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Eu estava remendando a velha saia de bolinhas quando tu chegaste pelas minhas costas e repreendeste-me com a doçura habitual. “Pra que usar a saia que foi da tia, foi da avó, foi de uma pera qualquer perdida entre os galhos da árvore genealógica?” Jogaste as bolinhas e peras no baú dos usados, e eu ajudei a trancá-lo. Nem que fosse por só alguns breves segundos. Breves sonhos, breves princesas, breves sorrisos. Breve toque da tua mão. Colocaste um pedaço de seda rosa no meu pescoço e puxaste a revista de moda emprestada da vizinha. Última edição, saia colorida na capa. Eu estava na tua capa – sempre estive. Gostaste do modelo, mas com uma pequena alteração na medida do evasê. Era o teu toque pessoal sempre deixando qualquer besteira um bocado mais elegante. “Não gostas de borboletas, né?” Eu nunca disse que não gostava, mas tudo bem. Tu separaras um florido de fundo branco, e eu não achei mal. Princesas. Breves. Inventavas uma nova e viva saia com um belo jardim na barra. Foi pra lá que eu me mudei, e deitei-me na relva verde. Senti a brisa causada pelas asas das borboletas a milhares de quilômetros de distância, já que tu as expulsaras. Mas o baú dos usados está sempre cheio, e volta e meia esparrama as velhas saias de bolinhas e as peras pelo chão… Quando vejo, lá estou eu remendando-as de novo, e espirrando por causa da poeira. Aí tu vens, me repreendes. E me reinventas dentro de uma nova e mais bonita saia.

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E lá ia a fome escorregar brincalhona pelas paredes do seu estômago. Ele já não se importava mais com ela. Já não lhe dizia “a tua brincadeira não tem nenhuma graça”. Não, até porque, se o dissesse, seria mentira. Depois de dias sem colocar nada na boca, a sensação do oco era quase agradável.

A fome lhe fazia cócegas, e ele nem ligava.

Querido, outra vez não vens jantar?

O tom de súplica da voz da mulher não lhe comoveu. Jantar? Não mesmo! Só daria a alguma comida a honra de entrar no seu estômago de artista se essa comida fosse por ele confeccionada. Nenhuma outra serviria. Só deixaria escorregar pelas suas papilas o gosto das suas pêras, das suas maçãs, dos seus pedaços de melancia. Tudo isso só seria feito sobre a sua mesa, coberta com a bela toalha de algodão azul por ele adornada com detalhes amarelos em pequenos laços de fita.

O vermelho das maçãs estava quase perfeito. Só mais algumas pinceladas de amarelo para chegar ao brilho certo em relação à luz da janela imaginada à direita da mesa, um pouco acima do ponto de fuga. Eram maçãs dignas da corte real, certeza! Completamente em harmonia com o azul da toalha, até na parte que se enrugara um pouco abaixo do cesto de palha.

Alguns retoques a mais e a sua refeição estaria pronta. Começou a salivar.

Mas ainda faltava algo no trançado da palha do cesto… Não sabia ao certo. Intuiu que acrescentando um pouco de branco à parte da cena que a luz lambia chegaria ao palpável, às três dimensões, ao comestível.

Empenhou-se alí por mais três horas. Não ouviu os apelos da esposa que há dias o chamava.

Não vens? Tudo bem! Coma essa maldita tela e não reclame se ela tiver gosto podre, de tão madura!

Ela bateu a porta com toda a sua força, mas ele não escutara.

Uma vertigem, uma dor na nuca.

Só mais um pouco daquela mistura entre o lilás 4,5 e o marrom que a indústria de tinta a óleo ainda não havia inventado. Estava quase lá.

Aquele quase… Aquele quase que por mais uma noite não o deixaria dormir.

Fechou os olhos por alguns segundos, e quando os reabriu, viu a sua tela um pouco turva. A fome começava a lhe pregar peças de mau gosto. As suas frutas estavam em leve desfoque. Fechou mais uma vez os olhos, prendeu a respiração. Aproximou os dedos multicoloridos à tela, especificamente à maçã que estava metade à sombra.

O toque.

Conseguira. Sentiu a textura da casca da sua maçã na palma da mão. Abriu lentamente a boca em um sorriso que antecipava o gosto de fruta fresca. “Quem ri por último ri melhor”, pensou quando a fome transpassou-lhe o estômago, rindo-lhe da cara.

Os joelhos se dobraram. O pintor escorregou pelo chão do ateliê com a bela maçã entre os dedos. Não quis abrir os olhos.

Sua natureza já não era mais morta. E ele, satisfeito, já poderia morrer em paz.

Quiçá a tua sorte será a de não perceber o temporal.

Foi o que deu pra fazer pro Blogs Sintonizados com um toco de lápis e falta de idéias escritas.

O tema dessa edição da Postagem Temática foi Sorte. Minha sugestão para a próxima é Guerra.

Por ocasião do teu aniversário, ela subiu no mais alto telhado da sua Paris interior e recitou um poema de qualidade duvidosa. Havia te transformado em terceira pessoa, ainda que tu fosses a primeira na sua vida há algum tempo. Era um poema qualquer que falava de ti, mas também de léguas, mares, ventos… Não gritou porque sabia bem que tu a escutarias – mesmo que ela não falasse nada. Amassou o papelzinho contra o peito com vergonha de ter a autoria, mas apesar disso procurou os teus olhos no horizonte da noite escura – queria saber se o presente havia agradado o dono da festa. Porém, encontrou apenas retalhos de prédios formando os contornos da cidade a sudoeste. Foi então que ela teve uma ideia: transformar-se também em terceira pessoa. Quem sabe colocando os pronomes pessoais na mesma posição discursiva pudesse pelo menos te sentir mais perto… Sim, ele e ela. Soava bem.  Desamassou o papelzinho e trocou a conjugação dos verbos. Terminada a tarefa, recitou tudo de novo, e sentiu-se satisfeita: conseguira encontrar os teus olhos em uma das janelas das casas velhas, mudas aos seus pés. Rias da moça, não é mesmo? Ainda assim, ela estava feliz. Tão feliz que resolveu assoprar velas imaginadas em tua homenagem, fazer desejos. O desejo mais profundo – aquele que veio acompanhado de um abraço em volta do próprio corpo – era o de jogar o seu poeminha ao vento e voltar a ser primeira pessoa. Mas dessa vez contigo, e no plural.

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