Eu incorporo no meu código genético cada molécula exalada na respiração da multidão. Perco-me através dos atalhos mal trilhados pelo fluxo sanguíneo das travessas e becos. Viezes e transviezes dessa cidade que não é a minha. Percebo os tumtums do coração que surgem lá da esquina num protesto banal. Tambores quentes em descompasso com o caminhar frio e indeciso de cidadãos não procurados pela polícia. Desvio e adentro-me em uma das veias capilares na galeria escura – tem lojas de bugigangas e cheiro de bife bem passado. Tal corte na epiderme de concreto da quadra finda na saída pela rua transversal. Esbarro no compro ouro, no compro cabelo, nos gritos de atendimento odontológico. Passeio por entre as células de um organismo vivo e vibrante,  acometido de uma grave doença imunológica – onde estão os anticorpos contra a fumaça do cigarro barato? Tropeço em desenhos de nanquim sem vida. Harmonizo, sozinha. É o meu passo se unindo ao descompasso daquele cardíaco tambor de manifestação.

Centro, meio da manhã. Pulsa.

Duas notas de um por uma lata de Coca. E o anel vermelho ali no topo, lustro. Puxou-o com o dedo indicador e escutou o ruído do gás saindo devagar. Arrancou-o meio sem jeito, e guardou na sacola plástica com as tampinhas e outros anéis. Sim, recolhera todas as partes do tesouro. Missão cumprida.

Só faltava mais aquele anel de lata para completar os 10 pontos. Aí então ele tiraria toda a dignidade de consumidor que guardava dentro dos bolsos e colocaria na testa. Entraria no supermercado de cabeça erguida e pediria à moça bonita do caixa que buscasse a bola vermelha de plástico, escondendo o brinde surpresa.

Seria um brinde até mais bacana do que os brindes do Dudu, da Talita, da Jennifer e do Tales – mas havia um pequeno problema.

Não se joga comida fora – disse a voz da mãe dentro de sua memória. E, sim. Ele era um dos raros casos da pouco conhecida anomalia infantil chamada de “não apreciação de refrigerante”. Não suportava o gás fazendo cócegas na ponta do nariz quando inclinava o copo. Tinha nojo do líquido viscoso quando ele escorria e grudava pelas papilas.

Recolhera os outros 9 pontos das sobras nas mesas do bar do tio. Só comprara aquele último por ter passado por debaixo da catraca do ônibus, ao invés de entregar as valiosas duas notas de um da passagem. Trocara o orgulho de passageiro pagante por um brinde. Mas acreditava: valia a pena.

“Seria homem o suficiente?” pensou ao olhar para a lata de 350 ml e ter uma ideia arriscada. Arqueou as sobrancelhas após encarar por alguns longos segundos o objeto vermelho, e decidiu-se. Era uma atitude corajosa, e em sua dignidade fechou os olhos. Levou o objeto até a boca.

Qualquer um que visse o menino tomando grandes goles com aquela expressão no rosto imaginaria que ele estava bebendo veneno. As veias chegavam a saltar no pescoço pálido, acompanhando o movimento de deglutição. Ele não respirava. Uma gota escorreu pelo canto da boca. Empinou como se tivesse hora marcada para jogar a lata no lixo.

Terminou o serviço ofegante, teve ganas de vomitar. Jogou com raiva a lata para longe e, de língua para fora, procurou com os olhos o bebedouro mais próximo. Bebeu mais água do que quando tomara óleo de rícino aos seis, sem nem se preocupar com a quantidade de vezes que teria de ir ao banheiro mais tarde. Bochechou, fez gargarejo, cuspiu no chão. Secou a testa molhada de suor.

Mas tinha o último anel de lata. Aquele anel que lhe custaria um xingão da mãe por ter esfregado as costas do blusão no chão do ônibus. Mas tudo bem, sentia-se um Homem. Entraria no mercado com mais direitos do que nunca, e exerceria o seu papel de digno consumidor da Coca, com carteira assinada. Engolira tudo numa tacada.

E numa tacada, entrara no mundo. Um mundo que cabia no planeta Terra, mas também ali dentro do supermercado da esquina da sua quadra.

“Meia hora, e estaremos no ar!” – brada o produtor do programa de tv com o blusão de felpas.

