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Da infância, ela só lembra da textura da camisola da mãe acariciando as suas bochechas. Sentia a malha de algodão quando tinha a cabecinha repousada no seu peito durante as crises de asma. Ficou também soando no ouvido a melodia suave destas ocasiões: uma canção religiosa que a mãe afirmava ser a mesma que São Paulo cantara para se libertar milagrosamente da prisão romana. Mas naquelas horas, a música virava apenas uma espécie de mantra. Sabiam bem letra, mas as notas soltas no ar frio do quarto eram o suficiente para abafar a tosse da pequena adoentada. Não se recorda como conseguia, mas sempre adormecia. Sempre. Sem correntes, e milagrosamente sem tosse. Livre – não era como o apóstolo da história, o Paulo?

As palavras são amontoados de letras. As letras são uns rabiscos de sons. Os sons, por sua vez, são vibrações produzidas pelas cordas vocais. Partes do corpo, simples assim. Como os dedos! Você já se imaginou sem os seus dedos?

O velho de turbante já deveria estar me olhando enquanto eu matutava sobre o assunto. Como um gato perdido entre novelos de lã, enrolava-me entre as linhas coloridas do mapa parisiense afixado na parede da estação de metrô. Era como se meus dedos tivessem sido amputados para puxar a ponta do novelo de ruas em que me metera a partir do momento em que pisara em solo francês só sabendo falar oui.

Alguém para puxar a ponta do novelo… Onde? As linhas do mapa misturavam-se, manchavam-se, cortavam-se…

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E de repente passara-se uma hora de caminhada pela cidade sem encontrar o endereço do hotel. Mochila pesando nas costas, neve acumulando no chapéu e nos ossos. Frio. Ninguém sabia dizer onde ficava o maldito Boulevard Jules Ferry. Encrenca pronunciada com biquinho – biquinho que eu nunca soubera fazer, e ainda não havia aprendido ao chegar mais uma vez na frente do mapa da estação. O emaranhado de palavras sem sentido à minha volta orquestravam uma confusa trilha sonora…

.

Não consegui decodificar de pronto os sons pronunciados pelo velho de turbante às minhas costas, mas eu sabia que não se tratava de francês. Era uma pronúncia que despertava cheiro de deserto, tons de amarelo queimado. A pele escura desenhada em rugas talvez fosse similar ao próprio relevo daquele que deveria ser o seu país de origem. Oriente, com certeza.

Como por intuição, eu disse: Boulevard Jules Ferry! J-U-L-E-S F-E-R-R-Y. O velho abaixou a cabeça. Senti uma pontada de dor nas costas só de imaginar que ele seria mais um entre tantos que não saberiam me indicar nem ao menos uma direção. Até que…

République.

A breve palavra surgiu por entre os lábios envelhecidos. Ele apontou no mapa uma outra estação de metrô com este nome, traçando a partir dalí uma linha até o ponto chamado “Bastille”, onde nos encontrávamos. Parecia o desenho do fim do novelo – o desenho de um sorriso nos meus lábios. Depois, os dedos começaram a traçar loucas curvas através de travessas já sem nome.

Ele fez sinal para que o seguisse. Receosa, fui. Sem entender uma vírgula, mas fui.

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Agradecer-lhe? Sorri. Não existiam palavras – literalmente – para o momento em que ele me deixou exatamente no fim do novelo. Já disse, era como se minhas cordas vocais tivessem sido amputadas naquele país. Tudo o que eu poderia fazer era sorrir, sorrir, sorrir, e abanar-lhe, quando se afastou.

“Que ideia ridícula”, pensei, quando certa palavra surgiu brincalhona na minha mente. “Ele nunca entenderia. Nunca…”. Mas, também… O que eu tinha a perder?

Obrigada, amigo! – gritei quando o velho já quase chegava na esquina.

Ele virou-se, juntou as palmas das mãos e abaixou a cabeça em uma espécie de reverência. Sim, convencera-me de que eu escolhera o agradecimento apropriado – na língua que era a minha. Obrigada, repeti baixinho… E eis que aquele amontoado de letras, rabiscos de sons, vibrações das cordas vocais, de repente me pareceu algo bonito – bem  mais bonito do que dedos! Para além do material. Ainda que não passasse de uma…

Palavra.

Fora de contexto

– mas compreendida.

Oui. Simples assim.

……….

O tema desta edição da Postagem Temática foi Palavras.

Sugestão: cicatrizes.

