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Era ela dentre todas as coisas bonitas que jamais vi. Sorriso discreto, refinado quase que por esforço – apesar da infantilidade escancarada na gotinha de travessura colada por detrás da pupila. Maldosa de leve. Peste de mansinho. Portava na cabeça raios louros do sol no meio da dança fria de guarda-chuvas e vestidos cor de chumbo. Sim, sim, já dizia Renoir: pour moi un tableau doit être une chose aimable, joyese et jolie, oui jolie! Tão agradável, alegre, bonito. Um quadro deve ser, para mim. Eu não diria só do quadro, mas também da própria vida. E ela era a minha vida, a menina: agradável alegre bonita. Tanto.

 

"Os guarda-chuvas" de Pierre Auguste Renoir (1881-1885)

Pena que a menina não existia.

Como a vida deve ser.

Da infância, ela só lembra da textura da camisola da mãe acariciando as suas bochechas. Sentia a malha de algodão quando tinha a cabecinha repousada no seu peito durante as crises de asma. Ficou também soando no ouvido a melodia suave destas ocasiões: uma canção religiosa que a mãe afirmava ser a mesma que São Paulo cantara para se libertar milagrosamente da prisão romana. Mas naquelas horas, a música virava apenas uma espécie de mantra. Sabiam bem letra, mas as notas soltas no ar frio do quarto eram o suficiente para abafar a tosse da pequena adoentada. Não se recorda como conseguia, mas sempre adormecia. Sempre. Sem correntes, e milagrosamente sem tosse. Livre – não era como o apóstolo da história, o Paulo?

Duas notas de um por uma lata de Coca. E o anel vermelho ali no topo, lustro. Puxou-o com o dedo indicador e escutou o ruído do gás saindo devagar. Arrancou-o meio sem jeito, e guardou na sacola plástica com as tampinhas e outros anéis. Sim, recolhera todas as partes do tesouro. Missão cumprida.

Só faltava mais aquele anel de lata para completar os 10 pontos. Aí então ele tiraria toda a dignidade de consumidor que guardava dentro dos bolsos e colocaria na testa. Entraria no supermercado de cabeça erguida e pediria à moça bonita do caixa que buscasse a bola vermelha de plástico, escondendo o brinde surpresa.

Seria um brinde até mais bacana do que os brindes do Dudu, da Talita, da Jennifer e do Tales – mas havia um pequeno problema.

Não se joga comida fora – disse a voz da mãe dentro de sua memória. E, sim. Ele era um dos raros casos da pouco conhecida anomalia infantil chamada de “não apreciação de refrigerante”. Não suportava o gás fazendo cócegas na ponta do nariz quando inclinava o copo. Tinha nojo do líquido viscoso quando ele escorria e grudava pelas papilas.

Recolhera os outros 9 pontos das sobras nas mesas do bar do tio. Só comprara aquele último por ter passado por debaixo da catraca do ônibus, ao invés de entregar as valiosas duas notas de um da passagem. Trocara o orgulho de passageiro pagante por um brinde. Mas acreditava: valia a pena.

“Seria homem o suficiente?” pensou ao olhar para a lata de 350 ml e ter uma ideia arriscada. Arqueou as sobrancelhas após encarar por alguns longos segundos o objeto vermelho, e decidiu-se. Era uma atitude corajosa, e em sua dignidade fechou os olhos. Levou o objeto até a boca.

Qualquer um que visse o menino tomando grandes goles com aquela expressão no rosto imaginaria que ele estava bebendo veneno. As veias chegavam a saltar no pescoço pálido, acompanhando o movimento de deglutição. Ele não respirava. Uma gota escorreu pelo canto da boca. Empinou como se tivesse hora marcada para jogar a lata no lixo.

Terminou o serviço ofegante, teve ganas de vomitar. Jogou com raiva a lata para longe e, de língua para fora, procurou com os olhos o bebedouro mais próximo. Bebeu mais água do que quando tomara óleo de rícino aos seis, sem nem se preocupar com a quantidade de vezes que teria de ir ao banheiro mais tarde. Bochechou, fez gargarejo, cuspiu no chão. Secou a testa molhada de suor.

Mas tinha o último anel de lata. Aquele anel que lhe custaria um xingão da mãe por ter esfregado as costas do blusão no chão do ônibus. Mas tudo bem, sentia-se um Homem. Entraria no mercado com mais direitos do que nunca, e exerceria o seu papel de digno consumidor da Coca, com carteira assinada. Engolira tudo numa tacada.