“Posso dizer algo? É improvável que a gente entre, pela lei da probabilidade. Se trouxesse uma malabarista, ganharia tempo”.

O interlocutor do produtor é ninguém menos do que o beatle George Harrison. Ele rabisca bigodinhos no rosto do homem que aparece em um dos monitores do estúdio enquanto fala, com aquele conhecido ar de desinteresse e o cabelo sobre as sobrancelhas.

Ao mesmo tempo, a minha mãe sorri com o canto dos lábios. Ela ajeita delicadamente a saia por debaixo das coxas e olha discreta para a fileira de trás do cinema, onde está o ainda desconhecido meu pai. Ele não olha para ela. Segue vidrado na história maluca dos Reis do IêIêIê (como haviam magistralmente traduzido o título do filme para o português).

O motivo do estresse dentro da tela está na Delegacia de Polícia. É Ringo Starr que num acesso de revolta foge da responsabilidade da apresentação. Deixa assim a banda de rock mais aclamada de todos os tempos sem um baterista, e sai por aí cometendo algumas infrações.

Ao umedecer os lábios, a minha mãe nota que esqueceu de passar o batom vermelho. Droga! Sem o batom vermelho o conjunto do seu charme é tão desfalcado quanto os Beatles sem baterista. Mas tudo bem, é realmente a noite de um dia difícil, sem tempo para fazer maquiagem. Pensa em um jeito de seduzir de outra maneira.

Na sequência, os garotos de Liverpool correm pelas ruas para resgatar Ringo Starr ao som de Can’t Buy My Love. Can’t she buy? Oh, baby! She can! A mãe decide comprar uma pipoca e errar a fileira na volta da bomboniere, mesmo que sem o necessário batom.

Resgatado o Ringo, os Beatles dirigem-se de volta ao estúdio de televisão. Os trinta minutos anunciados pelo produtor haviam passado rápido demais! E o pai nem mesmo nota o leve toque no seu braço – obviamente sem querer – da garota que sentara na poltrona ao lado com o balde de pipoca, tamanho o fascínio com o enredo passando na tela.

Tell me why. É a música que atravessa a sala de cinema. Por que? Por que o pai não olha pra mãe? If I fell. Essa é romântica. E a mãe joga de leve os cabelos perfumados no ombro dele, mas sem resultados. I Should Have know you better. Ela espera sinceramente que ele lhe diga isso depois de sentir a textura dos seus cabelos. She loves you, yeah, yeah, yeah! As mocinhas gritando no filme. A minha mãe gritando na platéia, sem nem precisar falar. Os créditos finais com A Hard Days Night, e as luzes acendem-se. The End.

Meu pai desperta o êxtase beatlemaníaco e tropeça nas pernas da moça da poltrona ao lado.

-Hey, garota! Você não estava aqui no começo do filme, estava?

Ela só balança a cabeça em sinal afirmativo e desabrocha o sorriso sem batom. Passando a mão por detrás da nuca e desviando os olhos daquele brilho todo, o pai titubeia no convite à arrebatadora desconhecida…

– Quem sabe se… Não sei. Pensei em ir na loja de discos. O meu velho deu um  dinheirinho a mais, queria comprar o LP do filme… Queres ir junto? A não ser que estejas ocupada!

Tudo bem, ainda tenho meia hora antes do meu pai vir me buscar – diz a mãe olhando para o reginho de pulso.

Meia Hora? Perfeito! Os Beatles salvaram o show em meia hora, não?

Ele fica vermelho com a frase idiota que deixara escapar por entre os lábios. A mãe fica mais vermelha ainda. Sim, meus pais são um casal de babacas românticos da geração IêIêIê.

A partir daqui, o roteiro é meu. Esperem só até eu nascer. Dêem licença e parem de se meter, por favor. Sim, fiquem tranquilos: colocarei Ringo Starr no elenco, de alguma forma.

(o trecho de A Hard Day’s Night descrito inicia no minuto 3:42 deste vídeo)

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Esta edição da Postagem Temática foi sobre “meia-hora”. Aham, fugi do tema, desculpem-me. Minha sugestão para a próxima é “camisetas”. E aguardem o post especial de aniversário dos Sintonizados!

