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Ela rabiscou papéis, lençóis, as paredes da sala. Pegou seus pincéis e pintou o próprio corpo de azul. Riu com vontade, saiu correndo rua afora de pijamas. Pendurou desenhos nos varais dos vizinhos com prendedores de roupa de todas as cores e formatos.

Chegando no centro da cidade, pixou nos muros loucas frases de amor. Quebrou vitrines, rasgou gravatas, roubou laranjas e livros ilustrados. Fazia calor, e a calçada era tão quente quanto o seu próprio sangue. Deitou-se alí mesmo, e devaneou em voz alta por entre restos de lixo e gotas de suor.

Era isso que queria: mostrar para a cidade inteira que não precisava comprar e nem vender nada para ter uma fatia de alegria em grito. Não precisava fazer algum sentido. Só precisava de algumas frases belas, nunca ensaiadas. Imagens que estavam do lado de dentro, por baixo das suas pálpebras fechadas.

Gritou gratuitamente. Ninguém pagaria mesmo por aquele estardalhaço. Mas foi bom. Foi bom sentir dentro de si sangue circulando. Quente. Sem taxas, sem nada, só com a vontade.

Já passou-se um ano, e ninguém a recolheu daquela rua… Ainda pode ser encontrada distribuindo migalhas de pensamentos: breves devaneios.

Devaneios grátis.

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A besteira acima é uma comemoração ao aniversário de um ano do Devaneios Grátis. Obrigada a todos que continuam dando trela para a mocinha do texto. Ah, ela prevê uma mudança de rumo: me contou que está com vontade de tirar as mãos de cima das próprias pálpebras.

Existem milhas e milhas de distância entre o silêncio e a ausência de ruído. E essa ausência de ruído corta meus tímpanos, passa a sua lâmina pelo lado de dentro do cérebro, escorre viscosa junto com o sangue para o fundo do que um crente chamaria de alma.

O silêncio, não. O silêncio adormece os meus medos, acaricia os meus ouvidos, faz-me abrir o livro numa página branca que não precisa necessariamente ser preenchida. Essa página é completa pela sua pureza, pela sua plenitude de possibilidades.

Madalena conseguia ficar em silêncio por longas horas, enquanto eu me limitava a mergulhar na minha ausência de ruído. Ela dizia todas as coisas através de um sorriso não escancarado. Volta e meia desenhava-se no seu rosto pálido um rascunho do que eu defini como a imagem mais aproximada da paz.

Quando ela sorria daquele jeito, o meu mundo esvaziava-se de barulho e enchia-se de cores, de belas imagens. Enchia-se do silêncio dela, que eu sempre tentei alcançar por mim mesmo. Esforço frustrado. O meu silêncio estava em Madalena e na ideia de nem mesmo precisar ouvir a sua voz.

Ela pintava as minhas páginas brancas…

Entre gritos e buzinas, tento reconstruir aquele rosto meigo, mas vejo que trilhei o caminho errado. Madalena calou até mesmo o próprio silêncio, junto com o meu, e foi embora. Transformou-o em ausência. De ruídos. Vazio.

Afundei-me.

Agora tento remendar os cortes e remendar a Madalena. Mas o silêncio, não. Esse silêncio não vou conseguir remendar.

“Madalena, não peço que grites, mas só me sussurre… Por onde andas? Em que rua barulhenta te escondeste, minha paz?”

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O tema desta Postagem Temática foi Silêncio. Minha sugestão para a próxima é Leitura.

O sal das ondas fazia festas nas peles pálidas dos três meninos à beira da praia. Gritos altos e risos. Água gelada mudando os relevos da areia em volta dos corpos magros quase enterrados. Queriam engolir o mar. O menor engasgou por ter aberto demais a boca de felicidade, mas nem o pequeno pássaro verde refletido na poça de um ensaio de castelo de areia pareceu importar-se. A breve corrida pela orla contra o vento cortando os corpos molhados causou uma dor de frio até os ossos. Mais gritos. O traçado das tatuíras debaixo dos pés e por entre os dedos formava um belo quadro com o sol pincelando de azul a parte da areia que o mar acariciava. Lá ao longe, a torre de pingos desmanchava-se lentamente, condenando ao esquecimento certa experiência arquitetônica matinal. Os meninos não eram bons arquitetos – pelo menos não em grandes projetos como castelos. Em termos de mausoléus, sim. O dos olhos cor de mel já tinha apenas a cabeça para fora da areia lá pelas quatro e meia, quando desdobrou-se no horizonte um belo sol de fim de tarde. Pequenas tumbas cambiantes para aqueles que recém nasciam para mais uma brincadeira. Vida. A última onda gelada por cima das peles murchas dos breves e barulhentos donos da praia.

Chicos en la Playa de Joaquín Sorolla y Bastida

E era eu a cem por hora na highway das minhas veias, procurando o meu próprio rosto entre os rostos dos andarilhos que pediam carona pela estrada. A placa depois da ponte dizia: “A gente nunca encontra a si mesmo”. Não confiei na sinalização. Acelerei mais um pouco e segui em frente, sem olhar pros atalhos, sem dar atenção aos andarilhos que me rogavam pragas.

Sobre a mesa lá de casa, apenas um bilhete: “Mãe, não chora, um dia eu volto, e trago comigo o pedaço de mim que eu ainda estou por encontrar em algum ponto já rasgado do nosso mapa”. Deixei o recado debaixo da xícara manchada de café, pensando que o meu desrespeito de nem mesmo lavar a louça evitasse algumas lágrimas por parte da velha.

Pé na estrada. O pedaço de mim que me faltava estaria ali no caminho, certeza! Era só olhar com atenção… Talvez em algum posto de gasolina, ou descansando sob a sombra de alguma árvore.

“As moléculas da estrada penetram na epiderme e mudam o nosso código genético” – disse-me uma vez um dos andarilhos. – “O pedaço que te falta é aquele que tu deixaste em casa, e que já é um outro tu”.

A highway conduzia-me pelas linhas de uma circunferência. Era o meu fluxo sanguíneo sempre voltando para o coração, subvertendo as setas rascunhadas no velho mapa.

E era eu a cem por hora procurando – sem nem saber – a xícara de café a ser lavada. Correndo sempre de volta.

De volta para casa.

Post feito aos trancos e barrancos para a Postagem Temática. Dêem um desconto, porque eu tô atrasada pra pegar o avião (pra voltar pra casa, hehe).

Desta vez o tema foi Retorno. Minha sugestão para o próximo é Silêncio.

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