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“Meia hora, e estaremos no ar!” – brada o produtor do programa de tv com o blusão de felpas.

“Posso dizer algo? É improvável que a gente entre, pela lei da probabilidade. Se trouxesse uma malabarista, ganharia tempo”.

O interlocutor do produtor é ninguém menos do que o beatle George Harrison. Ele rabisca bigodinhos no rosto do homem que aparece em um dos monitores do estúdio enquanto fala, com aquele conhecido ar de desinteresse e o cabelo sobre as sobrancelhas.

Ao mesmo tempo, a minha mãe sorri com o canto dos lábios. Ela ajeita delicadamente a saia por debaixo das coxas e olha discreta para a fileira de trás do cinema, onde está o ainda desconhecido meu pai. Ele não olha para ela. Segue vidrado na história maluca dos Reis do IêIêIê (como haviam magistralmente traduzido o título do filme para o português).

O motivo do estresse dentro da tela está na Delegacia de Polícia. É Ringo Starr que num acesso de revolta foge da responsabilidade da apresentação. Deixa assim a banda de rock mais aclamada de todos os tempos sem um baterista, e sai por aí cometendo algumas infrações.

Ao umedecer os lábios, a minha mãe nota que esqueceu de passar o batom vermelho. Droga! Sem o batom vermelho o conjunto do seu charme é tão desfalcado quanto os Beatles sem baterista. Mas tudo bem, é realmente a noite de um dia difícil, sem tempo para fazer maquiagem. Pensa em um jeito de seduzir de outra maneira.

Na sequência, os garotos de Liverpool correm pelas ruas para resgatar Ringo Starr ao som de Can’t Buy My Love. Can’t she buy? Oh, baby! She can! A mãe decide comprar uma pipoca e errar a fileira na volta da bomboniere, mesmo que sem o necessário batom.

Resgatado o Ringo, os Beatles dirigem-se de volta ao estúdio de televisão. Os trinta minutos anunciados pelo produtor haviam passado rápido demais! E o pai nem mesmo nota o leve toque no seu braço – obviamente sem querer – da garota que sentara na poltrona ao lado com o balde de pipoca, tamanho o fascínio com o enredo passando na tela.

Tell me why. É a música que atravessa a sala de cinema. Por que? Por que o pai não olha pra mãe? If I fell. Essa é romântica. E a mãe joga de leve os cabelos perfumados no ombro dele, mas sem resultados. I Should Have know you better. Ela espera sinceramente que ele lhe diga isso depois de sentir a textura dos seus cabelos. She loves you, yeah, yeah, yeah! As mocinhas gritando no filme. A minha mãe gritando na platéia, sem nem precisar falar. Os créditos finais com A Hard Days Night, e as luzes acendem-se. The End.

Meu pai desperta o êxtase beatlemaníaco e tropeça nas pernas da moça da poltrona ao lado.

-Hey, garota! Você não estava aqui no começo do filme, estava?

Ela só balança a cabeça em sinal afirmativo e desabrocha o sorriso sem batom. Passando a mão por detrás da nuca e desviando os olhos daquele brilho todo, o pai titubeia no convite à arrebatadora desconhecida…

– Quem sabe se… Não sei. Pensei em ir na loja de discos. O meu velho deu um  dinheirinho a mais, queria comprar o LP do filme… Queres ir junto? A não ser que estejas ocupada!

Tudo bem, ainda tenho meia hora antes do meu pai vir me buscar – diz a mãe olhando para o reginho de pulso.

Meia Hora? Perfeito! Os Beatles salvaram o show em meia hora, não?

Ele fica vermelho com a frase idiota que deixara escapar por entre os lábios. A mãe fica mais vermelha ainda. Sim, meus pais são um casal de babacas românticos da geração IêIêIê.

A partir daqui, o roteiro é meu. Esperem só até eu nascer. Dêem licença e parem de se meter, por favor. Sim, fiquem tranquilos: colocarei Ringo Starr no elenco, de alguma forma.

(o trecho de A Hard Day’s Night descrito inicia no minuto 3:42 deste vídeo)

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Esta edição da Postagem Temática foi sobre “meia-hora”. Aham, fugi do tema, desculpem-me. Minha sugestão para a próxima é “camisetas”. E aguardem o post especial de aniversário dos Sintonizados!

O roçar do forro da saia nas pernas roliças de Eleonora lhe fazia cócegas. Depois de duas ou três taças rasas de vinho rosê, ela esqueceu o requinte e tirou os calcanhares do sapatinho azul celeste. Secou com as costas da mão o leve suor que lhe escorria por detrás da nuca, e olhou para o salão, cheio de jovens fantasmas. “Belos moços”, refletiu. Daria um jeito de se encostar em algum só para se refrescar. Uma dança, uma valsa. Música, orquestra! Os instrumentos soltos no ar começaram aquela clássica em sol maior. Chutando o sapatinho para a esquina do pé da mesa, ofereceu-se ao alto de olhos claros. Tentou guiar o braço dele à sua cintura, mas a mão serelepe perdeu-se no através. Imagine só… Atravessa-lo. Que ideia maluca! Mas foi em frente. Atravessou o belo moço e passou-lhe até as costas um carinho fugaz. Por entre as coxas, o forro da saia rodada e o riso. Pelo entorno, gélida alma de vento de serra. Soluço! Saúde. Um brinde. A sinfonia. E uma pesada mão quente balançando o seu ombro. Mas que nojo deste suor nas costas! Olhou para o lado e…

– Eleonora? Acorda! Dormindo no meio da festa… Que feio! Vai dançar com o filho do conde que é bom partido, vai!

Lucian Freud – O Interior

A mão calejada – mas ainda feminina – da garota sem nome estava pousada sobre a perna do irmão travestido. A mão que eu orientara até aquela perna tensa. Tensa pela falta de familiaridade com as vestimentas por mim indicadas.

O bandolim não tocava nem ao menos uma corda, e a posição da nota era ensaiada para soar apenas dentro dos meus ouvidos. O menino sabia tocar tanto quanto sabia usar o vestido: absolutamente não sabia.

Disse-lhes: não me olhar! Guardaria o mínimo de dignidade daquelas pessoas dentro de suas vistas particulares, voltadas para qualquer canto do meu ateliê, menos para os meus futuros espectadores.

Modelos contratados sem nome. Mas estava escancarado que eram uma família.

O garoto jogado no chão quase me fitava. Acho que sentia uma dor acumulada na nuca, ou qualquer desconforto cuja culpa eu jogava na madeira úmida do piso. O leque da outra mulher estava suspenso no espaço pela ausência espiritual da sua mão.

As dobras do pijama amarelo do rapaz mais velho serviam perfeitamente ao seu corpo exageradamente alto e à minha paleta de tintas. Elas não se alteraram ao longo das longas horas. Abri a torneira da pia do canto do cenário. A água correndo e ninguém com a intenção de estancá-la.

Mergulharam. Transcenderam. Eles não estavam mais ali. Estariam onde?

Penso que no interior de qualquer lugar deste universo – menos no interior do meu quadro.

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Este post foi uma humilde homenagem ao artista Lucian Freud, através de uma interpretação pessoal do quadro “O Interior”.

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