O roçar do forro da saia nas pernas roliças de Eleonora lhe fazia cócegas. Depois de duas ou três taças rasas de vinho rosê, ela esqueceu o requinte e tirou os calcanhares do sapatinho azul celeste. Secou com as costas da mão o leve suor que lhe escorria por detrás da nuca, e olhou para o salão, cheio de jovens fantasmas. “Belos moços”, refletiu. Daria um jeito de se encostar em algum só para se refrescar. Uma dança, uma valsa. Música, orquestra! Os instrumentos soltos no ar começaram aquela clássica em sol maior. Chutando o sapatinho para a esquina do pé da mesa, ofereceu-se ao alto de olhos claros. Tentou guiar o braço dele à sua cintura, mas a mão serelepe perdeu-se no através. Imagine só… Atravessa-lo. Que ideia maluca! Mas foi em frente. Atravessou o belo moço e passou-lhe até as costas um carinho fugaz. Por entre as coxas, o forro da saia rodada e o riso. Pelo entorno, gélida alma de vento de serra. Soluço! Saúde. Um brinde. A sinfonia. E uma pesada mão quente balançando o seu ombro. Mas que nojo deste suor nas costas! Olhou para o lado e…

– Eleonora? Acorda! Dormindo no meio da festa… Que feio! Vai dançar com o filho do conde que é bom partido, vai!

Lucian Freud – O Interior

A mão calejada – mas ainda feminina – da garota sem nome estava pousada sobre a perna do irmão travestido. A mão que eu orientara até aquela perna tensa. Tensa pela falta de familiaridade com as vestimentas por mim indicadas.

O bandolim não tocava nem ao menos uma corda, e a posição da nota era ensaiada para soar apenas dentro dos meus ouvidos. O menino sabia tocar tanto quanto sabia usar o vestido: absolutamente não sabia.

Disse-lhes: não me olhar! Guardaria o mínimo de dignidade daquelas pessoas dentro de suas vistas particulares, voltadas para qualquer canto do meu ateliê, menos para os meus futuros espectadores.

Modelos contratados sem nome. Mas estava escancarado que eram uma família.

O garoto jogado no chão quase me fitava. Acho que sentia uma dor acumulada na nuca, ou qualquer desconforto cuja culpa eu jogava na madeira úmida do piso. O leque da outra mulher estava suspenso no espaço pela ausência espiritual da sua mão.

As dobras do pijama amarelo do rapaz mais velho serviam perfeitamente ao seu corpo exageradamente alto e à minha paleta de tintas. Elas não se alteraram ao longo das longas horas. Abri a torneira da pia do canto do cenário. A água correndo e ninguém com a intenção de estancá-la.

Mergulharam. Transcenderam. Eles não estavam mais ali. Estariam onde?

Penso que no interior de qualquer lugar deste universo – menos no interior do meu quadro.

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Este post foi uma humilde homenagem ao artista Lucian Freud, através de uma interpretação pessoal do quadro “O Interior”.

Exatamente no momento em que a última gota de chuva desmaiada na calçada evaporou, eu entendi o trajeto que os sonhos percorrem antes de chegarem no plano do palpável. E eis que depois de 5 meses, 17 dias e 12 horas de cálculos e experimentos, descobri a melhor forma de pedir o meu amor em casamento. Foram as moléculas de H2O que me explicaram.

Pense comigo, amigo: essas moléculas de água chovem. Elas se suicidam pelo chão, escorrem nas vidraças e fazem chorar os modelos dos outdoors. Depois, quando a raiva do céu para, elas se afastam, desaparecendo das nossas vistas. As gotas que fazem a calçada mudar de cor evaporam e reintegram-se em alguma nuvem aleatória, na respiração do vizinho que leva o cachorro para passear ou no orvalho das folhagens da Maria.

A Maria… Mal posso esperar para testar meu experimento com ela. Dessa vez dará resultados exatos. Assim como um simples experimento de observação de evaporação.  Não, não tão simples, afinal, não falo de moléculas, mas sim de sonhos: eles vão se desintegrar para mudar de estado físico. Vão encontrar os sonhos de outra pessoa para se reintegrarem e choverem. Os meus sonhos e os da Maria. Sim, choveremos juntos.