E era eu a cem por hora na highway das minhas veias, procurando o meu próprio rosto entre os rostos dos andarilhos que pediam carona pela estrada. A placa depois da ponte dizia: “A gente nunca encontra a si mesmo”. Não confiei na sinalização. Acelerei mais um pouco e segui em frente, sem olhar pros atalhos, sem dar atenção aos andarilhos que me rogavam pragas.

Sobre a mesa lá de casa, apenas um bilhete: “Mãe, não chora, um dia eu volto, e trago comigo o pedaço de mim que eu ainda estou por encontrar em algum ponto já rasgado do nosso mapa”. Deixei o recado debaixo da xícara manchada de café, pensando que o meu desrespeito de nem mesmo lavar a louça evitasse algumas lágrimas por parte da velha.

Pé na estrada. O pedaço de mim que me faltava estaria ali no caminho, certeza! Era só olhar com atenção… Talvez em algum posto de gasolina, ou descansando sob a sombra de alguma árvore.

“As moléculas da estrada penetram na epiderme e mudam o nosso código genético” – disse-me uma vez um dos andarilhos. – “O pedaço que te falta é aquele que tu deixaste em casa, e que já é um outro tu”.

A highway conduzia-me pelas linhas de uma circunferência. Era o meu fluxo sanguíneo sempre voltando para o coração, subvertendo as setas rascunhadas no velho mapa.

E era eu a cem por hora procurando – sem nem saber – a xícara de café a ser lavada. Correndo sempre de volta.

De volta para casa.

Post feito aos trancos e barrancos para a Postagem Temática. Dêem um desconto, porque eu tô atrasada pra pegar o avião (pra voltar pra casa, hehe).

Desta vez o tema foi Retorno. Minha sugestão para o próximo é Silêncio.

Eu estava remendando a velha saia de bolinhas quando tu chegaste pelas minhas costas e repreendeste-me com a doçura habitual. “Pra que usar a saia que foi da tia, foi da avó, foi de uma pera qualquer perdida entre os galhos da árvore genealógica?” Jogaste as bolinhas e peras no baú dos usados, e eu ajudei a trancá-lo. Nem que fosse por só alguns breves segundos. Breves sonhos, breves princesas, breves sorrisos. Breve toque da tua mão. Colocaste um pedaço de seda rosa no meu pescoço e puxaste a revista de moda emprestada da vizinha. Última edição, saia colorida na capa. Eu estava na tua capa – sempre estive. Gostaste do modelo, mas com uma pequena alteração na medida do evasê. Era o teu toque pessoal sempre deixando qualquer besteira um bocado mais elegante. “Não gostas de borboletas, né?” Eu nunca disse que não gostava, mas tudo bem. Tu separaras um florido de fundo branco, e eu não achei mal. Princesas. Breves. Inventavas uma nova e viva saia com um belo jardim na barra. Foi pra lá que eu me mudei, e deitei-me na relva verde. Senti a brisa causada pelas asas das borboletas a milhares de quilômetros de distância, já que tu as expulsaras. Mas o baú dos usados está sempre cheio, e volta e meia esparrama as velhas saias de bolinhas e as peras pelo chão… Quando vejo, lá estou eu remendando-as de novo, e espirrando por causa da poeira. Aí tu vens, me repreendes. E me reinventas dentro de uma nova e mais bonita saia.

Criarei um símbolo só pra mim. Será o meu carretel, o meu Viva la Vida. Será a pétala de flor que deitará sobre os meus lábios para sempre fechados, e a vela que aquecerá as maçãs do rosto no dia do meu 15º aniversário. Será a sola do meu sapato na próxima queda, e a pedra da calçada que esfolará o joelho sem meia-calça. Será a palma da minha mão apertando as pálpebras quando eu quiser enxergar o mar, e o meu livro de memórias de não mais do que duas páginas. Será o que verei em todas as placas, nos aeroportos, estações de trem, cruzamentos, destinos, praças. Ele estará nas publicidades de supermercados, nos planos e mapas do próximo assalto. Um símbolo para a próxima guerra. De travesseiros, de pijamas, de sinfonias de ninar.  Fincarei bandeira! Tomarei um país qualquer. Um país da península da minha saia. Riscarei o símbolo na minha pele, pintarei ele em cada ruga do meu rosto. E será só meu.

Esconderei-o dentro da minha caixinha de lápis.

