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Era ela dentre todas as coisas bonitas que jamais vi. Sorriso discreto, refinado quase que por esforço – apesar da infantilidade escancarada na gotinha de travessura colada por detrás da pupila. Maldosa de leve. Peste de mansinho. Portava na cabeça raios louros do sol no meio da dança fria de guarda-chuvas e vestidos cor de chumbo. Sim, sim, já dizia Renoir: pour moi un tableau doit être une chose aimable, joyese et jolie, oui jolie! Tão agradável, alegre, bonito. Um quadro deve ser, para mim. Eu não diria só do quadro, mas também da própria vida. E ela era a minha vida, a menina: agradável alegre bonita. Tanto.

 

"Os guarda-chuvas" de Pierre Auguste Renoir (1881-1885)

Pena que a menina não existia.

Como a vida deve ser.

Lucian Freud – O Interior

A mão calejada – mas ainda feminina – da garota sem nome estava pousada sobre a perna do irmão travestido. A mão que eu orientara até aquela perna tensa. Tensa pela falta de familiaridade com as vestimentas por mim indicadas.

O bandolim não tocava nem ao menos uma corda, e a posição da nota era ensaiada para soar apenas dentro dos meus ouvidos. O menino sabia tocar tanto quanto sabia usar o vestido: absolutamente não sabia.

Disse-lhes: não me olhar! Guardaria o mínimo de dignidade daquelas pessoas dentro de suas vistas particulares, voltadas para qualquer canto do meu ateliê, menos para os meus futuros espectadores.

Modelos contratados sem nome. Mas estava escancarado que eram uma família.

O garoto jogado no chão quase me fitava. Acho que sentia uma dor acumulada na nuca, ou qualquer desconforto cuja culpa eu jogava na madeira úmida do piso. O leque da outra mulher estava suspenso no espaço pela ausência espiritual da sua mão.

As dobras do pijama amarelo do rapaz mais velho serviam perfeitamente ao seu corpo exageradamente alto e à minha paleta de tintas. Elas não se alteraram ao longo das longas horas. Abri a torneira da pia do canto do cenário. A água correndo e ninguém com a intenção de estancá-la.

Mergulharam. Transcenderam. Eles não estavam mais ali. Estariam onde?

Penso que no interior de qualquer lugar deste universo – menos no interior do meu quadro.

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Este post foi uma humilde homenagem ao artista Lucian Freud, através de uma interpretação pessoal do quadro “O Interior”.

O sal das ondas fazia festas nas peles pálidas dos três meninos à beira da praia. Gritos altos e risos. Água gelada mudando os relevos da areia em volta dos corpos magros quase enterrados. Queriam engolir o mar. O menor engasgou por ter aberto demais a boca de felicidade, mas nem o pequeno pássaro verde refletido na poça de um ensaio de castelo de areia pareceu importar-se. A breve corrida pela orla contra o vento cortando os corpos molhados causou uma dor de frio até os ossos. Mais gritos. O traçado das tatuíras debaixo dos pés e por entre os dedos formava um belo quadro com o sol pincelando de azul a parte da areia que o mar acariciava. Lá ao longe, a torre de pingos desmanchava-se lentamente, condenando ao esquecimento certa experiência arquitetônica matinal. Os meninos não eram bons arquitetos – pelo menos não em grandes projetos como castelos. Em termos de mausoléus, sim. O dos olhos cor de mel já tinha apenas a cabeça para fora da areia lá pelas quatro e meia, quando desdobrou-se no horizonte um belo sol de fim de tarde. Pequenas tumbas cambiantes para aqueles que recém nasciam para mais uma brincadeira. Vida. A última onda gelada por cima das peles murchas dos breves e barulhentos donos da praia.

Chicos en la Playa de Joaquín Sorolla y Bastida

E lá ia a fome escorregar brincalhona pelas paredes do seu estômago. Ele já não se importava mais com ela. Já não lhe dizia “a tua brincadeira não tem nenhuma graça”. Não, até porque, se o dissesse, seria mentira. Depois de dias sem colocar nada na boca, a sensação do oco era quase agradável.

A fome lhe fazia cócegas, e ele nem ligava.

Querido, outra vez não vens jantar?

O tom de súplica da voz da mulher não lhe comoveu. Jantar? Não mesmo! Só daria a alguma comida a honra de entrar no seu estômago de artista se essa comida fosse por ele confeccionada. Nenhuma outra serviria. Só deixaria escorregar pelas suas papilas o gosto das suas pêras, das suas maçãs, dos seus pedaços de melancia. Tudo isso só seria feito sobre a sua mesa, coberta com a bela toalha de algodão azul por ele adornada com detalhes amarelos em pequenos laços de fita.

O vermelho das maçãs estava quase perfeito. Só mais algumas pinceladas de amarelo para chegar ao brilho certo em relação à luz da janela imaginada à direita da mesa, um pouco acima do ponto de fuga. Eram maçãs dignas da corte real, certeza! Completamente em harmonia com o azul da toalha, até na parte que se enrugara um pouco abaixo do cesto de palha.

Alguns retoques a mais e a sua refeição estaria pronta. Começou a salivar.

Mas ainda faltava algo no trançado da palha do cesto… Não sabia ao certo. Intuiu que acrescentando um pouco de branco à parte da cena que a luz lambia chegaria ao palpável, às três dimensões, ao comestível.

Empenhou-se alí por mais três horas. Não ouviu os apelos da esposa que há dias o chamava.

Não vens? Tudo bem! Coma essa maldita tela e não reclame se ela tiver gosto podre, de tão madura!

Ela bateu a porta com toda a sua força, mas ele não escutara.

Uma vertigem, uma dor na nuca.

Só mais um pouco daquela mistura entre o lilás 4,5 e o marrom que a indústria de tinta a óleo ainda não havia inventado. Estava quase lá.

Aquele quase… Aquele quase que por mais uma noite não o deixaria dormir.

Fechou os olhos por alguns segundos, e quando os reabriu, viu a sua tela um pouco turva. A fome começava a lhe pregar peças de mau gosto. As suas frutas estavam em leve desfoque. Fechou mais uma vez os olhos, prendeu a respiração. Aproximou os dedos multicoloridos à tela, especificamente à maçã que estava metade à sombra.

O toque.

Conseguira. Sentiu a textura da casca da sua maçã na palma da mão. Abriu lentamente a boca em um sorriso que antecipava o gosto de fruta fresca. “Quem ri por último ri melhor”, pensou quando a fome transpassou-lhe o estômago, rindo-lhe da cara.

Os joelhos se dobraram. O pintor escorregou pelo chão do ateliê com a bela maçã entre os dedos. Não quis abrir os olhos.

Sua natureza já não era mais morta. E ele, satisfeito, já poderia morrer em paz.

guignard. noite de sao joao.

Noite de São João, noite de São João

Para além do muro do meu quintal

Do lado de cá, eu sem noite de São João

Porque é São João? Onde o festejam?

Para mim há uma sombra de luz… de fogueiras na noite

Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos

E um grito casual de quem não sabe que eu existo.

Vitor Ramil

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