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Exatamente no momento em que a última gota de chuva desmaiada na calçada evaporou, eu entendi o trajeto que os sonhos percorrem antes de chegarem no plano do palpável. E eis que depois de 5 meses, 17 dias e 12 horas de cálculos e experimentos, descobri a melhor forma de pedir o meu amor em casamento. Foram as moléculas de H2O que me explicaram.

Pense comigo, amigo: essas moléculas de água chovem. Elas se suicidam pelo chão, escorrem nas vidraças e fazem chorar os modelos dos outdoors. Depois, quando a raiva do céu para, elas se afastam, desaparecendo das nossas vistas. As gotas que fazem a calçada mudar de cor evaporam e reintegram-se em alguma nuvem aleatória, na respiração do vizinho que leva o cachorro para passear ou no orvalho das folhagens da Maria.

A Maria… Mal posso esperar para testar meu experimento com ela. Dessa vez dará resultados exatos. Assim como um simples experimento de observação de evaporação.  Não, não tão simples, afinal, não falo de moléculas, mas sim de sonhos: eles vão se desintegrar para mudar de estado físico. Vão encontrar os sonhos de outra pessoa para se reintegrarem e choverem. Os meus sonhos e os da Maria. Sim, choveremos juntos.

Tá, da última vez que tentei realizar essa transformação dos sonhos, frustrei-me. Foi com um poema. Quando terminei de ler ela virou pra mim com aqueles olhos de quem se esforça para captar qualquer sentido de uma língua estrangeira. Não deu certo, ela não disse sim, nem disse nada. Mas pelo menos não foi tão desastroso quanto a primeira tentativa, aquela dos exatos 5 meses, 17 dias e 12 horas atrás. Quando lhe disse que suas curvas me atraíam mais que a força da gravidade, ela me jogou a bacia de água que tinha entre as mãos. Fiquei doente, e nada do “sim”.

Mas coloco agora meu projeto em prática. Convido-te a me acompanhar, amigo! Estou subindo as escadas do sobradinho da Maria, passando pelas folhagens que ela nem precisou regar por causa da chuva. Não há lençóis dançando dessa vez na varanda. Bato três vezes à porta para que o ruído propague-se pelo ar até fazer vibrar o aparelho auditivo da minha amada. Ela está acordando, posso escutar. Ela está vindo, abrirá a porta! Seus sonhos evaporarão e se encontrarão com as moléculas dos meus sonhos, agora que tenho a fórmula de entendimento! Agora que desintegrei essas minhas moléculas para fazê-las adquirirem uma fórmula mais compatível à formula das moléculas dos sonhos da Maria. Já vejo os olhinhos recém acordados dela pela fresta e…

– Maria, te amo mais que as água do céu amam tuas foiagem. Bora casá com eu agora que nós fala a mesma língua?

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O tema desta edição da Postagem Temática é casamento. Minha sugestão para a próxima é futebol.

Dentre as lembranças literárias que tenho da minha adolescência, uma das mais fortes tem a ver com a caminhada noturna de um moço pelas ruas de Paris. Lembro bem da brisa gélida que senti no pescoço quando o moço olhou para o rio Sena congelado. Ele lamentou-se por nem mesmo o rio ser caridoso o suficiente para deixá-lo afogar-se. Sim, senti frio naquele momento da leitura, mesmo estando enrolada em um cobertor ao lado do fogão à lenha da cozinha da minha casa.

Falo de Paris no Século XX, obra de Júlio Verne que não estava na minha lista de leituras mais urgentes da época. Eu queria ler O Raio Verde ou O Senhor do Mundo, mas como o limitado acervo da biblioteca da minha escola não permitiu, peguei o livro de capa esquisita, cuja orelha informava a publicação apenas de 1994. Verne não publicou esse livro em vida, pois seu editor convenceu-o de que apresentava uma visão muito diferente da que ele vinha consolidando com o público.

O personagem principal é Michel, jovem poeta obrigado a adaptar-se a uma sociedade toda configurada pelo uso das máquinas e pela importância do dinheiro, nos anos 1960. Cabe dizer que a obra está datada em 1863, ou seja, Verne imaginou a sua própria sociedade dali a cem anos. A graça é que, salvo algumas invenções esdrúxulas próprias da obra do Verne, o livro desenha uma sociedade muito parecida com a que viria a existir no período em questão.

Li muito rápido, correndo contra o vento cortante da noite parisiense em alguns momentos. Senti também o fiozinho de sol que passava apenas uma vez por ano pela janela de um dos personagens, proporcionando a ele um breve minuto de deleite – a pouca frequência era devida à construção desenfreada de prédios, outra semelhança com a realidade que se seguiu aos escritos. A Paris retratada é uma Paris de tal maneira fria que chega a rachar os lábios. Mas não apenas pela temperatura: também pela ganância e pela falta de poesia.

Penso que Paris no Século XX seja uma pista para uma necessária relativização do pensamento de Júlio Verne, pois evidencia os receios que ele tinha com a frieza que o desenvolvimento da tecnologia poderia gerar. É normal que, depois de um tempo, comecemos a perceber algumas ideias que estão por trás dos seus celebrados romances, e a repensá-lo como autor. Um defensor ferrenho da tecnologia? Um homem branco que descreve outras etnias sem nem mesmo conhecê-las? Um consolidador do pensamento burguês? Aí vem o Barthes e fala em um de seus textos de “Mitologias” que o Nautillus de As Vinte Mil Léguas Submarinas é a própria representação da dominação do ser humano sobre o mundo. Paris no século XX dá um possível contraponto a essa linha de raciocínio, num perâmbulo do autor pelos rumos de sua própria sociedade.

Li esse livro há muitos anos atrás, e peço desculpas por escrever algo sobre ele sem nem mesmo tê-lo em mãos para relembrar qualquer coisa. Então, faço um convite: que tal um encontro com essa Paris fria imaginada pela mente verniana? Que tal um encontro com o ser humano mais frio ainda? Eu pretendo realizar esse (re)encontro nos próximos dias. Coloquemos a toca e as luvas e andemos à livraria mais próxima. Bon Voyage!

Gustave Caillebotte - Telhados na Neve

A imagem não tem nada a ver, mas eu gosto. E o blog é meu, e tal. =D

Esta edição da Postagem Temática foi sobre Frio. Minha sugestão para a próxima é Riso.

Nem 30 contos: foi o preço do sapato. Notou que estava meio apertado, mas pensou em se acostumar – como se fosse a dor do último romance, que de tanto criar calos, ela nem sentia mais. Chegou no topo da escada, passou pela porta colorida, acostumou o olhar às luzes, dirigiu-se ao bar. Pediu qualquer bebida que lhe fizesse companhia até algum moço colocar suas próprias cores no ambiente. Mas os sapatos esmagando os dedos… As unhas empilhando-se nas pontas. Não teve paciência de esperar o hipotético moço para dançar até as 4 horas, como havia (a si mesma) prometido.

Não fosse o sapato apertado… Teria beijado um moço. Teriam sido feitos um para o outro. Teriam se casado. Teriam brigado para depois deixarem-se em paz.

Mas a promoção de fechamento da loja… Nem 30 contos!

Da próxima vez, um evento em que todos estiverem sentados poderá ser uma boa ocasião para o planejado desencalhe.

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