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Pedalando em círculos no quintal da casa em que nasceu, Pedro notou que se passara apenas um breve cochilo desde que tivera a centimétrica coragem de tirar os pés do chão e colocá-los nos pedais da bicicleta. “Passou rápido, voando”, ressoou o irritante clichê no interno da caixa craniana. Irritante por ser completamente verdadeiro – assim como a maioria dos clichês que dizem por aí as pessoas chatas. Parecia que não acontecera absolutamente nada desde que aprendera a pedalar, a não ser a sensação gostosa de autonomia que experimentara ao longo dos 30 primeiros segundos de sua vida que transcorreram sobre a bicicleta. Depois disso, sempre a mesmice. Sempre as mágoas. Sempre o desconforto. Sempre o soar repetitivo das pedrinhas do chão que se deslocavam sob o peso das rodas. “Por isso passou tão rápido”, refletiu. Era a falta de ação (da sua parte). Mergulhou então no circular silêncio interior em que enterrava tudo. A última coisa nele sepulta fora a desgostosa ironia feita por Daiana sobre a incapacidade dele de pedalar em linha reta. Daiana tinha um sorriso bonito quando não era irônico. Pedro guardava todas as mágoas no silêncio da caixa toráxica, na tentativa de expulsá-las da caixa craniana. Ali, mais uma vez, ecoava: “Passou rápido, voando”. Clichê verdade acidental. A centimétrica coragem de manter os lábios cerrados era um pouco menos longa do que a centimétrica coragem que tivera aos 9 para colocar os pés nos pedais. “Se gritasse na cara de Daiana minhas mágoas, eu sentiria mais uma vez os trinta segundos de prazer da primeira vez que pedalei?”, pensou.

Pedro completou 78 anos pedalando em círculos no quintal da casa em que nasceu, ouvindo as pedrinhas darem espaço às rodas de sua bicicleta.

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“Eu quero a sorte de um amor tranquilo” – com o cigarro apoiado entre os lábios, a articulação tosca das suas palavras dava à mensagem uma certa carga de absurdo. O seu tom displicente não me deixava crer na veracidade da afirmação.  Não estava segurando o cigarro entre os dedos indicador e médio com a maestria e a elegância costumeiras porque tinha as duas mãos ocupadas: amarrava as minhas pelas costas da cadeira velha que compráramos em um brique qualquer um pouco antes do nosso casamento. “Mas se eu aprendi uma coisa depois de 4 maridos, meu bem” – tirou o cigarro da boca antes de terminar a linha de raciocínio, não sem antes soltar uma lenta nuvem de fumaça no ar do sótão – “é que tranquilidade mesmo, a gente só tem a sete palmos, debaixo de Deus”. Eu não podia responder, com o esparadrapo colando toda a minha boca, mas se pudesse, responderia com um sincero “o que foi que eu te fiz?” Ela sorriu de um jeito quase doce – quase, porque doçura não é o que se pode esperar de uma mulher que acaricia um revólver enquanto fala. Deve ter lido a pergunta dentro do meu pensamento. “Com você até que foi bem tranquilo, amor. Mas não o suficiente”. Ela esfregou na minha cara uma pequena foto: eu e a minha colega de trabalho em um abraço. Acaso, obviamente. Não consegui segurar o desespero de esclarecer o equívoco, mas minha explicação não atravessou aquele esparadrapo maldito. “Vocês 4 deveriam me agradecer. Dou-lhes a tranquilidade do não existir… Quer maior amor que isso?” Engatilhando o revólver, ela disse baixinho no meu ouvido, pra nem as aranhas do sótão escutarem… “Mas vocês só me dão azar, amor. Azar…” Senti o cano frio do revólver no meu pescoço, em contraste com a pele quente do rosto dela no meu. O cheiro de cigarro ainda estava naquela boca. “Um amor tranquilo, babe. É pedir demais?”

