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“Eu quero a sorte de um amor tranquilo” – com o cigarro apoiado entre os lábios, a articulação tosca das suas palavras dava à mensagem uma certa carga de absurdo. O seu tom displicente não me deixava crer na veracidade da afirmação.  Não estava segurando o cigarro entre os dedos indicador e médio com a maestria e a elegância costumeiras porque tinha as duas mãos ocupadas: amarrava as minhas pelas costas da cadeira velha que compráramos em um brique qualquer um pouco antes do nosso casamento. “Mas se eu aprendi uma coisa depois de 4 maridos, meu bem” – tirou o cigarro da boca antes de terminar a linha de raciocínio, não sem antes soltar uma lenta nuvem de fumaça no ar do sótão – “é que tranquilidade mesmo, a gente só tem a sete palmos, debaixo de Deus”. Eu não podia responder, com o esparadrapo colando toda a minha boca, mas se pudesse, responderia com um sincero “o que foi que eu te fiz?” Ela sorriu de um jeito quase doce – quase, porque doçura não é o que se pode esperar de uma mulher que acaricia um revólver enquanto fala. Deve ter lido a pergunta dentro do meu pensamento. “Com você até que foi bem tranquilo, amor. Mas não o suficiente”. Ela esfregou na minha cara uma pequena foto: eu e a minha colega de trabalho em um abraço. Acaso, obviamente. Não consegui segurar o desespero de esclarecer o equívoco, mas minha explicação não atravessou aquele esparadrapo maldito. “Vocês 4 deveriam me agradecer. Dou-lhes a tranquilidade do não existir… Quer maior amor que isso?” Engatilhando o revólver, ela disse baixinho no meu ouvido, pra nem as aranhas do sótão escutarem… “Mas vocês só me dão azar, amor. Azar…” Senti o cano frio do revólver no meu pescoço, em contraste com a pele quente do rosto dela no meu. O cheiro de cigarro ainda estava naquela boca. “Um amor tranquilo, babe. É pedir demais?”

Ela foi passando o revólver acima na minha face até beijar a minha testa (com beijo de fumaça).

Esta edição da Postagem Temática foi especial “sugestão de frase”. Cada blog sugeriu uma frase para iniciar o texto de outro. A sugestão para o meu post foi da Andi.

Coloco em votação para o próximo tema: quedas.

O tema desta edição da Postagem Temática foi Do que eu não quero saber.

“Meia hora, e estaremos no ar!” – brada o produtor do programa de tv com o blusão de felpas.

“Posso dizer algo? É improvável que a gente entre, pela lei da probabilidade. Se trouxesse uma malabarista, ganharia tempo”.

O interlocutor do produtor é ninguém menos do que o beatle George Harrison. Ele rabisca bigodinhos no rosto do homem que aparece em um dos monitores do estúdio enquanto fala, com aquele conhecido ar de desinteresse e o cabelo sobre as sobrancelhas.

Ao mesmo tempo, a minha mãe sorri com o canto dos lábios. Ela ajeita delicadamente a saia por debaixo das coxas e olha discreta para a fileira de trás do cinema, onde está o ainda desconhecido meu pai. Ele não olha para ela. Segue vidrado na história maluca dos Reis do IêIêIê (como haviam magistralmente traduzido o título do filme para o português).

O motivo do estresse dentro da tela está na Delegacia de Polícia. É Ringo Starr que num acesso de revolta foge da responsabilidade da apresentação. Deixa assim a banda de rock mais aclamada de todos os tempos sem um baterista, e sai por aí cometendo algumas infrações.

Ao umedecer os lábios, a minha mãe nota que esqueceu de passar o batom vermelho. Droga! Sem o batom vermelho o conjunto do seu charme é tão desfalcado quanto os Beatles sem baterista. Mas tudo bem, é realmente a noite de um dia difícil, sem tempo para fazer maquiagem. Pensa em um jeito de seduzir de outra maneira.

Na sequência, os garotos de Liverpool correm pelas ruas para resgatar Ringo Starr ao som de Can’t Buy My Love. Can’t she buy? Oh, baby! She can! A mãe decide comprar uma pipoca e errar a fileira na volta da bomboniere, mesmo que sem o necessário batom.

Resgatado o Ringo, os Beatles dirigem-se de volta ao estúdio de televisão. Os trinta minutos anunciados pelo produtor haviam passado rápido demais! E o pai nem mesmo nota o leve toque no seu braço – obviamente sem querer – da garota que sentara na poltrona ao lado com o balde de pipoca, tamanho o fascínio com o enredo passando na tela.

Tell me why. É a música que atravessa a sala de cinema. Por que? Por que o pai não olha pra mãe? If I fell. Essa é romântica. E a mãe joga de leve os cabelos perfumados no ombro dele, mas sem resultados. I Should Have know you better. Ela espera sinceramente que ele lhe diga isso depois de sentir a textura dos seus cabelos. She loves you, yeah, yeah, yeah! As mocinhas gritando no filme. A minha mãe gritando na platéia, sem nem precisar falar. Os créditos finais com A Hard Days Night, e as luzes acendem-se. The End.