Tá, da última vez que tentei realizar essa transformação dos sonhos, frustrei-me. Foi com um poema. Quando terminei de ler ela virou pra mim com aqueles olhos de quem se esforça para captar qualquer sentido de uma língua estrangeira. Não deu certo, ela não disse sim, nem disse nada. Mas pelo menos não foi tão desastroso quanto a primeira tentativa, aquela dos exatos 5 meses, 17 dias e 12 horas atrás. Quando lhe disse que suas curvas me atraíam mais que a força da gravidade, ela me jogou a bacia de água que tinha entre as mãos. Fiquei doente, e nada do “sim”.

Mas coloco agora meu projeto em prática. Convido-te a me acompanhar, amigo! Estou subindo as escadas do sobradinho da Maria, passando pelas folhagens que ela nem precisou regar por causa da chuva. Não há lençóis dançando dessa vez na varanda. Bato três vezes à porta para que o ruído propague-se pelo ar até fazer vibrar o aparelho auditivo da minha amada. Ela está acordando, posso escutar. Ela está vindo, abrirá a porta! Seus sonhos evaporarão e se encontrarão com as moléculas dos meus sonhos, agora que tenho a fórmula de entendimento! Agora que desintegrei essas minhas moléculas para fazê-las adquirirem uma fórmula mais compatível à formula das moléculas dos sonhos da Maria. Já vejo os olhinhos recém acordados dela pela fresta e…

– Maria, te amo mais que as água do céu amam tuas foiagem. Bora casá com eu agora que nós fala a mesma língua?

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O tema desta edição da Postagem Temática é casamento. Minha sugestão para a próxima é futebol.

Dentre as lembranças literárias que tenho da minha adolescência, uma das mais fortes tem a ver com a caminhada noturna de um moço pelas ruas de Paris. Lembro bem da brisa gélida que senti no pescoço quando o moço olhou para o rio Sena congelado. Ele lamentou-se por nem mesmo o rio ser caridoso o suficiente para deixá-lo afogar-se. Sim, senti frio naquele momento da leitura, mesmo estando enrolada em um cobertor ao lado do fogão à lenha da cozinha da minha casa.

Falo de Paris no Século XX, obra de Júlio Verne que não estava na minha lista de leituras mais urgentes da época. Eu queria ler O Raio Verde ou O Senhor do Mundo, mas como o limitado acervo da biblioteca da minha escola não permitiu, peguei o livro de capa esquisita, cuja orelha informava a publicação apenas de 1994. Verne não publicou esse livro em vida, pois seu editor convenceu-o de que apresentava uma visão muito diferente da que ele vinha consolidando com o público.

O personagem principal é Michel, jovem poeta obrigado a adaptar-se a uma sociedade toda configurada pelo uso das máquinas e pela importância do dinheiro, nos anos 1960. Cabe dizer que a obra está datada em 1863, ou seja, Verne imaginou a sua própria sociedade dali a cem anos. A graça é que, salvo algumas invenções esdrúxulas próprias da obra do Verne, o livro desenha uma sociedade muito parecida com a que viria a existir no período em questão.

Li muito rápido, correndo contra o vento cortante da noite parisiense em alguns momentos. Senti também o fiozinho de sol que passava apenas uma vez por ano pela janela de um dos personagens, proporcionando a ele um breve minuto de deleite – a pouca frequência era devida à construção desenfreada de prédios, outra semelhança com a realidade que se seguiu aos escritos. A Paris retratada é uma Paris de tal maneira fria que chega a rachar os lábios. Mas não apenas pela temperatura: também pela ganância e pela falta de poesia.

Penso que Paris no Século XX seja uma pista para uma necessária relativização do pensamento de Júlio Verne, pois evidencia os receios que ele tinha com a frieza que o desenvolvimento da tecnologia poderia gerar. É normal que, depois de um tempo, comecemos a perceber algumas ideias que estão por trás dos seus celebrados romances, e a repensá-lo como autor. Um defensor ferrenho da tecnologia? Um homem branco que descreve outras etnias sem nem mesmo conhecê-las? Um consolidador do pensamento burguês? Aí vem o Barthes e fala em um de seus textos de “Mitologias” que o Nautillus de As Vinte Mil Léguas Submarinas é a própria representação da dominação do ser humano sobre o mundo. Paris no século XX dá um possível contraponto a essa linha de raciocínio, num perâmbulo do autor pelos rumos de sua própria sociedade.