Ela foi passando o revólver acima na minha face até beijar a minha testa (com beijo de fumaça).

Esta edição da Postagem Temática foi especial “sugestão de frase”. Cada blog sugeriu uma frase para iniciar o texto de outro. A sugestão para o meu post foi da Andi.

Coloco em votação para o próximo tema: quedas.

Duas notas de um por uma lata de Coca. E o anel vermelho ali no topo, lustro. Puxou-o com o dedo indicador e escutou o ruído do gás saindo devagar. Arrancou-o meio sem jeito, e guardou na sacola plástica com as tampinhas e outros anéis. Sim, recolhera todas as partes do tesouro. Missão cumprida.

Só faltava mais aquele anel de lata para completar os 10 pontos. Aí então ele tiraria toda a dignidade de consumidor que guardava dentro dos bolsos e colocaria na testa. Entraria no supermercado de cabeça erguida e pediria à moça bonita do caixa que buscasse a bola vermelha de plástico, escondendo o brinde surpresa.

Seria um brinde até mais bacana do que os brindes do Dudu, da Talita, da Jennifer e do Tales – mas havia um pequeno problema.

Não se joga comida fora – disse a voz da mãe dentro de sua memória. E, sim. Ele era um dos raros casos da pouco conhecida anomalia infantil chamada de “não apreciação de refrigerante”. Não suportava o gás fazendo cócegas na ponta do nariz quando inclinava o copo. Tinha nojo do líquido viscoso quando ele escorria e grudava pelas papilas.

Recolhera os outros 9 pontos das sobras nas mesas do bar do tio. Só comprara aquele último por ter passado por debaixo da catraca do ônibus, ao invés de entregar as valiosas duas notas de um da passagem. Trocara o orgulho de passageiro pagante por um brinde. Mas acreditava: valia a pena.

“Seria homem o suficiente?” pensou ao olhar para a lata de 350 ml e ter uma ideia arriscada. Arqueou as sobrancelhas após encarar por alguns longos segundos o objeto vermelho, e decidiu-se. Era uma atitude corajosa, e em sua dignidade fechou os olhos. Levou o objeto até a boca.

Qualquer um que visse o menino tomando grandes goles com aquela expressão no rosto imaginaria que ele estava bebendo veneno. As veias chegavam a saltar no pescoço pálido, acompanhando o movimento de deglutição. Ele não respirava. Uma gota escorreu pelo canto da boca. Empinou como se tivesse hora marcada para jogar a lata no lixo.

Terminou o serviço ofegante, teve ganas de vomitar. Jogou com raiva a lata para longe e, de língua para fora, procurou com os olhos o bebedouro mais próximo. Bebeu mais água do que quando tomara óleo de rícino aos seis, sem nem se preocupar com a quantidade de vezes que teria de ir ao banheiro mais tarde. Bochechou, fez gargarejo, cuspiu no chão. Secou a testa molhada de suor.

Mas tinha o último anel de lata. Aquele anel que lhe custaria um xingão da mãe por ter esfregado as costas do blusão no chão do ônibus. Mas tudo bem, sentia-se um Homem. Entraria no mercado com mais direitos do que nunca, e exerceria o seu papel de digno consumidor da Coca, com carteira assinada. Engolira tudo numa tacada.

E numa tacada, entrara no mundo. Um mundo que cabia no planeta Terra, mas também ali dentro do supermercado da esquina da sua quadra.

“Meia hora, e estaremos no ar!” – brada o produtor do programa de tv com o blusão de felpas.

“Posso dizer algo? É improvável que a gente entre, pela lei da probabilidade. Se trouxesse uma malabarista, ganharia tempo”.

O interlocutor do produtor é ninguém menos do que o beatle George Harrison. Ele rabisca bigodinhos no rosto do homem que aparece em um dos monitores do estúdio enquanto fala, com aquele conhecido ar de desinteresse e o cabelo sobre as sobrancelhas.

