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Não é que eu queira te odiar, pequena! Sei que me amas de verdade, se não não terias investido tanto do teu tempo em mimos e risinhos por detrás da minha nuca. Mas o que é que eu posso fazer se não tenho amor cá dentro para te dar em troca? Eu não o tenho – mesmo que não acredites. É caso sério! Patologia. Podes dizer que estou cuspindo no prato em que comi, mas me sinto aliviado em dizer: não te gosto. E, sim, te odeio – mesmo sem querer te odiar. É por isso que vou embora sorrindo, agradecendo a Deus por não estar na pele do próximo que se enrolará por entre as tuas colchas.

Vou esquecer-te sem remorso, junto com o punhado de tardes de risadas (tuas). Como aquela em que costurastes um coração vermelho na minha lapela! Lembras? Cuidaste para que a linha azul não destoasse do tom do meu paletó. Vi que sorrias passando a agulha de um lado para outro do tecido encardido, mas teu sorriso não me fez nem mesmo cócegas. Pelo contrário, desejei que aquela agulha transpassasse a epiderme do teu dedo e te fizesse chorar, para desistir do passatempo bobo e do coração vermelho-falso (falso por estar em mim).

E quando me colocastes à mesa bem arrumada com a toalha xadrez que a tua mãe fez com sobras de tecido, não tive vontade de me servir do copo de plástico rosa cheio do suco que separastes do teu próprio almoço. Pequena! Não vias que não sou homem de beber suco, ainda mais em copos rosas? Não me arrependo de não ter engolido uma gota sequer quando aproximastes o líquido da minha boca, e não me arrependo de ter sujado o cenário que montastes para nossa janta, por não engolir o suco.

Jesus! E o dia em que me apresentaste o teu cão… Como te odiei. Teus dedos eram como lâminas nas minhas costas, encorajando-me a fazer amizade com aquele ser bruto que escorria baba pelos cantos da boca, pingando em mim, tentando arrancar o meu braço. Quis que fosses do meu tamanho, para ver se não sentirias o mesmo medo e o mesmo nojo que eu senti. Medo e nojo do cão. Medo e nojo de ti.

Não estou de todo triste ao ver a minha perna estatelada entre as babas do cachorro pelo chão. Uma parte ele ainda está a mastigar com gosto, enquanto ajudas a tua mãe na cozinha. Te falo a verdade: sorrio neste momento. Penso na tua reação quando chegares no quarto e me vires todo rasgado, por culpa do teu descuido. Culpa, sim! Sentirás culpa – talvez pela primeira vez. Verás minhas tripas de algodão espalhadas, pálidas, e levarás as tuas mãos à boca, com o rosto molhado em lágrimas. Até alegro-me ao identificar no olhar do teu maldito cão a intenção de terminar de me estatelar por inteiro.

Como eu já disse, não é que eu queira te odiar, pequena! Não é questão de escolha. Não te gosto e pronto. Guarde a minha carta como epitáfio e, por favor, não me recostures. Procure outro infeliz na sessão de promoções da loja de brinquedos, e mantenha-o perto do cão para que o seu sofrimento dure o mínimo possível. Ou então costures um coração do lado de dentro dele, e não só numa lapela. Um coração vermelho-vivo digno. Mais digno do que o meu.

Adeus (sem mágoas apesar do ódio),

Mário Marionete

– Maldito nome com que me batisaste!

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As palavras são amontoados de letras. As letras são uns rabiscos de sons. Os sons, por sua vez, são vibrações produzidas pelas cordas vocais. Partes do corpo, simples assim. Como os dedos! Você já se imaginou sem os seus dedos?

O velho de turbante já deveria estar me olhando enquanto eu matutava sobre o assunto. Como um gato perdido entre novelos de lã, enrolava-me entre as linhas coloridas do mapa parisiense afixado na parede da estação de metrô. Era como se meus dedos tivessem sido amputados para puxar a ponta do novelo de ruas em que me metera a partir do momento em que pisara em solo francês só sabendo falar oui.

Alguém para puxar a ponta do novelo… Onde? As linhas do mapa misturavam-se, manchavam-se, cortavam-se…

.

