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Pedalando em círculos no quintal da casa em que nasceu, Pedro notou que se passara apenas um breve cochilo desde que tivera a centimétrica coragem de tirar os pés do chão e colocá-los nos pedais da bicicleta. “Passou rápido, voando”, ressoou o irritante clichê no interno da caixa craniana. Irritante por ser completamente verdadeiro – assim como a maioria dos clichês que dizem por aí as pessoas chatas. Parecia que não acontecera absolutamente nada desde que aprendera a pedalar, a não ser a sensação gostosa de autonomia que experimentara ao longo dos 30 primeiros segundos de sua vida que transcorreram sobre a bicicleta. Depois disso, sempre a mesmice. Sempre as mágoas. Sempre o desconforto. Sempre o soar repetitivo das pedrinhas do chão que se deslocavam sob o peso das rodas. “Por isso passou tão rápido”, refletiu. Era a falta de ação (da sua parte). Mergulhou então no circular silêncio interior em que enterrava tudo. A última coisa nele sepulta fora a desgostosa ironia feita por Daiana sobre a incapacidade dele de pedalar em linha reta. Daiana tinha um sorriso bonito quando não era irônico. Pedro guardava todas as mágoas no silêncio da caixa toráxica, na tentativa de expulsá-las da caixa craniana. Ali, mais uma vez, ecoava: “Passou rápido, voando”. Clichê verdade acidental. A centimétrica coragem de manter os lábios cerrados era um pouco menos longa do que a centimétrica coragem que tivera aos 9 para colocar os pés nos pedais. “Se gritasse na cara de Daiana minhas mágoas, eu sentiria mais uma vez os trinta segundos de prazer da primeira vez que pedalei?”, pensou.

Pedro completou 78 anos pedalando em círculos no quintal da casa em que nasceu, ouvindo as pedrinhas darem espaço às rodas de sua bicicleta.

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Não foi amor à primeira vista. Nem à segunda, nem à terceira. Foi à sétima, as sete horas da manhã, no sétimo andar.

A presença dele era constante em seu corredor. O cruel corredor de sorrisos simpa-té-ticos, depois do elevador e antes da porta cinza de sua sala. O corredor que não permitia que ela voltasse a cabeça para cima para cumprimentar o moço que já vira umas tantas vezes, mas nunca com a atenção devida. Cabeça ocupada em encenar a própria vida. Ocupada em conter o incêndio no seu teatro interior que faria desmoronar a sua peça cotidiana.

Mas na sétima vista, alguma coisa havia mudado no ambiente. Talvez fosse porque a manhã estava demasiado sonolenta para que ela se atrevesse a fechar os olhos e encostar-se no espelho do elevador, como sempre fazia, sem pegar no sono. Ao invés disso, ela encarou as suas próprias olheiras refletidas. Seu próprio início de sorriso simpa-té-tico. Sua própria manhã de eterna segunda-feira.

A porta do elevador abriu-se às suas costas e mostrou a silhueta de um homem refletido no espelho. A sineta suave que indica a chegada ao andar preciso soou mais lenta. A moça deteve-se por alguns instantes para observar o moço, antes de ser novamente engolida pelo elevador do antes do dia cinza da sua sala.

O homem era verde e corria, sem nem mesmo se mexer. Preso em suas duas dimensões, movimentava-se em direção a uma seta.

Saída de emergência. Em caso de incêndio.

Emergência, era a situação. Fogo. Por dentro. O homenzinho verde quimando junto e longe dela. Parados. Não conseguiam fugir.

Ela quis tirá-lo logo dalí e levá-lo para um corredor onde pudessem correr em paz, encendiando salas cinzas de prédios. Longe, bem longe!

Saída de emergência, para salvar a sua vida do frio, da ausência, da encenação.

Amou o homenzinho verde, profundamente. Devotou-lhe a atenção que nunca havia devotado e sentou-se no chão do elevador. Sentiu-se ele, idêntica. Quis casar. Sonho esquizofrênico. Até a voz metálica des-despertá-la mais uma vez.

Térreo.

Levantou-se, encostou-se no espelho. Fechou os olhos, respirou fundo. Apagou o pouco que pode do próprio fogo e matou a sua história de amor com uma placa.

Riu de si mesma.

Apertou mais uma vez: 7º andar.

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