E numa tacada, entrara no mundo. Um mundo que cabia no planeta Terra, mas também ali dentro do supermercado da esquina da sua quadra.

Não é que eu queira te odiar, pequena! Sei que me amas de verdade, se não não terias investido tanto do teu tempo em mimos e risinhos por detrás da minha nuca. Mas o que é que eu posso fazer se não tenho amor cá dentro para te dar em troca? Eu não o tenho – mesmo que não acredites. É caso sério! Patologia. Podes dizer que estou cuspindo no prato em que comi, mas me sinto aliviado em dizer: não te gosto. E, sim, te odeio – mesmo sem querer te odiar. É por isso que vou embora sorrindo, agradecendo a Deus por não estar na pele do próximo que se enrolará por entre as tuas colchas.

Vou esquecer-te sem remorso, junto com o punhado de tardes de risadas (tuas). Como aquela em que costurastes um coração vermelho na minha lapela! Lembras? Cuidaste para que a linha azul não destoasse do tom do meu paletó. Vi que sorrias passando a agulha de um lado para outro do tecido encardido, mas teu sorriso não me fez nem mesmo cócegas. Pelo contrário, desejei que aquela agulha transpassasse a epiderme do teu dedo e te fizesse chorar, para desistir do passatempo bobo e do coração vermelho-falso (falso por estar em mim).

E quando me colocastes à mesa bem arrumada com a toalha xadrez que a tua mãe fez com sobras de tecido, não tive vontade de me servir do copo de plástico rosa cheio do suco que separastes do teu próprio almoço. Pequena! Não vias que não sou homem de beber suco, ainda mais em copos rosas? Não me arrependo de não ter engolido uma gota sequer quando aproximastes o líquido da minha boca, e não me arrependo de ter sujado o cenário que montastes para nossa janta, por não engolir o suco.

Jesus! E o dia em que me apresentaste o teu cão… Como te odiei. Teus dedos eram como lâminas nas minhas costas, encorajando-me a fazer amizade com aquele ser bruto que escorria baba pelos cantos da boca, pingando em mim, tentando arrancar o meu braço. Quis que fosses do meu tamanho, para ver se não sentirias o mesmo medo e o mesmo nojo que eu senti. Medo e nojo do cão. Medo e nojo de ti.

Não estou de todo triste ao ver a minha perna estatelada entre as babas do cachorro pelo chão. Uma parte ele ainda está a mastigar com gosto, enquanto ajudas a tua mãe na cozinha. Te falo a verdade: sorrio neste momento. Penso na tua reação quando chegares no quarto e me vires todo rasgado, por culpa do teu descuido. Culpa, sim! Sentirás culpa – talvez pela primeira vez. Verás minhas tripas de algodão espalhadas, pálidas, e levarás as tuas mãos à boca, com o rosto molhado em lágrimas. Até alegro-me ao identificar no olhar do teu maldito cão a intenção de terminar de me estatelar por inteiro.

Como eu já disse, não é que eu queira te odiar, pequena! Não é questão de escolha. Não te gosto e pronto. Guarde a minha carta como epitáfio e, por favor, não me recostures. Procure outro infeliz na sessão de promoções da loja de brinquedos, e mantenha-o perto do cão para que o seu sofrimento dure o mínimo possível. Ou então costures um coração do lado de dentro dele, e não só numa lapela. Um coração vermelho-vivo digno. Mais digno do que o meu.

Adeus (sem mágoas apesar do ódio),

Mário Marionete

– Maldito nome com que me batisaste!

Guri, vem cá.  Te desenhei, olha!  Gostaste? Não, não te afastes, não te assustes, eu te explico. Toma um trocado, chega aqui mais perto. É que às vezes eu roubo as faces das pessoas da rua só pra rabiscar. Foi por causa dos teus olhos, quis registrá-los no meu bloco de notas. Meu Deus, são iguais àqueles olhos… Os do meu irmão Pedro. Ele fugiu de casa há anos. Eu ia fugir com ele, mas no fim das contas fiquei com medo. Ele também tinha um gato, bem mais bem cuidado do que este teu. O gato morreu velho, cansou de esperar o Pedro voltar. Nossa, faz tempo! Mas não esqueci dos olhos. Eram escuros, assim, meio nublados. Meio sonsos, às vezes… Espera, guri! Não quis te ofender. Toma mais um trocado. Acho que tu nem eras nascido quando perdemos o meu irmão de vista. Desculpe-me por te falar essas coisas, és novo de mais, ainda não sabes da vida. Também fugiste de casa, não é mesmo? Só tem esse olhar indefeso, mas bem adulto, quem alguma vez já fugiu de casa. Tá com fome? Cadê a tua mãe? A minha não deixa de rezar pela volta dele um dia sequer. Tão escuros, esses olhos… Meu Deus! Pedro, por onde andaste?