Ao mesmo tempo, a minha mãe sorri com o canto dos lábios. Ela ajeita delicadamente a saia por debaixo das coxas e olha discreta para a fileira de trás do cinema, onde está o ainda desconhecido meu pai. Ele não olha para ela. Segue vidrado na história maluca dos Reis do IêIêIê (como haviam magistralmente traduzido o título do filme para o português).

O motivo do estresse dentro da tela está na Delegacia de Polícia. É Ringo Starr que num acesso de revolta foge da responsabilidade da apresentação. Deixa assim a banda de rock mais aclamada de todos os tempos sem um baterista, e sai por aí cometendo algumas infrações.

Ao umedecer os lábios, a minha mãe nota que esqueceu de passar o batom vermelho. Droga! Sem o batom vermelho o conjunto do seu charme é tão desfalcado quanto os Beatles sem baterista. Mas tudo bem, é realmente a noite de um dia difícil, sem tempo para fazer maquiagem. Pensa em um jeito de seduzir de outra maneira.

Na sequência, os garotos de Liverpool correm pelas ruas para resgatar Ringo Starr ao som de Can’t Buy My Love. Can’t she buy? Oh, baby! She can! A mãe decide comprar uma pipoca e errar a fileira na volta da bomboniere, mesmo que sem o necessário batom.

Resgatado o Ringo, os Beatles dirigem-se de volta ao estúdio de televisão. Os trinta minutos anunciados pelo produtor haviam passado rápido demais! E o pai nem mesmo nota o leve toque no seu braço – obviamente sem querer – da garota que sentara na poltrona ao lado com o balde de pipoca, tamanho o fascínio com o enredo passando na tela.

Tell me why. É a música que atravessa a sala de cinema. Por que? Por que o pai não olha pra mãe? If I fell. Essa é romântica. E a mãe joga de leve os cabelos perfumados no ombro dele, mas sem resultados. I Should Have know you better. Ela espera sinceramente que ele lhe diga isso depois de sentir a textura dos seus cabelos. She loves you, yeah, yeah, yeah! As mocinhas gritando no filme. A minha mãe gritando na platéia, sem nem precisar falar. Os créditos finais com A Hard Days Night, e as luzes acendem-se. The End.

Meu pai desperta o êxtase beatlemaníaco e tropeça nas pernas da moça da poltrona ao lado.

-Hey, garota! Você não estava aqui no começo do filme, estava?

Ela só balança a cabeça em sinal afirmativo e desabrocha o sorriso sem batom. Passando a mão por detrás da nuca e desviando os olhos daquele brilho todo, o pai titubeia no convite à arrebatadora desconhecida…

– Quem sabe se… Não sei. Pensei em ir na loja de discos. O meu velho deu um  dinheirinho a mais, queria comprar o LP do filme… Queres ir junto? A não ser que estejas ocupada!

Tudo bem, ainda tenho meia hora antes do meu pai vir me buscar – diz a mãe olhando para o reginho de pulso.

Meia Hora? Perfeito! Os Beatles salvaram o show em meia hora, não?

Ele fica vermelho com a frase idiota que deixara escapar por entre os lábios. A mãe fica mais vermelha ainda. Sim, meus pais são um casal de babacas românticos da geração IêIêIê.

A partir daqui, o roteiro é meu. Esperem só até eu nascer. Dêem licença e parem de se meter, por favor. Sim, fiquem tranquilos: colocarei Ringo Starr no elenco, de alguma forma.

(o trecho de A Hard Day’s Night descrito inicia no minuto 3:42 deste vídeo)

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Esta edição da Postagem Temática foi sobre “meia-hora”. Aham, fugi do tema, desculpem-me. Minha sugestão para a próxima é “camisetas”. E aguardem o post especial de aniversário dos Sintonizados!

