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Era ela dentre todas as coisas bonitas que jamais vi. Sorriso discreto, refinado quase que por esforço – apesar da infantilidade escancarada na gotinha de travessura colada por detrás da pupila. Maldosa de leve. Peste de mansinho. Portava na cabeça raios louros do sol no meio da dança fria de guarda-chuvas e vestidos cor de chumbo. Sim, sim, já dizia Renoir: pour moi un tableau doit être une chose aimable, joyese et jolie, oui jolie! Tão agradável, alegre, bonito. Um quadro deve ser, para mim. Eu não diria só do quadro, mas também da própria vida. E ela era a minha vida, a menina: agradável alegre bonita. Tanto.

 

"Os guarda-chuvas" de Pierre Auguste Renoir (1881-1885)

Pena que a menina não existia.

Como a vida deve ser.

Ele subiu na caixa de madeira roubada da feira, cruzou os braços e levantou o queixo. Assim ficava mais fácil olhar com a altivez desejada para a massa de gente cinza que passava pela ruazinha alguns centímetros abaixo. Meus súditos, pensou com as pálpebras quase cerradas e o sorriso de rei de si. Guarda-chuvas negros formando descompassada movimentação: um cortejo de boas-vindas ao soberano. Estranho era eles passarem olhando para a calçada, mas vai entender as manias  de cada povo… Os que não tinham guarda-chuvas corriam, apertando as bolsas e casacos contra o corpo.  Alguns colocavam-se debaixo de marquises, sem o cuidado de observar a festa. Olhavam para os pulsos, relógios, vitrinas, o céu. Pobres plebeus… Teria que implementar um programa de reeducação do olhar, para ver se viveriam mais alegres. Nem sabiam o quanto era bom ser rei e ver tudo alí de cima, sem nem ser afetado pelo temporal da segunda-feira de um janeiro qualquer. Pegou um cabo de vassoura e apoiou-se, cuidando para não cair da caixa. Com o outro braço, fez um movimento de saudação para os seus súditos. Mostrou os 10 dentes amarelados numa risada alta. Era o início de uma nova era para aquela cidade. O carro de música passou tocando algo que falava sobre supermercado e preço baixo. Tudo bem, quando começasse o seu reinado as músicas dos cortejos poderiam ser trabalhadas para terem melhor qualidade. Mexeu nos próprios cabelos molhados e longos, e deu pela falta da sua coroa de papelão. Teria perdido? Ah, mas que rei precisa de uma coroa quando se tem nas vistas um céu particular tão azul, apesar da chuvarada?

*Para Nives

Maria Bonomi. Tetraz VA

Te digo que às vezes é saudável colocar o toca-discos pra funcionar enquanto a chuva faz a sua festa na vidraça.

O chiado do vinil e o chuá de um carro velho perdido na madrugada.

O acompanhamento compassado da goteira do meio da sala em perfeita harmonia com o vazamento da torneira na cozinha. Drip-drop em dois tempos e duas distâncias.

Uma gota ecoa dentro do hall do ouvido, outra no da panela já cheia dágua.

As sombras dos braços das árvores no papel de parede duram o segundo do raio. Maestro projetado.

Composição digna de uma grande ópera, brincando na partitura feita de linhas das tábuas  do açoalho.

As roupas limpas encharcadas no varal, dançarinas do ballroom improvisado a céu aberto.

O som do prato da bateria é o próprio trovão. Momento ápice.

E os livros todos espalhados no gramado, desfazendo-se na clave de sol.

Ou seria essa a clave de chuva?

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O tema desta edição da Postagem temática foi chuva. Minha sugestão para a próxima é videoclipes.

Dois olhos vivos e grandes, emoldurados por cílios e sobrancelhas grossas. Cabelos negros, arrumados em volta da cabeça. Um não-sorriso contido. Seria jovem? A chuva a faz parecer chorar.

Abaixo, um senhor de olhar grave. Esse, mais idoso. Algo perto dos 60 anos, talvez, na época do registro. Uma sobrancelha levemente arqueada em relação à outra. Rosto redondo, pressupondo um corpo acima do peso normal. A esse, a chuva faz parecer suar.

Uma mulher de pescoço longo. A gola negra dá uma impressão ainda mais esguia. Lábios finos, boca comprida. Um sorriso naquele rosto seria algo tão improvável quanto um arquear de sobrancelhas. Indiferente à chuva, ela parece observar por trás de uma vidraça, sem nem menos perceber os pingos e rajadas de vento.

Molduras douradas. Estrelas diferentes. Só as cruzes coincidem. Mesma data.