Meu pai desperta o êxtase beatlemaníaco e tropeça nas pernas da moça da poltrona ao lado.

-Hey, garota! Você não estava aqui no começo do filme, estava?

Ela só balança a cabeça em sinal afirmativo e desabrocha o sorriso sem batom. Passando a mão por detrás da nuca e desviando os olhos daquele brilho todo, o pai titubeia no convite à arrebatadora desconhecida…

– Quem sabe se… Não sei. Pensei em ir na loja de discos. O meu velho deu um  dinheirinho a mais, queria comprar o LP do filme… Queres ir junto? A não ser que estejas ocupada!

Tudo bem, ainda tenho meia hora antes do meu pai vir me buscar – diz a mãe olhando para o reginho de pulso.

Meia Hora? Perfeito! Os Beatles salvaram o show em meia hora, não?

Ele fica vermelho com a frase idiota que deixara escapar por entre os lábios. A mãe fica mais vermelha ainda. Sim, meus pais são um casal de babacas românticos da geração IêIêIê.

A partir daqui, o roteiro é meu. Esperem só até eu nascer. Dêem licença e parem de se meter, por favor. Sim, fiquem tranquilos: colocarei Ringo Starr no elenco, de alguma forma.

(o trecho de A Hard Day’s Night descrito inicia no minuto 3:42 deste vídeo)

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Esta edição da Postagem Temática foi sobre “meia-hora”. Aham, fugi do tema, desculpem-me. Minha sugestão para a próxima é “camisetas”. E aguardem o post especial de aniversário dos Sintonizados!

Exatamente no momento em que a última gota de chuva desmaiada na calçada evaporou, eu entendi o trajeto que os sonhos percorrem antes de chegarem no plano do palpável. E eis que depois de 5 meses, 17 dias e 12 horas de cálculos e experimentos, descobri a melhor forma de pedir o meu amor em casamento. Foram as moléculas de H2O que me explicaram.

Pense comigo, amigo: essas moléculas de água chovem. Elas se suicidam pelo chão, escorrem nas vidraças e fazem chorar os modelos dos outdoors. Depois, quando a raiva do céu para, elas se afastam, desaparecendo das nossas vistas. As gotas que fazem a calçada mudar de cor evaporam e reintegram-se em alguma nuvem aleatória, na respiração do vizinho que leva o cachorro para passear ou no orvalho das folhagens da Maria.

A Maria… Mal posso esperar para testar meu experimento com ela. Dessa vez dará resultados exatos. Assim como um simples experimento de observação de evaporação.  Não, não tão simples, afinal, não falo de moléculas, mas sim de sonhos: eles vão se desintegrar para mudar de estado físico. Vão encontrar os sonhos de outra pessoa para se reintegrarem e choverem. Os meus sonhos e os da Maria. Sim, choveremos juntos.

Tá, da última vez que tentei realizar essa transformação dos sonhos, frustrei-me. Foi com um poema. Quando terminei de ler ela virou pra mim com aqueles olhos de quem se esforça para captar qualquer sentido de uma língua estrangeira. Não deu certo, ela não disse sim, nem disse nada. Mas pelo menos não foi tão desastroso quanto a primeira tentativa, aquela dos exatos 5 meses, 17 dias e 12 horas atrás. Quando lhe disse que suas curvas me atraíam mais que a força da gravidade, ela me jogou a bacia de água que tinha entre as mãos. Fiquei doente, e nada do “sim”.

Mas coloco agora meu projeto em prática. Convido-te a me acompanhar, amigo! Estou subindo as escadas do sobradinho da Maria, passando pelas folhagens que ela nem precisou regar por causa da chuva. Não há lençóis dançando dessa vez na varanda. Bato três vezes à porta para que o ruído propague-se pelo ar até fazer vibrar o aparelho auditivo da minha amada. Ela está acordando, posso escutar. Ela está vindo, abrirá a porta! Seus sonhos evaporarão e se encontrarão com as moléculas dos meus sonhos, agora que tenho a fórmula de entendimento! Agora que desintegrei essas minhas moléculas para fazê-las adquirirem uma fórmula mais compatível à formula das moléculas dos sonhos da Maria. Já vejo os olhinhos recém acordados dela pela fresta e…

– Maria, te amo mais que as água do céu amam tuas foiagem. Bora casá com eu agora que nós fala a mesma língua?

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O tema desta edição da Postagem Temática é casamento. Minha sugestão para a próxima é futebol.

Dentre as lembranças literárias que tenho da minha adolescência, uma das mais fortes tem a ver com a caminhada noturna de um moço pelas ruas de Paris. Lembro bem da brisa gélida que senti no pescoço quando o moço olhou para o rio Sena congelado. Ele lamentou-se por nem mesmo o rio ser caridoso o suficiente para deixá-lo afogar-se. Sim, senti frio naquele momento da leitura, mesmo estando enrolada em um cobertor ao lado do fogão à lenha da cozinha da minha casa.