O sal das ondas fazia festas nas peles pálidas dos três meninos à beira da praia. Gritos altos e risos. Água gelada mudando os relevos da areia em volta dos corpos magros quase enterrados. Queriam engolir o mar. O menor engasgou por ter aberto demais a boca de felicidade, mas nem o pequeno pássaro verde refletido na poça de um ensaio de castelo de areia pareceu importar-se. A breve corrida pela orla contra o vento cortando os corpos molhados causou uma dor de frio até os ossos. Mais gritos. O traçado das tatuíras debaixo dos pés e por entre os dedos formava um belo quadro com o sol pincelando de azul a parte da areia que o mar acariciava. Lá ao longe, a torre de pingos desmanchava-se lentamente, condenando ao esquecimento certa experiência arquitetônica matinal. Os meninos não eram bons arquitetos – pelo menos não em grandes projetos como castelos. Em termos de mausoléus, sim. O dos olhos cor de mel já tinha apenas a cabeça para fora da areia lá pelas quatro e meia, quando desdobrou-se no horizonte um belo sol de fim de tarde. Pequenas tumbas cambiantes para aqueles que recém nasciam para mais uma brincadeira. Vida. A última onda gelada por cima das peles murchas dos breves e barulhentos donos da praia.

Chicos en la Playa de Joaquín Sorolla y Bastida

Era quando os dedos de Clara passavam pelo Si bemol que o Lá começava a dar sinais de ciúme.

A nota seguinte seria ele, mas não queria soar. Não daquela vez. Protesto pelo silêncio. “Onde já se viu…” – pensava a tecla. Os dedos pálidos da menina sempre acariciavam com mais intensidade aquela nota preta. Ouvira a professora de piano dizer “Chamam-se acidentes, os sustenidos e bemóis. São essas pretas. As notas da oitava são as naturais, as brancas. Dó ré mi fá sol lá si dó. Repita!” E lá ia o toque delicado da Clara espalhar-se pelo teclado, horas a fio depois do lanche da tarde.

Acidentes…

Naturais?

Ela costumava errar na segunda linha da página 2 do exercício 5. Acidentalmente previlegiava os acidentes. Pulava o Lá, indicado na partitura logo depois do Si bemol. “O Lá, olha o Lá, cabeça de vento!” Repetia para si mesma a garota com sua voz aguda. Tentava mais uma vez, mas perdia o ritmo. Batia na própria testa com as mesmas pontas de dedos que tornavam aquele maldito Si bemol bem sonoro, ao invés do Lá.

Si bemol sorria. Lá chingava. Mi sentia Dó, que lamentava a situação. Ré e Fá dormiam, e o Sol ficava lá fora, além da janela.

Era para a janela que Clara olhava na tentativa de clarear as idéias.

Mas só vai brincar na rua depois de estudar todas as escalas, dizia a mãe.

Agora essa. O Lá sem soar. Mããããe, o piano tá quebrado, lá não tá tocando mais! Já posso ir andar de bicicleta?

Não, não podia. Começou a bater no Lá para que destravasse e terminasse logo com o tormento.

A textura do dedo indicador da garota satisfazia a tecla teimosa. Conseguira a sua atenção! O Lá chegou a mostrar a língua pro Si bemol. “Toma essa, acidente!”

Pronto, missão cumprida. Já poderia destravar.

Teclas de marfim, teclas de ébano. Oposição de cores.

Harmonia?

O certo é que para tocar a valsinha preferida, Clara passeava por todas elas, acidentando-se nas naturais e naturalizando-se nos acidentes.

Música girando nos dedos pálidos. Nas teclas brancas. Nas teclas pretas.

Todas apaixonadas.

Por Clara.

Escurecia…

O tema desta edição da Postagem Temática foi Preto e Branco. Minha sugestão para o próximo tema é Rock.

Aproveito para encerrar o ano de postagens agradecendo a todos os que me honraram com suas visitas.

Até ano que vem!

