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“Eu quero a sorte de um amor tranquilo” – com o cigarro apoiado entre os lábios, a articulação tosca das suas palavras dava à mensagem uma certa carga de absurdo. O seu tom displicente não me deixava crer na veracidade da afirmação.  Não estava segurando o cigarro entre os dedos indicador e médio com a maestria e a elegância costumeiras porque tinha as duas mãos ocupadas: amarrava as minhas pelas costas da cadeira velha que compráramos em um brique qualquer um pouco antes do nosso casamento. “Mas se eu aprendi uma coisa depois de 4 maridos, meu bem” – tirou o cigarro da boca antes de terminar a linha de raciocínio, não sem antes soltar uma lenta nuvem de fumaça no ar do sótão – “é que tranquilidade mesmo, a gente só tem a sete palmos, debaixo de Deus”. Eu não podia responder, com o esparadrapo colando toda a minha boca, mas se pudesse, responderia com um sincero “o que foi que eu te fiz?” Ela sorriu de um jeito quase doce – quase, porque doçura não é o que se pode esperar de uma mulher que acaricia um revólver enquanto fala. Deve ter lido a pergunta dentro do meu pensamento. “Com você até que foi bem tranquilo, amor. Mas não o suficiente”. Ela esfregou na minha cara uma pequena foto: eu e a minha colega de trabalho em um abraço. Acaso, obviamente. Não consegui segurar o desespero de esclarecer o equívoco, mas minha explicação não atravessou aquele esparadrapo maldito. “Vocês 4 deveriam me agradecer. Dou-lhes a tranquilidade do não existir… Quer maior amor que isso?” Engatilhando o revólver, ela disse baixinho no meu ouvido, pra nem as aranhas do sótão escutarem… “Mas vocês só me dão azar, amor. Azar…” Senti o cano frio do revólver no meu pescoço, em contraste com a pele quente do rosto dela no meu. O cheiro de cigarro ainda estava naquela boca. “Um amor tranquilo, babe. É pedir demais?”

Ela foi passando o revólver acima na minha face até beijar a minha testa (com beijo de fumaça).

Esta edição da Postagem Temática foi especial “sugestão de frase”. Cada blog sugeriu uma frase para iniciar o texto de outro. A sugestão para o meu post foi da Andi.

Coloco em votação para o próximo tema: quedas.

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Da infância, ela só lembra da textura da camisola da mãe acariciando as suas bochechas. Sentia a malha de algodão quando tinha a cabecinha repousada no seu peito durante as crises de asma. Ficou também soando no ouvido a melodia suave destas ocasiões: uma canção religiosa que a mãe afirmava ser a mesma que São Paulo cantara para se libertar milagrosamente da prisão romana. Mas naquelas horas, a música virava apenas uma espécie de mantra. Sabiam bem letra, mas as notas soltas no ar frio do quarto eram o suficiente para abafar a tosse da pequena adoentada. Não se recorda como conseguia, mas sempre adormecia. Sempre. Sem correntes, e milagrosamente sem tosse. Livre – não era como o apóstolo da história, o Paulo?

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