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Leve. Tão leve que o vento nem notou levar. Passou por entre as camisas de listras coloridas estendidas no varal e atravessou a cerca de arame. Chegou na calçada de pedra e desacordou até o fusca barulhento empurrá-la para mais uma dança no ar. Sentia-se livre, branca, pequena, invisível. Não carregava nada de sólido, nem de duro: apenas um amor amarelo recém-desperto pelos primeiros raios do dia. Deitou-se sobre a bola vermelha que ficara a noite inteira jogada no pátio até o garoto dedicar-se ao nobre ofício de brincar. Num chute, elevou-se ao céu petit-poá azul e branco, e desapareceu: virou mais uma bolinha de nuvem na abóboda celeste. Imperceptível a olho nu, na ausência terrestre. Via todos os prédios e casas lá de cima, sem por eles ser vista. Desintegrou-se.

Era só mais uma leva de átomos no universo, na mais completa sensação de felicidade.

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Ela rabiscou papéis, lençóis, as paredes da sala. Pegou seus pincéis e pintou o próprio corpo de azul. Riu com vontade, saiu correndo rua afora de pijamas. Pendurou desenhos nos varais dos vizinhos com prendedores de roupa de todas as cores e formatos.

Chegando no centro da cidade, pixou nos muros loucas frases de amor. Quebrou vitrines, rasgou gravatas, roubou laranjas e livros ilustrados. Fazia calor, e a calçada era tão quente quanto o seu próprio sangue. Deitou-se alí mesmo, e devaneou em voz alta por entre restos de lixo e gotas de suor.

Era isso que queria: mostrar para a cidade inteira que não precisava comprar e nem vender nada para ter uma fatia de alegria em grito. Não precisava fazer algum sentido. Só precisava de algumas frases belas, nunca ensaiadas. Imagens que estavam do lado de dentro, por baixo das suas pálpebras fechadas.

Gritou gratuitamente. Ninguém pagaria mesmo por aquele estardalhaço. Mas foi bom. Foi bom sentir dentro de si sangue circulando. Quente. Sem taxas, sem nada, só com a vontade.

Já passou-se um ano, e ninguém a recolheu daquela rua… Ainda pode ser encontrada distribuindo migalhas de pensamentos: breves devaneios.

Devaneios grátis.

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A besteira acima é uma comemoração ao aniversário de um ano do Devaneios Grátis. Obrigada a todos que continuam dando trela para a mocinha do texto. Ah, ela prevê uma mudança de rumo: me contou que está com vontade de tirar as mãos de cima das próprias pálpebras.

O sal das ondas fazia festas nas peles pálidas dos três meninos à beira da praia. Gritos altos e risos. Água gelada mudando os relevos da areia em volta dos corpos magros quase enterrados. Queriam engolir o mar. O menor engasgou por ter aberto demais a boca de felicidade, mas nem o pequeno pássaro verde refletido na poça de um ensaio de castelo de areia pareceu importar-se. A breve corrida pela orla contra o vento cortando os corpos molhados causou uma dor de frio até os ossos. Mais gritos. O traçado das tatuíras debaixo dos pés e por entre os dedos formava um belo quadro com o sol pincelando de azul a parte da areia que o mar acariciava. Lá ao longe, a torre de pingos desmanchava-se lentamente, condenando ao esquecimento certa experiência arquitetônica matinal. Os meninos não eram bons arquitetos – pelo menos não em grandes projetos como castelos. Em termos de mausoléus, sim. O dos olhos cor de mel já tinha apenas a cabeça para fora da areia lá pelas quatro e meia, quando desdobrou-se no horizonte um belo sol de fim de tarde. Pequenas tumbas cambiantes para aqueles que recém nasciam para mais uma brincadeira. Vida. A última onda gelada por cima das peles murchas dos breves e barulhentos donos da praia.