Foi por causa da bexiguinha que Rita empurrou com toda a sua pouca força o peito de Renato.

Foi por causa da presença do Augusto no canto do pátio que Renato atirou a bexiguinha.

Foi por causa da falta de mira que a Rita ficou toda molhada.

Foi por causa da dor de barriga que Rita estava chorando encolhida no meio do caminho entre o atirador e o alvo.

Foi por causa do boletim vermelho a dor de barriga e o medo de voltar pra casa.

Foi por causa do calafrio por baixo da blusa enxarcada que Rita gritou que odiava Renato.

Foi por causa do grito que Renato foi parar na sala da direção da escola.

Foi por parar na sala da direção da escola que Renato não ganhou presentes de Natal.

Foi por causa da falta de presentes de Natal que Renato comemorou a data de forma semelhante a de Rita.

Foi por causa do boletim vermelho que Rita não ganhou nem mesmo as tradicionais cócegas do pai fantasiado de Noel.

Mas foi por causa da delicadeza do toque nas mãos que o empurraram que Renato pela primeira vez sentiu as cócegas do lado de dentro.

Foi por causa das cócegas do lado de dentro que ele conheceu a estranha vontade de que logo chegasse o próximo

primeiro

dia

de

aula.

Quando eu nasci a enfermeira do hospital não me olhou nos olhos. Gritei com ela! Tentei chuta-la. Olha pra mim, garota! Onde já se viu… Ainda por cima ela usava uns brincos redondos rosa-pink. Ridículos. Totalmente em contraste com a sala branca, fria e esterilizada em que eu vim ao mundo. Nem aí pra dor da minha mãe, a chata. Ela me entregou no seu colo com uma cara lisa de porta e foi encostar-se no canto da sala, olhando as próprias unhas. Notei a breve careta que ela fez quando viu a sujeira do meu nascimento no seu avental. Por que não me olhou? Droga! Deve ser por isso que eu peguei nojo das mulheres que usam brincos coloridos. Dizes que eu não posso lembrar? Mas é claro que lembro! É como se eu visse a cena de novo aqui, na minha frente! Ela toda nhem-nhem-nhem, depois, pegando-me pela cintura com as mãos geladas. Pesando-me. Medindo-me. Deitando-me no berço da maternidade. Não me olhando nos olhos. Aquele jeito profissional mas sem um pingo de respeito pela pessoa que eu ia virar. O que eu ia virar? Eu, bolas! Não é mais do que o suficiente? Eu e a minha vida meio sem metas, meio sem nada, mas com um certo vazio repentino do vez em quando que vale a pena por poder ser preenchido. Geralmente o preencho com literatura policial e morangos. Morangos só quando sobra dinheiro. Quase nunca, mas morangos. Pink. Nunca me atreveria a gastar o meu dinheiro com um brinco daqueles. Que coisa ridícula. Vi ela esses dias na rua, já está velha. Como não olhar pros brincos? Não me olhou nos olhos. Me lembro bem. Rosa. Redondos. Ei, olha pra mim!

O Bruno na frente da Bia. A Camilinha na ponta, ao lado da Camila Freitas. A Camila de Grandi lá atrás. Esguia. A única menina da última fileira. O Edu, gordinho, sempre no canto, junto à Tia Mara. O Jonathan na fileira do meio, entre a Martina e a Maria Clara. Posição estratégica escolhida ditatorialmente pela professora. O pequeno demônio entre os dois anjos da classe.

Estratégia que deu errado. Mesmo tendo o braço curto, o garoto alcançava a saia da Fernandinha. O tradicional grito esganiçado. Tiaaaa, olha o Joni! Ele quer puxar a minha saia! Pronto. Parte do objetivo do pequeno estava alcançado. Fernandinha olhando furiosa para ele, vermelha de raiva. Lá veio a profe. Pára quieto! Na próxima tu vai ser suspenso, guri! Ele virou-se para a frente. As pequenas mãos escondendo o riso. Para todos, riso diabólico. Para ele… Ah, já que estava no inferno que por engano chamam de escola, pra que não tentar se divertir um pouco?