Será o meu próximo devaneio. Mas esse, não. Esse eu não te darei de graça.

Às vezes ela deixava a janela da sua casa entreaberta para que algum transeunte menos distraído notasse a violeta do parapeito combinando com a cortina. Porém, naquela tarde, alguma brisa do oeste inspirou o desejo repentino de abrir também a porta e compartilhar o seu bule de chá.

O moço entrou, acomodou-se confortavelmente na poltrona e falou com alguns pormenores sobre a sua própria casa. Combinação estupenda! Ambos apreciavam a decoração em verde escuro, louça pintada à mão e toca-discos na sala de estar.

O problema era o relógio. O de um era branco e prata com ponteiros negros, e o de outro era retrô de madeira com um pêndulo que marcava cada hora com uma melodia muito particular.

17:45. Às seis, o carro da mudança. A moça viajaria para ver novas janelas e novas portas.

Ele não teve tempo de contar a ela sobre a goteira da sua cozinha, e nem sobre o azulejo do banheiro que caíra na semana anterior por causa da umidade. Tampouco ela lhe falou sobre os cupins que enchiam o quarto com a poeira fina de madeira, destruindo a sua escrivaninha de trabalho.

Ele nunca se importava com os cupins. Tinha folhas de louro espalhadas pela casa para espantar a praga. Ela, por sua vez, nunca se preocupava com goteiras. Até colocava as suas plantas debaixo dos buracos do teto para que lentamente fossem regadas nos meses de chuva.

Goteiras. Cupins. Janelas. Cortinas. Toca-discos. Sentimento. Repentino.

Tudo dentro de uma casa que ainda não tinha como existir.

Malditos relógios que não combinavam.

Nunca, mas nunca mesmo, me deixe acreditar em foguetes, relógios, cartões de crédito. Nem mesmo em pixels, ou aquela lorota da mistura pronta para bolo de fubá. Quanto aos políticos, os óculos escuros, as tomografias computadorizadas, não permita que eu fale qualquer pedaço de palavra em defesa desse tipo de besteira. Não preciso acreditar em nada disso. Muito menos o monte de porcarias que nos empurram goela abaixo pelas ruas, nos outdoors, nas prateleiras dos supermercados. Há gente besta por aí que acredita em cada coisa… “Mais barato”, “cabelo mais liso”, “homens aos seus pés”, “viagens”. Eu não. Eu boto a minha fé em outro lugar. É justamente no mesmo bidê em que coloquei a rosa que me destes. Lembre-me de regá-la, porque é nesta rosa que eu acredito quando abro os olhos meio sem vontade todo dia cedo da manhã. Se ela morrer, vou me esquecer da beleza. Se eu esquecer da beleza, não vou ter forças pra levantar. Durmo pra sempre – mesmo que de olhos abertos e movendo-me pela cidade. Se isso acontecer, vou perder o sabor do leite misturado com café passado, lá pelas 7 e 15, quando ainda está tocando no rádio o programa de música dos anos 60. Vou perder de sentir a bolacha maria com um pouquinho de geléia de morango desmanchando na boca. Se eu dormir pra sempre, como é que a minha Lua em Aquário vai avivar a vontade de liberdade que me faz mecher as pernas e transformar em fantástico um dia normal? Não vou sentir o vento que as asas dos anjos fazem na travessa que dá no colégio Martim de Freitas. Eles passam ligeiro, é preciso estar acordada para percebê-los. Vou perder de perder a hora da aula, só para sentir o roçar desse vento. Vou perder de subverter os relógios. Ah, e se não sair da cama, vai demorar mais tempo ainda pra minha fita verde do pulso se rasgar. Senhor do Bom Fim, três pedidos. Não esqueci de nenhum deles. E se eu só dormir, não vou viver. Se eu não viver, não vou morrer. Se eu não morrer, não vou pro céu, que segundo os meus cálculos deve ser tipo um Woodstock com um público mais diversificado. Vou perder de assistir ao Jimi Hendrix e sua guitarra inflamada, The Who, a Janis. Basta ter perdido o evento por não ser nascida, só faltava eu perdê-lo por não-estar-morta. Não quero isso. Preciso viver, pra depois morrer! Preciso também criar coragem, porque se eu chegar no céu e lá não estiver o teu sorriso, eu arrumo as trouxinhas e volto. Mesmo que o Jimi Hendrix esteja lá. Não vale a pena. Eu falo com Deus, negocio a passagem aérea. Ah, juro que volto! Não duvide. Volto pra te ver, e pra pegar também a rosa. Sim. A beleza da rosa. É nela que eu acredito. Ela pode me ajudar a começar sempre de novo, assim como ela me acorda todos os dias de manhã, e me puxa para fora das cobertas. Então, reforço o pedido mais uma vez… Não permita que eu a deixe murchar. Nunca! Não quero nem imaginar a minha vida feita só de xampús, bárbies grávidas, carros de fórmula 1. Não quero ser um zumbi. Quero a minha vida feita da rosa. Eu tenho fé nessa rosa.

