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Pedalando em círculos no quintal da casa em que nasceu, Pedro notou que se passara apenas um breve cochilo desde que tivera a centimétrica coragem de tirar os pés do chão e colocá-los nos pedais da bicicleta. “Passou rápido, voando”, ressoou o irritante clichê no interno da caixa craniana. Irritante por ser completamente verdadeiro – assim como a maioria dos clichês que dizem por aí as pessoas chatas. Parecia que não acontecera absolutamente nada desde que aprendera a pedalar, a não ser a sensação gostosa de autonomia que experimentara ao longo dos 30 primeiros segundos de sua vida que transcorreram sobre a bicicleta. Depois disso, sempre a mesmice. Sempre as mágoas. Sempre o desconforto. Sempre o soar repetitivo das pedrinhas do chão que se deslocavam sob o peso das rodas. “Por isso passou tão rápido”, refletiu. Era a falta de ação (da sua parte). Mergulhou então no circular silêncio interior em que enterrava tudo. A última coisa nele sepulta fora a desgostosa ironia feita por Daiana sobre a incapacidade dele de pedalar em linha reta. Daiana tinha um sorriso bonito quando não era irônico. Pedro guardava todas as mágoas no silêncio da caixa toráxica, na tentativa de expulsá-las da caixa craniana. Ali, mais uma vez, ecoava: “Passou rápido, voando”. Clichê verdade acidental. A centimétrica coragem de manter os lábios cerrados era um pouco menos longa do que a centimétrica coragem que tivera aos 9 para colocar os pés nos pedais. “Se gritasse na cara de Daiana minhas mágoas, eu sentiria mais uma vez os trinta segundos de prazer da primeira vez que pedalei?”, pensou.

Pedro completou 78 anos pedalando em círculos no quintal da casa em que nasceu, ouvindo as pedrinhas darem espaço às rodas de sua bicicleta.

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