O Carlos batendo os pés em marcha na estrutura de madeira montada para a fotografia da 3ª série de 1997 da Escola Nossa Senhora de Fátima. Os tais registros escolares para os quais as pessoas só conferem alguns significado depois de algumas décadas, ou fios de cabelo a menos. Mais uma necessária intervenção da professora. Pára com isso, Carlos! Quer ser suspenso junto com o Jonathan? Uma vozinha aguda no meio das exlamações de espanto. Bem que merecia. Era a Fernandinha de novo. Carlos retruca. Mas não fui eu, foi o Otávio! A rouquidão do baixinho que insistira em ficar na fileira do meio, apesar da estatura. Nada a ver! Cala essa tua boca de mentiroso, se não o meu irmão vai te dar uma surra. Um breve e intenso rebuliço. A risada alta do Edu, que sempre observava tudo, quase que de fora.

Será que eu vou ter que chamar a diretora pra convencer vocês a ficarem quietos por 5 segundinhos e tirarmos essa bendita foto? Era o velho tom quase de súplica da tia Mara. O fotógrafo bocejando, sentado numa das mesas de madeira da sala de aula. Pronto, Seu Martim. Pode tirar a foto agora. A professora formulou essas palavras já com o sorriso forçado no rosto.

Em sua monotonia, seu Martim encaixou a câmera no tripé. Ajustou o foco. Posicionou o equipamento um pouco mais para trás, para que coubesse no enquadramento a cruz de Cristo pendurada acima do quadro negro. Um inquieto burburinho de comentários de meninas e assovios de meninos.

O momento oportuno.

O rubor.

A Fernandinha, na fileira da frente. Ainda com raiva da brincadeira de Jonathan. Ainda sem sorrir. Tonho, sempre o mais baixo da turma, ao seu lado. O roçar da manga da blusa dele no casaco do uniforme escolar dela. O garoto respirou fundo. Fechou os olhos. Reuniu toda a coragem que já havia recolhido em seus quase nove anos de vida, e mais a coragem que ainda não tinha. A coragem que talvez nunca tivesse e…

Segurou a mão da garota. Coração disparado.

Relógio congelado no tempo. Turma congelada no tempo. Sorrisos congelados no tempo. O rubor da face de Fernandinha congelado no tempo. A textura da sua mão pálida…

Pronto. Era essa a foto que o menino iria guardar para sempre. Na memória. Foto tirada antes mesmo do clique da câmera de seu Martim, previsto para acontecer dalí a alguns segundos.

Segundo perfeito. Sublime… Suave. Eterno.

Não é pra guardar esses momentos que serve a fotografia?

Nada poderia estragar aquele segundo congelado. Nem mesmo um…

Soco nas costas. A breve avalanche de garotas caindo do pequeno palanque de madeira para o chão. Gritinhos agudos (das que não caíram). Os óculos do Tonho, grandes demais para o seu rosto, indo parar no meio da sala. A face desfocada de Joni, as suas mãos segurando-o pelo colarinho. Gritando. Gritando…

Lar-ga-a-mão-da-mi-nha-na-mo-ra-daaaaa!

Tonho virou o rosto para o lado, tentando proteger-se da fúria de Joni. Viu a Fernandinha, segurando a manga da camisa da profe. Ela olhava para ele. Olhos tristes. Balança a cabeça de um lado para outro…

Mas olhava. Pelo menos isso. Ela nunca o tinha olhado antes.

O pequeno menino sorrindo no chão. Mais um soco de Joni. Alguém puxou-o para longe. O gosto de sangue entre os lábios. As meias brancas da Fernandinha. Imagem desfocada, alí bem perto…

.

Não houve foto. Um buraco nos registros da escola. Jonathan com uma semana de suspensão. Fernandinha tentando convencer a todos que não era namorada do pequeno demônio. As suas bochechas ficando vermelhas em qualquer ensaio de olhar que Tonho lhe lançasse. As mil e uma versões da história passeando em cochichos e risos pelo pátio da escola.

E a foto mais linda da vida de um certo menino.

A foto que não foi tirada.

É nisso que dá deixar pra fazer a postagem temática na última hora. Fugi do tema de novo, hehe. Desculpem-me.

O tema dessa vez foi (era para ser) fotografia. Minha sugestão para o próximo é Músicas dos Beatles.

Só pra aproveitar a deixa da temática, coloco aqui a dica de um livro que não é sobre fotografia, mas toca na questão de uma maneira muito peculiar. É o livro Memória do Brasil, de Evgen Bavcar. Pra quem não conhece, o Bavcar é um fotógrafo cego. Nesse livro ele conta um pouco da viagem que ele fez para o Brasil (Porto Alegre está no roteiro). Além de ser muito bem escrito, traz também imagens belíssimas. Vale a pena.

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