Ei? Olha pra cá! Aloou? Vocês são novos por aqui?

Nenhuma resposta. O vento aumenta. O choro da jovem também, e o suor do velho.

Ei? Vocês não me escutam? Eu estava dormindo quando vocês chegaram. Mocinha? Está tudo bem?

A frase ao seu lado diz: “Nos dias de temporal, use o amor como guarda-chuvas”.

Quanta ironia! Abra o guarda-chuvas, moça. Não chore.

– Pare de chateá-la. Não vês que ela não está chorando? São só os pingos de chuva!

Desculpe, senhora. Só queria dar as boas vindas pros meus novos vizinhos de porta! Já que terei que olhar pra vocês por um bom tempo…

– Se depender da sua saúde, acho que o tempo será breve, mesmo. Quase não posso distinguir seus traços!

Ah, sim. Tinha esquecido. Estou há tanto tempo aqui que já devo estar todo manchado. Mas mesmo assim, acho que dura um pouco até me trocarem por outro retrato.

– E trocam? Não creio. Acho que só quando removerem a ossada.

Enfim. Não importa o quanto eu permaneça. Só quero dar minhas felicitações.

– Felicitações… Eu estava tranqüila em meu álbum de família, me arrancam e me colocam nesse lugar tenebroso. Com essa moldura antiquada, ainda por cima! Não combina em nada com os meus gostos par decoração.

– Regina! Não reclame. Aqui pelo menos podemos ver mais gente! A vida lá no álbum era muito parada. Nunca víamos ninguém. Só nas festas de família, resolviam tirar-nos da caixa!

O homem gordo parece ter despertado.

Desculpe, senhor. Acho que não me apresentei. Jaime Caruzo, aqui desde 1969. Desejo-lhe as boas vindas.

Arqueando mais ainda as sobrancelhas, o homem encara e não responde.

Um ruído estranho… Doce e melancólico. Um choro de criança? Não, um choro de uma moça.

Eu disse que a mocinha chorava! Menina… Por que estás triste? O céu está lavando o cemitério inteiro só pra te receber!

– Esse lugar me assusta! Por que me tiraram do porta-retrato da sala? É tão cinza, aqui…

Menina, veja por outro ângulo! Olha as lindas estátuas de anjos. Olha aquela que tem lá no fundo, de Nossa Senhora! Acho que é a das Graças. E quando não está chovendo, o pôr do sol cobre tudo com uma capa dourada. As lápides brilham. De onde estás, podes até avistar os prédios da cidade dando boa-noite ao sol.

A menina soluça, mas parece tentar parar de chorar. Ela pergunta pra senhora

– Como viemos parar aqui?

– Parece que morremos num acidente de carro. Ouvi quando estavam nos afixando no mármore.

– Você quer dizer… devemos estar em outra dimensão! Céu, inferno, nirvana… Lugar nenhum! – diz o homem com um riso de canto de boca.

– Não ofenda a nossa religião! Eu devo estar no céu, a essa hora! Pulando de nuvem em nuvem, conhecendo e apertando as mãos de todos os santos. Já, quanto a você… não tenho tanta certeza!

A chuva vai parando. A mocinha parece ter se acalmado. Uma lágrima de chuva escorre lentamente pelo seu rosto, indo parar no chão de mármore, entre as últimas flores da noite.

Tens belos olhos… Se eu pudesse, pediria emprestado o teu guarda-chuvas.

Ainda bem que os retratos não são em cores, porque se não o rosto da jovem estaria todo pintado de vermelho.

Tu vais ver o espetáculo mais belo, todos os dias. O pôr-do-sol… Mas a minha visão é a mais privilegiada do cemitério.

– Mas quanta insolência!

Vozes distantes. A chuva cada vez mais leve…

R.I.P.

A velha com a xícara no colo. O calor dos últimos goles que ainda descansam ali dentro esquentando as mãos e a barriga. A colcha de retalhos em volta do corpo. Um travesseiro com nuvens e carneiros nas costas.

Carneiros nas nuvens. Quem já viu isso?

O mundo passa rápido lá fora. Pela janela, vê apenas o rastro de luz deixado pela matéria em movimento. Ilusão de ótica. Velocidade.

Pelos óculos de lentes grossas, dá pra identificar as linhas coloridas, horizontais, que surgem, intensificam-se e somem, dando lugar a outras cores. As gotas de chuva na vidraça fazem a janela parecer um canal de TV mal sintonizado.

O ruído da chuva. Os carros passam. O ruído do telefone. Ruído distante… Não dá vontade de levantar.

Aconchego da colcha. Cheiro do inverno passado. Do armário. As meias nos pés.