Exatamente no momento em que a última gota de chuva desmaiada na calçada evaporou, eu entendi o trajeto que os sonhos percorrem antes de chegarem no plano do palpável. E eis que depois de 5 meses, 17 dias e 12 horas de cálculos e experimentos, descobri a melhor forma de pedir o meu amor em casamento. Foram as moléculas de H2O que me explicaram.

Pense comigo, amigo: essas moléculas de água chovem. Elas se suicidam pelo chão, escorrem nas vidraças e fazem chorar os modelos dos outdoors. Depois, quando a raiva do céu para, elas se afastam, desaparecendo das nossas vistas. As gotas que fazem a calçada mudar de cor evaporam e reintegram-se em alguma nuvem aleatória, na respiração do vizinho que leva o cachorro para passear ou no orvalho das folhagens da Maria.

A Maria… Mal posso esperar para testar meu experimento com ela. Dessa vez dará resultados exatos. Assim como um simples experimento de observação de evaporação.  Não, não tão simples, afinal, não falo de moléculas, mas sim de sonhos: eles vão se desintegrar para mudar de estado físico. Vão encontrar os sonhos de outra pessoa para se reintegrarem e choverem. Os meus sonhos e os da Maria. Sim, choveremos juntos.

Tá, da última vez que tentei realizar essa transformação dos sonhos, frustrei-me. Foi com um poema. Quando terminei de ler ela virou pra mim com aqueles olhos de quem se esforça para captar qualquer sentido de uma língua estrangeira. Não deu certo, ela não disse sim, nem disse nada. Mas pelo menos não foi tão desastroso quanto a primeira tentativa, aquela dos exatos 5 meses, 17 dias e 12 horas atrás. Quando lhe disse que suas curvas me atraíam mais que a força da gravidade, ela me jogou a bacia de água que tinha entre as mãos. Fiquei doente, e nada do “sim”.

Mas coloco agora meu projeto em prática. Convido-te a me acompanhar, amigo! Estou subindo as escadas do sobradinho da Maria, passando pelas folhagens que ela nem precisou regar por causa da chuva. Não há lençóis dançando dessa vez na varanda. Bato três vezes à porta para que o ruído propague-se pelo ar até fazer vibrar o aparelho auditivo da minha amada. Ela está acordando, posso escutar. Ela está vindo, abrirá a porta! Seus sonhos evaporarão e se encontrarão com as moléculas dos meus sonhos, agora que tenho a fórmula de entendimento! Agora que desintegrei essas minhas moléculas para fazê-las adquirirem uma fórmula mais compatível à formula das moléculas dos sonhos da Maria. Já vejo os olhinhos recém acordados dela pela fresta e…

– Maria, te amo mais que as água do céu amam tuas foiagem. Bora casá com eu agora que nós fala a mesma língua?

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O tema desta edição da Postagem Temática é casamento. Minha sugestão para a próxima é futebol.

Nem 30 contos: foi o preço do sapato. Notou que estava meio apertado, mas pensou em se acostumar – como se fosse a dor do último romance, que de tanto criar calos, ela nem sentia mais. Chegou no topo da escada, passou pela porta colorida, acostumou o olhar às luzes, dirigiu-se ao bar. Pediu qualquer bebida que lhe fizesse companhia até algum moço colocar suas próprias cores no ambiente. Mas os sapatos esmagando os dedos… As unhas empilhando-se nas pontas. Não teve paciência de esperar o hipotético moço para dançar até as 4 horas, como havia (a si mesma) prometido.

Não fosse o sapato apertado… Teria beijado um moço. Teriam sido feitos um para o outro. Teriam se casado. Teriam brigado para depois deixarem-se em paz.

Mas a promoção de fechamento da loja… Nem 30 contos!

Da próxima vez, um evento em que todos estiverem sentados poderá ser uma boa ocasião para o planejado desencalhe.