Li esse livro há muitos anos atrás, e peço desculpas por escrever algo sobre ele sem nem mesmo tê-lo em mãos para relembrar qualquer coisa. Então, faço um convite: que tal um encontro com essa Paris fria imaginada pela mente verniana? Que tal um encontro com o ser humano mais frio ainda? Eu pretendo realizar esse (re)encontro nos próximos dias. Coloquemos a toca e as luvas e andemos à livraria mais próxima. Bon Voyage!

Gustave Caillebotte - Telhados na Neve

A imagem não tem nada a ver, mas eu gosto. E o blog é meu, e tal. =D

Esta edição da Postagem Temática foi sobre Frio. Minha sugestão para a próxima é Riso.

Nem 30 contos: foi o preço do sapato. Notou que estava meio apertado, mas pensou em se acostumar – como se fosse a dor do último romance, que de tanto criar calos, ela nem sentia mais. Chegou no topo da escada, passou pela porta colorida, acostumou o olhar às luzes, dirigiu-se ao bar. Pediu qualquer bebida que lhe fizesse companhia até algum moço colocar suas próprias cores no ambiente. Mas os sapatos esmagando os dedos… As unhas empilhando-se nas pontas. Não teve paciência de esperar o hipotético moço para dançar até as 4 horas, como havia (a si mesma) prometido.

Não fosse o sapato apertado… Teria beijado um moço. Teriam sido feitos um para o outro. Teriam se casado. Teriam brigado para depois deixarem-se em paz.

Mas a promoção de fechamento da loja… Nem 30 contos!

Da próxima vez, um evento em que todos estiverem sentados poderá ser uma boa ocasião para o planejado desencalhe.

Não é que eu queira te odiar, pequena! Sei que me amas de verdade, se não não terias investido tanto do teu tempo em mimos e risinhos por detrás da minha nuca. Mas o que é que eu posso fazer se não tenho amor cá dentro para te dar em troca? Eu não o tenho – mesmo que não acredites. É caso sério! Patologia. Podes dizer que estou cuspindo no prato em que comi, mas me sinto aliviado em dizer: não te gosto. E, sim, te odeio – mesmo sem querer te odiar. É por isso que vou embora sorrindo, agradecendo a Deus por não estar na pele do próximo que se enrolará por entre as tuas colchas.

Vou esquecer-te sem remorso, junto com o punhado de tardes de risadas (tuas). Como aquela em que costurastes um coração vermelho na minha lapela! Lembras? Cuidaste para que a linha azul não destoasse do tom do meu paletó. Vi que sorrias passando a agulha de um lado para outro do tecido encardido, mas teu sorriso não me fez nem mesmo cócegas. Pelo contrário, desejei que aquela agulha transpassasse a epiderme do teu dedo e te fizesse chorar, para desistir do passatempo bobo e do coração vermelho-falso (falso por estar em mim).

E quando me colocastes à mesa bem arrumada com a toalha xadrez que a tua mãe fez com sobras de tecido, não tive vontade de me servir do copo de plástico rosa cheio do suco que separastes do teu próprio almoço. Pequena! Não vias que não sou homem de beber suco, ainda mais em copos rosas? Não me arrependo de não ter engolido uma gota sequer quando aproximastes o líquido da minha boca, e não me arrependo de ter sujado o cenário que montastes para nossa janta, por não engolir o suco.

Jesus! E o dia em que me apresentaste o teu cão… Como te odiei. Teus dedos eram como lâminas nas minhas costas, encorajando-me a fazer amizade com aquele ser bruto que escorria baba pelos cantos da boca, pingando em mim, tentando arrancar o meu braço. Quis que fosses do meu tamanho, para ver se não sentirias o mesmo medo e o mesmo nojo que eu senti. Medo e nojo do cão. Medo e nojo de ti.

Não estou de todo triste ao ver a minha perna estatelada entre as babas do cachorro pelo chão. Uma parte ele ainda está a mastigar com gosto, enquanto ajudas a tua mãe na cozinha. Te falo a verdade: sorrio neste momento. Penso na tua reação quando chegares no quarto e me vires todo rasgado, por culpa do teu descuido. Culpa, sim! Sentirás culpa – talvez pela primeira vez. Verás minhas tripas de algodão espalhadas, pálidas, e levarás as tuas mãos à boca, com o rosto molhado em lágrimas. Até alegro-me ao identificar no olhar do teu maldito cão a intenção de terminar de me estatelar por inteiro.