Atende o telefone?

Mais um gole. Outro. Termina o chá. Mas o calor que fica na xícara ainda aquece uma alma enrugada. Aquece pelas mãos.

Sono. O tempo passa tão devagarinho da janela pro lado de dentro!

Campainha. Ignora.

Uma luz vermelha faz movimentos circulares pela janela.

Campainha. Ignora.

O ruído distante do telefone…

Campainha. Ignora. Tem todo o tempo do mundo.

Campainha. Tudo bem. Levanta devagarinho e sente o frio subindo pelas costas recém-saídas das nuvens. Os carneiros na espera.

O frio da maçaneta. Abre.

Barulho. Buzinas. Respringos molhados. Um pequeno de olhos grandes encara, todo molhado. Fala algo. Um trocado?

Olhos grandes e negros. Alma enrugada na pele jovem de criança.

Fecha a porta e volta pra poltrona. Alma velha em pele velha de uma velha. Já não tem mais idade pra comoção.

O calor não volta mais. O calor foi embora com o menino.

Campainha. Ignora.

Ela viu os carneiros nas nuvens. O menino, não viu.

Cheiro do inverno passado. Mas acabou o chá.

pleu

Ana gosta do cheiro do ar quando chove. Da lama no parque, não. Pelo menos a mureta de pedra permite uma breve passarela. Não com as luzes da passarela do desfile. Melhor assim. Ninguém vê a maquiagem borrada e o cabelo arrepiado pela chuvinha fina que ignora imperiosamente o guarda-chuva petit-poá. A chuva, próprio petit-poá surgindo de todos os lados. O barulho dos carros no asfalto é um chuá suave. Mais melodioso do que aquele barulho seco do verão no asfalto. Tênis novo, cadarço molhado. Sozinha. Quem atravessa o parque depois de um dia de chuva? Maldita lama que invade a passarela de pedras.  Tudo bem. Como se brincava na idade da volta do colégio? Um passo após o primeiro. Um pé detrás do outro. Na pontinha. Isso. É mais ou menos como no desfile de ontem. Assim suja menos o tênis. Braços abertos pra não desequilibrar. Em pleno show, a equilibrista com seu guarda-chuva. De um lado, a calçada molhada é um espelho. De outro, a grama barrenta é um colchão nada convidativo. Ana, tu vais cair e sujar o teu uniforme! Mãe, pelo menos eu não sujo os sapatos!  Hoje é um jeans surrado. O preferido. Salto alto na mochila, tênis no pé. Presta atenção! A equilibrista quase decepciona no picadeiro vazio. Faz acrobacia para não cair, e se equilibra de novo. Um sorriso irônico. Viu? Não foi dessa vez, mamãe! Será que em Paris tem lama? A passarela do parque é melhor do que a do teatro da moda. O único juiz é o espelho da calçada. E dá pra olhar pro chão. Não precisa fingir segurança. O calçado sujo. Na pontinha. Sorriso de novo.
É engraçado. A chuva dá vontade de chorar. De se fundir à atmosfera e desmanchar. Molhada, Ana já está. Ela chove. Cho. Vê. Ra. E chora.
Vês?
Não quero ir embora.
Em Paris também se chove e chora. Pleu. Rer. Voir. Ana viu uma vez num filme. Pleuvoir é chover. E pleurer é chorar. Tem mais graça do que o inglês. Cry. Rain. Nada a ver. Mas Pleurer e pleuvoir se fundem. Se confundem. As únicas palavras que Ana conhece do futuro. Pobre cherrie – dizem os pingos de chuva. Pobre. Quando de uniforme colegial, queria conhecer a Disney. Por que, agora, Paris? Por que o salto alto?
Levanta o rosto. Isso não são modos. Coluna ereta. A banda já começou a tocar. Cuida pra não cair do salto. O corpete está apertando… Tudo bem. Enxerga apenas os 30 centímetros a tua frente. Rosto de indiferença. Paradinha. E volta. Nem viu os flashes.
Paris? Prefiro Porto Alegre e sua chuva. Chover aqui. Chorar. Sujar os sapatos sem me importar.
Escorrega e cai. Do salto? Não, da passarela de pedra. Suja a calça. O olhar repreensivo e preocupado da mãe não está exatamente ali, mas se forma no espelho da calçada. Machucou? Não. Só que o guarda-chuva já era. Levanta. Olha pra frente. Volta pra passarela. Agora deixa a chuva de lágrimas molhar por completo. Está tudo bem. Abre os braços. Não vai voar. Vai pra casa.
Pleurer?
Pleuvoir.

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