Não é que eu queira te odiar, pequena! Sei que me amas de verdade, se não não terias investido tanto do teu tempo em mimos e risinhos por detrás da minha nuca. Mas o que é que eu posso fazer se não tenho amor cá dentro para te dar em troca? Eu não o tenho – mesmo que não acredites. É caso sério! Patologia. Podes dizer que estou cuspindo no prato em que comi, mas me sinto aliviado em dizer: não te gosto. E, sim, te odeio – mesmo sem querer te odiar. É por isso que vou embora sorrindo, agradecendo a Deus por não estar na pele do próximo que se enrolará por entre as tuas colchas.

Vou esquecer-te sem remorso, junto com o punhado de tardes de risadas (tuas). Como aquela em que costurastes um coração vermelho na minha lapela! Lembras? Cuidaste para que a linha azul não destoasse do tom do meu paletó. Vi que sorrias passando a agulha de um lado para outro do tecido encardido, mas teu sorriso não me fez nem mesmo cócegas. Pelo contrário, desejei que aquela agulha transpassasse a epiderme do teu dedo e te fizesse chorar, para desistir do passatempo bobo e do coração vermelho-falso (falso por estar em mim).

E quando me colocastes à mesa bem arrumada com a toalha xadrez que a tua mãe fez com sobras de tecido, não tive vontade de me servir do copo de plástico rosa cheio do suco que separastes do teu próprio almoço. Pequena! Não vias que não sou homem de beber suco, ainda mais em copos rosas? Não me arrependo de não ter engolido uma gota sequer quando aproximastes o líquido da minha boca, e não me arrependo de ter sujado o cenário que montastes para nossa janta, por não engolir o suco.

Jesus! E o dia em que me apresentaste o teu cão… Como te odiei. Teus dedos eram como lâminas nas minhas costas, encorajando-me a fazer amizade com aquele ser bruto que escorria baba pelos cantos da boca, pingando em mim, tentando arrancar o meu braço. Quis que fosses do meu tamanho, para ver se não sentirias o mesmo medo e o mesmo nojo que eu senti. Medo e nojo do cão. Medo e nojo de ti.

Não estou de todo triste ao ver a minha perna estatelada entre as babas do cachorro pelo chão. Uma parte ele ainda está a mastigar com gosto, enquanto ajudas a tua mãe na cozinha. Te falo a verdade: sorrio neste momento. Penso na tua reação quando chegares no quarto e me vires todo rasgado, por culpa do teu descuido. Culpa, sim! Sentirás culpa – talvez pela primeira vez. Verás minhas tripas de algodão espalhadas, pálidas, e levarás as tuas mãos à boca, com o rosto molhado em lágrimas. Até alegro-me ao identificar no olhar do teu maldito cão a intenção de terminar de me estatelar por inteiro.

Como eu já disse, não é que eu queira te odiar, pequena! Não é questão de escolha. Não te gosto e pronto. Guarde a minha carta como epitáfio e, por favor, não me recostures. Procure outro infeliz na sessão de promoções da loja de brinquedos, e mantenha-o perto do cão para que o seu sofrimento dure o mínimo possível. Ou então costures um coração do lado de dentro dele, e não só numa lapela. Um coração vermelho-vivo digno. Mais digno do que o meu.

Adeus (sem mágoas apesar do ódio),

Mário Marionete

– Maldito nome com que me batisaste!

