos. Gritei com ela! Tentei chuta-la. Olha pra mim, garota! Onde já se viu… Ainda por cima ela usava uns brincos redondos rosa-pink. Ridículos. Totalmente em contraste com a sala branca, fria e esterilizada em que eu vim ao mundo. Nem aí pra dor da minha mãe, a chata. Ela me entregou no seu colo com uma cara lisa de porta e foi encostar-se no canto da sala, olhando as próprias unhas. Notei a breve careta que ela fez quando viu a sujeira do meu nascimento no seu avental. Por que não me olhou? Droga! Deve ser por isso que eu peguei nojo das mulheres que usam brincos coloridos. Dizes que eu não posso lembrar? Mas é claro que lembro! É como se eu visse a cena de novo aqui, na minha frente! Ela toda nhem-nhem-nhem, depois, pegando-me pela cintura com as mãos geladas. Pesando-me. Medindo-me. Deitando-me no berço da maternidade. Não me olhando nos olhos. Aquele jeito profissional mas sem um pingo de respeito pela pessoa que eu ia virar. O que eu ia virar? Eu, bolas! Não é mais do que o suficiente? Eu e a minha vida meio sem metas, meio sem nada, mas com um certo vazio repentino do vez em quando que vale a pena por poder ser preenchido. Geralmente o preencho com literatura policial e morangos. Morangos só quando sobra dinheiro. Quase nunca, mas morangos. Pink. Nunca me atreveria a gastar o meu dinheiro com um brinco daqueles. Que coisa ridícula. Vi ela esses dias na rua, já está velha. Como não olhar pros brincos? Não me olhou nos olhos. Me lembro bem. Rosa. Redondos. Ei, olha pra mim!

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