You are currently browsing the monthly archive for janeiro 2010.

Ele subiu na caixa de madeira roubada da feira, cruzou os braços e levantou o queixo. Assim ficava mais fácil olhar com a altivez desejada para a massa de gente cinza que passava pela ruazinha alguns centímetros abaixo. Meus súditos, pensou com as pálpebras quase cerradas e o sorriso de rei de si. Guarda-chuvas negros formando descompassada movimentação: um cortejo de boas-vindas ao soberano. Estranho era eles passarem olhando para a calçada, mas vai entender as manias  de cada povo… Os que não tinham guarda-chuvas corriam, apertando as bolsas e casacos contra o corpo.  Alguns colocavam-se debaixo de marquises, sem o cuidado de observar a festa. Olhavam para os pulsos, relógios, vitrinas, o céu. Pobres plebeus… Teria que implementar um programa de reeducação do olhar, para ver se viveriam mais alegres. Nem sabiam o quanto era bom ser rei e ver tudo alí de cima, sem nem ser afetado pelo temporal da segunda-feira de um janeiro qualquer. Pegou um cabo de vassoura e apoiou-se, cuidando para não cair da caixa. Com o outro braço, fez um movimento de saudação para os seus súditos. Mostrou os 10 dentes amarelados numa risada alta. Era o início de uma nova era para aquela cidade. O carro de música passou tocando algo que falava sobre supermercado e preço baixo. Tudo bem, quando começasse o seu reinado as músicas dos cortejos poderiam ser trabalhadas para terem melhor qualidade. Mexeu nos próprios cabelos molhados e longos, e deu pela falta da sua coroa de papelão. Teria perdido? Ah, mas que rei precisa de uma coroa quando se tem nas vistas um céu particular tão azul, apesar da chuvarada?

Anúncios

2010

Nada, Júlia! Nada!

A frase ecoou pelo ambiente misturando-se aos reflexos nas vidraças da água da piscina. Júlia parou o treino e olhou em volta, tentando localizar a origem daquela voz masculina tão familiar. Ele não tinha morrido? Onde estava?

2004

Nada, Júlia. Não é nada…

Como assim, nada? A mão dele secando o suor da testa e o suspiro lento de quem carrega um camelo nas costas evidenciava mais do que o nada. Talvez o fim de um dia ruim e o início de uma noite pesada. Mas se ele não queria compartilhar o peso, tudo bem. Mais uma vez, ele ficava com tudo, e ela com…

2002

Nada, Júlia? Nada?

Nada, ora bolas! Não era nada que lhe quisesse contar. Nada que lhe dissesse respeito, afinal, já podia resolver seus próprios problemas. Se não contas os teus, não te conto os meus, tentava dizer só através do olhar adolescente. Fim de papo, boa noite. Trancou-se no quarto. Lágrimas.

1994

Naaaaaaaada, Júlia! Naaada!

Escutava de longe o grito e as braçadas dele na água barrenta, enquanto ela buscava o chão do fundo do lago. A vegetação grudando no rosto, o vestido volumoso puxando para baixo. Sensação de morte, sensação da chegada do

NADA!

A mão dele em volta da sua cintura, a água saindo pela boca. A textura da madeira do chão do barco, vida de novo. O beijo molhado na bochecha depois que ela abriu os olhos assustados de criança… Pai? Tô viva? O sorriso aliviado dele… Sim, filha. Não foi nada… Não foi nada…

2010

Nada, Júlia…. Não era nada.

A sua própria voz dentro da cabeça. Que ideia maluca, parecia mesmo que tinha ouvido a voz do pai morto! Devia ser o treino em demasia, percebeu nos dedos já murchos de tanto nadar. Não era nada de mais…

Mas por um instante resolveu parar. Júlia ousou desobedecer a ordem da sua cabeça e do pai de seu delírio. Deixou o corpo soltar-se no meio da água, no cheiro do cloro, no vazio do não querer lembrar. Boiou um pouco. Sentiu-se desfazer na piscina, na voz dele misturada com a própria voz.

Deixou-se submergir.

O braço dele não apareceu em volta da sua cintura, puxando-a para a superfície.

Sentiu aquele nada do não contado de noites de tanto para lhe contar, e também dele saber.

Dura verdade sentida. Sem ele, ela não era…

Nada, Júlia! Nada!

.

O tema desta edição da Postagem Temática foi Nada. Minha sugestão para a próxima é Moda.

Criarei um símbolo só pra mim. Será o meu carretel, o meu Viva la Vida. Será a pétala de flor que deitará sobre os meus lábios para sempre fechados, e a vela que aquecerá as maçãs do rosto no dia do meu 15º aniversário. Será a sola do meu sapato na próxima queda, e a pedra da calçada que esfolará o joelho sem meia-calça. Será a palma da minha mão apertando as pálpebras quando eu quiser enxergar o mar, e o meu livro de memórias de não mais do que duas páginas. Será o que verei em todas as placas, nos aeroportos, estações de trem, cruzamentos, destinos, praças. Ele estará nas publicidades de supermercados, nos planos e mapas do próximo assalto. Um símbolo para a próxima guerra. De travesseiros, de pijamas, de sinfonias de ninar.  Fincarei bandeira! Tomarei um país qualquer. Um país da península da minha saia. Riscarei o símbolo na minha pele, pintarei ele em cada ruga do meu rosto. E será só meu.

Esconderei-o dentro da minha caixinha de lápis.

Será o meu próximo devaneio. Mas esse, não. Esse eu não te darei de graça.

Siga-me

Jornalismo Travessia

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

Junte-se a 7 outros seguidores