E de repente passara-se uma hora de caminhada pela cidade sem encontrar o endereço do hotel. Mochila pesando nas costas, neve acumulando no chapéu e nos ossos. Frio. Ninguém sabia dizer onde ficava o maldito Boulevard Jules Ferry. Encrenca pronunciada com biquinho – biquinho que eu nunca soubera fazer, e ainda não havia aprendido ao chegar mais uma vez na frente do mapa da estação. O emaranhado de palavras sem sentido à minha volta orquestravam uma confusa trilha sonora…

.

Não consegui decodificar de pronto os sons pronunciados pelo velho de turbante às minhas costas, mas eu sabia que não se tratava de francês. Era uma pronúncia que despertava cheiro de deserto, tons de amarelo queimado. A pele escura desenhada em rugas talvez fosse similar ao próprio relevo daquele que deveria ser o seu país de origem. Oriente, com certeza.

Como por intuição, eu disse: Boulevard Jules Ferry! J-U-L-E-S F-E-R-R-Y. O velho abaixou a cabeça. Senti uma pontada de dor nas costas só de imaginar que ele seria mais um entre tantos que não saberiam me indicar nem ao menos uma direção. Até que…

République.

A breve palavra surgiu por entre os lábios envelhecidos. Ele apontou no mapa uma outra estação de metrô com este nome, traçando a partir dalí uma linha até o ponto chamado “Bastille”, onde nos encontrávamos. Parecia o desenho do fim do novelo – o desenho de um sorriso nos meus lábios. Depois, os dedos começaram a traçar loucas curvas através de travessas já sem nome.

Ele fez sinal para que o seguisse. Receosa, fui. Sem entender uma vírgula, mas fui.

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Agradecer-lhe? Sorri. Não existiam palavras – literalmente – para o momento em que ele me deixou exatamente no fim do novelo. Já disse, era como se minhas cordas vocais tivessem sido amputadas naquele país. Tudo o que eu poderia fazer era sorrir, sorrir, sorrir, e abanar-lhe, quando se afastou.

“Que ideia ridícula”, pensei, quando certa palavra surgiu brincalhona na minha mente. “Ele nunca entenderia. Nunca…”. Mas, também… O que eu tinha a perder?

Obrigada, amigo! – gritei quando o velho já quase chegava na esquina.

Ele virou-se, juntou as palmas das mãos e abaixou a cabeça em uma espécie de reverência. Sim, convencera-me de que eu escolhera o agradecimento apropriado – na língua que era a minha. Obrigada, repeti baixinho… E eis que aquele amontoado de letras, rabiscos de sons, vibrações das cordas vocais, de repente me pareceu algo bonito – bem  mais bonito do que dedos! Para além do material. Ainda que não passasse de uma…

Palavra.

Fora de contexto

– mas compreendida.

Oui. Simples assim.

……….

O tema desta edição da Postagem Temática foi Palavras.

Sugestão: cicatrizes.

Guri, vem cá.  Te desenhei, olha!  Gostaste? Não, não te afastes, não te assustes, eu te explico. Toma um trocado, chega aqui mais perto. É que às vezes eu roubo as faces das pessoas da rua só pra rabiscar. Foi por causa dos teus olhos, quis registrá-los no meu bloco de notas. Meu Deus, são iguais àqueles olhos… Os do meu irmão Pedro. Ele fugiu de casa há anos. Eu ia fugir com ele, mas no fim das contas fiquei com medo. Ele também tinha um gato, bem mais bem cuidado do que este teu. O gato morreu velho, cansou de esperar o Pedro voltar. Nossa, faz tempo! Mas não esqueci dos olhos. Eram escuros, assim, meio nublados. Meio sonsos, às vezes… Espera, guri! Não quis te ofender. Toma mais um trocado. Acho que tu nem eras nascido quando perdemos o meu irmão de vista. Desculpe-me por te falar essas coisas, és novo de mais, ainda não sabes da vida. Também fugiste de casa, não é mesmo? Só tem esse olhar indefeso, mas bem adulto, quem alguma vez já fugiu de casa. Tá com fome? Cadê a tua mãe? A minha não deixa de rezar pela volta dele um dia sequer. Tão escuros, esses olhos… Meu Deus! Pedro, por onde andaste?

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