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O tema desta edição da Postagem Temática foi Do que eu não quero saber.

Eu incorporo no meu código genético cada molécula exalada na respiração da multidão. Perco-me através dos atalhos mal trilhados pelo fluxo sanguíneo das travessas e becos. Viezes e transviezes dessa cidade que não é a minha. Percebo os tumtums do coração que surgem lá da esquina num protesto banal. Tambores quentes em descompasso com o caminhar frio e indeciso de cidadãos não procurados pela polícia. Desvio e adentro-me em uma das veias capilares na galeria escura – tem lojas de bugigangas e cheiro de bife bem passado. Tal corte na epiderme de concreto da quadra finda na saída pela rua transversal. Esbarro no compro ouro, no compro cabelo, nos gritos de atendimento odontológico. Passeio por entre as células de um organismo vivo e vibrante,  acometido de uma grave doença imunológica – onde estão os anticorpos contra a fumaça do cigarro barato? Tropeço em desenhos de nanquim sem vida. Harmonizo, sozinha. É o meu passo se unindo ao descompasso daquele cardíaco tambor de manifestação.

Centro, meio da manhã. Pulsa.

Duas notas de um por uma lata de Coca. E o anel vermelho ali no topo, lustro. Puxou-o com o dedo indicador e escutou o ruído do gás saindo devagar. Arrancou-o meio sem jeito, e guardou na sacola plástica com as tampinhas e outros anéis. Sim, recolhera todas as partes do tesouro. Missão cumprida.

Só faltava mais aquele anel de lata para completar os 10 pontos. Aí então ele tiraria toda a dignidade de consumidor que guardava dentro dos bolsos e colocaria na testa. Entraria no supermercado de cabeça erguida e pediria à moça bonita do caixa que buscasse a bola vermelha de plástico, escondendo o brinde surpresa.

Seria um brinde até mais bacana do que os brindes do Dudu, da Talita, da Jennifer e do Tales – mas havia um pequeno problema.

Não se joga comida fora – disse a voz da mãe dentro de sua memória. E, sim. Ele era um dos raros casos da pouco conhecida anomalia infantil chamada de “não apreciação de refrigerante”. Não suportava o gás fazendo cócegas na ponta do nariz quando inclinava o copo. Tinha nojo do líquido viscoso quando ele escorria e grudava pelas papilas.

Recolhera os outros 9 pontos das sobras nas mesas do bar do tio. Só comprara aquele último por ter passado por debaixo da catraca do ônibus, ao invés de entregar as valiosas duas notas de um da passagem. Trocara o orgulho de passageiro pagante por um brinde. Mas acreditava: valia a pena.

“Seria homem o suficiente?” pensou ao olhar para a lata de 350 ml e ter uma ideia arriscada. Arqueou as sobrancelhas após encarar por alguns longos segundos o objeto vermelho, e decidiu-se. Era uma atitude corajosa, e em sua dignidade fechou os olhos. Levou o objeto até a boca.

Qualquer um que visse o menino tomando grandes goles com aquela expressão no rosto imaginaria que ele estava bebendo veneno. As veias chegavam a saltar no pescoço pálido, acompanhando o movimento de deglutição. Ele não respirava. Uma gota escorreu pelo canto da boca. Empinou como se tivesse hora marcada para jogar a lata no lixo.

Terminou o serviço ofegante, teve ganas de vomitar. Jogou com raiva a lata para longe e, de língua para fora, procurou com os olhos o bebedouro mais próximo. Bebeu mais água do que quando tomara óleo de rícino aos seis, sem nem se preocupar com a quantidade de vezes que teria de ir ao banheiro mais tarde. Bochechou, fez gargarejo, cuspiu no chão. Secou a testa molhada de suor.

Mas tinha o último anel de lata. Aquele anel que lhe custaria um xingão da mãe por ter esfregado as costas do blusão no chão do ônibus. Mas tudo bem, sentia-se um Homem. Entraria no mercado com mais direitos do que nunca, e exerceria o seu papel de digno consumidor da Coca, com carteira assinada. Engolira tudo numa tacada.

E numa tacada, entrara no mundo. Um mundo que cabia no planeta Terra, mas também ali dentro do supermercado da esquina da sua quadra.

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