Chicos en la Playa de Joaquín Sorolla y Bastida

Ele subiu na caixa de madeira roubada da feira, cruzou os braços e levantou o queixo. Assim ficava mais fácil olhar com a altivez desejada para a massa de gente cinza que passava pela ruazinha alguns centímetros abaixo. Meus súditos, pensou com as pálpebras quase cerradas e o sorriso de rei de si. Guarda-chuvas negros formando descompassada movimentação: um cortejo de boas-vindas ao soberano. Estranho era eles passarem olhando para a calçada, mas vai entender as manias  de cada povo… Os que não tinham guarda-chuvas corriam, apertando as bolsas e casacos contra o corpo.  Alguns colocavam-se debaixo de marquises, sem o cuidado de observar a festa. Olhavam para os pulsos, relógios, vitrinas, o céu. Pobres plebeus… Teria que implementar um programa de reeducação do olhar, para ver se viveriam mais alegres. Nem sabiam o quanto era bom ser rei e ver tudo alí de cima, sem nem ser afetado pelo temporal da segunda-feira de um janeiro qualquer. Pegou um cabo de vassoura e apoiou-se, cuidando para não cair da caixa. Com o outro braço, fez um movimento de saudação para os seus súditos. Mostrou os 10 dentes amarelados numa risada alta. Era o início de uma nova era para aquela cidade. O carro de música passou tocando algo que falava sobre supermercado e preço baixo. Tudo bem, quando começasse o seu reinado as músicas dos cortejos poderiam ser trabalhadas para terem melhor qualidade. Mexeu nos próprios cabelos molhados e longos, e deu pela falta da sua coroa de papelão. Teria perdido? Ah, mas que rei precisa de uma coroa quando se tem nas vistas um céu particular tão azul, apesar da chuvarada?

Criarei um símbolo só pra mim. Será o meu carretel, o meu Viva la Vida. Será a pétala de flor que deitará sobre os meus lábios para sempre fechados, e a vela que aquecerá as maçãs do rosto no dia do meu 15º aniversário. Será a sola do meu sapato na próxima queda, e a pedra da calçada que esfolará o joelho sem meia-calça. Será a palma da minha mão apertando as pálpebras quando eu quiser enxergar o mar, e o meu livro de memórias de não mais do que duas páginas. Será o que verei em todas as placas, nos aeroportos, estações de trem, cruzamentos, destinos, praças. Ele estará nas publicidades de supermercados, nos planos e mapas do próximo assalto. Um símbolo para a próxima guerra. De travesseiros, de pijamas, de sinfonias de ninar.  Fincarei bandeira! Tomarei um país qualquer. Um país da península da minha saia. Riscarei o símbolo na minha pele, pintarei ele em cada ruga do meu rosto. E será só meu.

Esconderei-o dentro da minha caixinha de lápis.

Será o meu próximo devaneio. Mas esse, não. Esse eu não te darei de graça.

*Para Nives

Maria Bonomi. Tetraz VA

Te digo que às vezes é saudável colocar o toca-discos pra funcionar enquanto a chuva faz a sua festa na vidraça.

O chiado do vinil e o chuá de um carro velho perdido na madrugada.

O acompanhamento compassado da goteira do meio da sala em perfeita harmonia com o vazamento da torneira na cozinha. Drip-drop em dois tempos e duas distâncias.

Uma gota ecoa dentro do hall do ouvido, outra no da panela já cheia dágua.

As sombras dos braços das árvores no papel de parede duram o segundo do raio. Maestro projetado.

Composição digna de uma grande ópera, brincando na partitura feita de linhas das tábuas  do açoalho.

As roupas limpas encharcadas no varal, dançarinas do ballroom improvisado a céu aberto.

O som do prato da bateria é o próprio trovão. Momento ápice.

E os livros todos espalhados no gramado, desfazendo-se na clave de sol.

Ou seria essa a clave de chuva?

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O tema desta edição da Postagem temática foi chuva. Minha sugestão para a próxima é videoclipes.

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