E então, me ajudas a regá-la?

O tema desta edição da Postagem Temática foi .

Sugestão para o próximo tema: Chuva

Assim, de perto, pareces pequena. Cabes num mapa, dobrado na bolsa.

Não me deste medo. Nem um pouco. Tentaste me assustar, eu percebi. Mas sei que foi de brincadeira quando puxaste para cima os tapetes de pedra que estavam aos meus pés.

Não caí.

Desequilibrei, admito. E senti as pernas doerem quando tive de enfrentar a angulação de chão que me propuseste.

Mas foi só para fazer a coisa toda ter um gostinho a mais. Te peguei! E me pegaste pela dificuldade.

No fim, a descida compensa. Não evito o riso na corridinha ladeira abaixo. Eu fazia isso, quando criança. Tão íngreme quanto, do colégio para casa. Em gargalhadas. Mão na mão da mãe.

Nesta descida, me deste flores. De azulejo, sim. Duras, mas belas.

[Um pedido de desculpas pela subida que me impuseste? Talvez…]

E se estas não cheiram a flores, fazes soprar um vento fresco do rio, cheirando a peixe.

Comparar flores a peixes. Que estranho! Talvez seja porque descobriste o meu signo. Vindo de ti, não duvido.

Não pense que não notei como te adornaste para a minha chegada.  Passei por entre as cores dos lençóis e toalhas estendidos nas tuas janelas.  O sol escorre neles aos pingos, depois das seis. Tive de me molhar com tal tinta, feita de luz.

Escolheste a hora do nosso encontro pensando nisso, não? De fato, essa hora te cai bem.

Te cai tão, tão bem, que me fez cair em ti. Dentro. Foi logo depois do pôr do sol, ali, na loja de livros velhos, perto da estação de comboios. Me vi refletida numa das vidraças da vitrine. Fiz parte de ti.

Os dourados fragmentos de luz, aparecendo à minha volta em lamparinas… Lindas!

Linda. Tu és.

Pequena. Cabes na bolsa.

Cabes na alma.

Quem sabe inventaste este espetáculo todo só para que eu pudesse caber dentro de ti.

coimbra

varal

Não fosse o espírito dessas nuvens cor-de-rosa lilases douradas cinzas recortadas por suaves navalhas do sol do fim da tarde que joga seus cabelos lisos louros sobre a cidade e tinge os prédios com o tom da sua última escolha de tintura de farmácia deixando parte das minhas roupas penduradas no varal tão acesas quanto as chamas das velas do nosso último jantar e fazendo as meias floreadas e as calcinhas baratas dançarem na parte que já virou sombra do quintal aquele rock’n’roll meio suave que me mostraste numa noite qualquer do mês passado e as laranjas do terreno da vizinha queimando em seu bronzeamento fora de época ao som da voz da minha mãe que garante que tão lindas nuvens estão anunciando chuva logo acima das construções novas velhas recuperando o multicolorido original pré-toque dos cabelos louros do sol e as luzinhas nas janelas se mostrando lentamente para enfeitar a cidade e imitar o pinheiro do natal de 1998 que o pai arrumou e hoje é tão visível por entre os galhos da velha e nua árvore chacoalhando tímida por causa do carinho do vento que chegou até os meus cílios…. Eu acreditaria que estamos no inverno.

Mas alguma alma doidivana enlouqueceu os calendários.

Eis a primavera. Under my skin.

catedral/gramado

Tentando achar um bom ângulo para olhar o mundo. E as cores certas. Às vezes na pontinha dos pés. Às vezes por trás de muros e névoa. Às vezes um pouco mais à direita do foco principal. Outras tantas, à esquerda. Às vezes com a ajuda de alguém para dar a dica. “Olhe para cima”. Dessa vez foi o pai. E em tons de cinza.

Gramado/inverno de 2009. “No teto de um dia nublado”.

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