Como eu já disse, não é que eu queira te odiar, pequena! Não é questão de escolha. Não te gosto e pronto. Guarde a minha carta como epitáfio e, por favor, não me recostures. Procure outro infeliz na sessão de promoções da loja de brinquedos, e mantenha-o perto do cão para que o seu sofrimento dure o mínimo possível. Ou então costures um coração do lado de dentro dele, e não só numa lapela. Um coração vermelho-vivo digno. Mais digno do que o meu.

Adeus (sem mágoas apesar do ódio),

Mário Marionete

– Maldito nome com que me batisaste!

As palavras são amontoados de letras. As letras são uns rabiscos de sons. Os sons, por sua vez, são vibrações produzidas pelas cordas vocais. Partes do corpo, simples assim. Como os dedos! Você já se imaginou sem os seus dedos?

O velho de turbante já deveria estar me olhando enquanto eu matutava sobre o assunto. Como um gato perdido entre novelos de lã, enrolava-me entre as linhas coloridas do mapa parisiense afixado na parede da estação de metrô. Era como se meus dedos tivessem sido amputados para puxar a ponta do novelo de ruas em que me metera a partir do momento em que pisara em solo francês só sabendo falar oui.

Alguém para puxar a ponta do novelo… Onde? As linhas do mapa misturavam-se, manchavam-se, cortavam-se…

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E de repente passara-se uma hora de caminhada pela cidade sem encontrar o endereço do hotel. Mochila pesando nas costas, neve acumulando no chapéu e nos ossos. Frio. Ninguém sabia dizer onde ficava o maldito Boulevard Jules Ferry. Encrenca pronunciada com biquinho – biquinho que eu nunca soubera fazer, e ainda não havia aprendido ao chegar mais uma vez na frente do mapa da estação. O emaranhado de palavras sem sentido à minha volta orquestravam uma confusa trilha sonora…

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Não consegui decodificar de pronto os sons pronunciados pelo velho de turbante às minhas costas, mas eu sabia que não se tratava de francês. Era uma pronúncia que despertava cheiro de deserto, tons de amarelo queimado. A pele escura desenhada em rugas talvez fosse similar ao próprio relevo daquele que deveria ser o seu país de origem. Oriente, com certeza.

Como por intuição, eu disse: Boulevard Jules Ferry! J-U-L-E-S F-E-R-R-Y. O velho abaixou a cabeça. Senti uma pontada de dor nas costas só de imaginar que ele seria mais um entre tantos que não saberiam me indicar nem ao menos uma direção. Até que…

République.

A breve palavra surgiu por entre os lábios envelhecidos. Ele apontou no mapa uma outra estação de metrô com este nome, traçando a partir dalí uma linha até o ponto chamado “Bastille”, onde nos encontrávamos. Parecia o desenho do fim do novelo – o desenho de um sorriso nos meus lábios. Depois, os dedos começaram a traçar loucas curvas através de travessas já sem nome.

Ele fez sinal para que o seguisse. Receosa, fui. Sem entender uma vírgula, mas fui.

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Agradecer-lhe? Sorri. Não existiam palavras – literalmente – para o momento em que ele me deixou exatamente no fim do novelo. Já disse, era como se minhas cordas vocais tivessem sido amputadas naquele país. Tudo o que eu poderia fazer era sorrir, sorrir, sorrir, e abanar-lhe, quando se afastou.

“Que ideia ridícula”, pensei, quando certa palavra surgiu brincalhona na minha mente. “Ele nunca entenderia. Nunca…”. Mas, também… O que eu tinha a perder?

Obrigada, amigo! – gritei quando o velho já quase chegava na esquina.

Ele virou-se, juntou as palmas das mãos e abaixou a cabeça em uma espécie de reverência. Sim, convencera-me de que eu escolhera o agradecimento apropriado – na língua que era a minha. Obrigada, repeti baixinho… E eis que aquele amontoado de letras, rabiscos de sons, vibrações das cordas vocais, de repente me pareceu algo bonito – bem  mais bonito do que dedos! Para além do material. Ainda que não passasse de uma…

Palavra.

Fora de contexto

– mas compreendida.

Oui. Simples assim.

……….

O tema desta edição da Postagem Temática foi Palavras.

Sugestão: cicatrizes.

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