Guri, vem cá.  Te desenhei, olha!  Gostaste? Não, não te afastes, não te assustes, eu te explico. Toma um trocado, chega aqui mais perto. É que às vezes eu roubo as faces das pessoas da rua só pra rabiscar. Foi por causa dos teus olhos, quis registrá-los no meu bloco de notas. Meu Deus, são iguais àqueles olhos… Os do meu irmão Pedro. Ele fugiu de casa há anos. Eu ia fugir com ele, mas no fim das contas fiquei com medo. Ele também tinha um gato, bem mais bem cuidado do que este teu. O gato morreu velho, cansou de esperar o Pedro voltar. Nossa, faz tempo! Mas não esqueci dos olhos. Eram escuros, assim, meio nublados. Meio sonsos, às vezes… Espera, guri! Não quis te ofender. Toma mais um trocado. Acho que tu nem eras nascido quando perdemos o meu irmão de vista. Desculpe-me por te falar essas coisas, és novo de mais, ainda não sabes da vida. Também fugiste de casa, não é mesmo? Só tem esse olhar indefeso, mas bem adulto, quem alguma vez já fugiu de casa. Tá com fome? Cadê a tua mãe? A minha não deixa de rezar pela volta dele um dia sequer. Tão escuros, esses olhos… Meu Deus! Pedro, por onde andaste?

Existem milhas e milhas de distância entre o silêncio e a ausência de ruído. E essa ausência de ruído corta meus tímpanos, passa a sua lâmina pelo lado de dentro do cérebro, escorre viscosa junto com o sangue para o fundo do que um crente chamaria de alma.

O silêncio, não. O silêncio adormece os meus medos, acaricia os meus ouvidos, faz-me abrir o livro numa página branca que não precisa necessariamente ser preenchida. Essa página é completa pela sua pureza, pela sua plenitude de possibilidades.

Madalena conseguia ficar em silêncio por longas horas, enquanto eu me limitava a mergulhar na minha ausência de ruído. Ela dizia todas as coisas através de um sorriso não escancarado. Volta e meia desenhava-se no seu rosto pálido um rascunho do que eu defini como a imagem mais aproximada da paz.

Quando ela sorria daquele jeito, o meu mundo esvaziava-se de barulho e enchia-se de cores, de belas imagens. Enchia-se do silêncio dela, que eu sempre tentei alcançar por mim mesmo. Esforço frustrado. O meu silêncio estava em Madalena e na ideia de nem mesmo precisar ouvir a sua voz.

Ela pintava as minhas páginas brancas…

Entre gritos e buzinas, tento reconstruir aquele rosto meigo, mas vejo que trilhei o caminho errado. Madalena calou até mesmo o próprio silêncio, junto com o meu, e foi embora. Transformou-o em ausência. De ruídos. Vazio.

Afundei-me.

Agora tento remendar os cortes e remendar a Madalena. Mas o silêncio, não. Esse silêncio não vou conseguir remendar.

“Madalena, não peço que grites, mas só me sussurre… Por onde andas? Em que rua barulhenta te escondeste, minha paz?”

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O tema desta Postagem Temática foi Silêncio. Minha sugestão para a próxima é Leitura.

O sal das ondas fazia festas nas peles pálidas dos três meninos à beira da praia. Gritos altos e risos. Água gelada mudando os relevos da areia em volta dos corpos magros quase enterrados. Queriam engolir o mar. O menor engasgou por ter aberto demais a boca de felicidade, mas nem o pequeno pássaro verde refletido na poça de um ensaio de castelo de areia pareceu importar-se. A breve corrida pela orla contra o vento cortando os corpos molhados causou uma dor de frio até os ossos. Mais gritos. O traçado das tatuíras debaixo dos pés e por entre os dedos formava um belo quadro com o sol pincelando de azul a parte da areia que o mar acariciava. Lá ao longe, a torre de pingos desmanchava-se lentamente, condenando ao esquecimento certa experiência arquitetônica matinal. Os meninos não eram bons arquitetos – pelo menos não em grandes projetos como castelos. Em termos de mausoléus, sim. O dos olhos cor de mel já tinha apenas a cabeça para fora da areia lá pelas quatro e meia, quando desdobrou-se no horizonte um belo sol de fim de tarde. Pequenas tumbas cambiantes para aqueles que recém nasciam para mais uma brincadeira. Vida. A última onda gelada por cima das peles murchas dos breves e barulhentos donos da praia.

Chicos en la Playa de Joaquín Sorolla y Bastida

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