Falo de Paris no Século XX, obra de Júlio Verne que não estava na minha lista de leituras mais urgentes da época. Eu queria ler O Raio Verde ou O Senhor do Mundo, mas como o limitado acervo da biblioteca da minha escola não permitiu, peguei o livro de capa esquisita, cuja orelha informava a publicação apenas de 1994. Verne não publicou esse livro em vida, pois seu editor convenceu-o de que apresentava uma visão muito diferente da que ele vinha consolidando com o público.

O personagem principal é Michel, jovem poeta obrigado a adaptar-se a uma sociedade toda configurada pelo uso das máquinas e pela importância do dinheiro, nos anos 1960. Cabe dizer que a obra está datada em 1863, ou seja, Verne imaginou a sua própria sociedade dali a cem anos. A graça é que, salvo algumas invenções esdrúxulas próprias da obra do Verne, o livro desenha uma sociedade muito parecida com a que viria a existir no período em questão.

Li muito rápido, correndo contra o vento cortante da noite parisiense em alguns momentos. Senti também o fiozinho de sol que passava apenas uma vez por ano pela janela de um dos personagens, proporcionando a ele um breve minuto de deleite – a pouca frequência era devida à construção desenfreada de prédios, outra semelhança com a realidade que se seguiu aos escritos. A Paris retratada é uma Paris de tal maneira fria que chega a rachar os lábios. Mas não apenas pela temperatura: também pela ganância e pela falta de poesia.

Penso que Paris no Século XX seja uma pista para uma necessária relativização do pensamento de Júlio Verne, pois evidencia os receios que ele tinha com a frieza que o desenvolvimento da tecnologia poderia gerar. É normal que, depois de um tempo, comecemos a perceber algumas ideias que estão por trás dos seus celebrados romances, e a repensá-lo como autor. Um defensor ferrenho da tecnologia? Um homem branco que descreve outras etnias sem nem mesmo conhecê-las? Um consolidador do pensamento burguês? Aí vem o Barthes e fala em um de seus textos de “Mitologias” que o Nautillus de As Vinte Mil Léguas Submarinas é a própria representação da dominação do ser humano sobre o mundo. Paris no século XX dá um possível contraponto a essa linha de raciocínio, num perâmbulo do autor pelos rumos de sua própria sociedade.

Li esse livro há muitos anos atrás, e peço desculpas por escrever algo sobre ele sem nem mesmo tê-lo em mãos para relembrar qualquer coisa. Então, faço um convite: que tal um encontro com essa Paris fria imaginada pela mente verniana? Que tal um encontro com o ser humano mais frio ainda? Eu pretendo realizar esse (re)encontro nos próximos dias. Coloquemos a toca e as luvas e andemos à livraria mais próxima. Bon Voyage!

Gustave Caillebotte - Telhados na Neve

A imagem não tem nada a ver, mas eu gosto. E o blog é meu, e tal. =D

Esta edição da Postagem Temática foi sobre Frio. Minha sugestão para a próxima é Riso.

As palavras são amontoados de letras. As letras são uns rabiscos de sons. Os sons, por sua vez, são vibrações produzidas pelas cordas vocais. Partes do corpo, simples assim. Como os dedos! Você já se imaginou sem os seus dedos?

O velho de turbante já deveria estar me olhando enquanto eu matutava sobre o assunto. Como um gato perdido entre novelos de lã, enrolava-me entre as linhas coloridas do mapa parisiense afixado na parede da estação de metrô. Era como se meus dedos tivessem sido amputados para puxar a ponta do novelo de ruas em que me metera a partir do momento em que pisara em solo francês só sabendo falar oui.

Alguém para puxar a ponta do novelo… Onde? As linhas do mapa misturavam-se, manchavam-se, cortavam-se…

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E de repente passara-se uma hora de caminhada pela cidade sem encontrar o endereço do hotel. Mochila pesando nas costas, neve acumulando no chapéu e nos ossos. Frio. Ninguém sabia dizer onde ficava o maldito Boulevard Jules Ferry. Encrenca pronunciada com biquinho – biquinho que eu nunca soubera fazer, e ainda não havia aprendido ao chegar mais uma vez na frente do mapa da estação. O emaranhado de palavras sem sentido à minha volta orquestravam uma confusa trilha sonora…

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Não consegui decodificar de pronto os sons pronunciados pelo velho de turbante às minhas costas, mas eu sabia que não se tratava de francês. Era uma pronúncia que despertava cheiro de deserto, tons de amarelo queimado. A pele escura desenhada em rugas talvez fosse similar ao próprio relevo daquele que deveria ser o seu país de origem. Oriente, com certeza.

Como por intuição, eu disse: Boulevard Jules Ferry! J-U-L-E-S F-E-R-R-Y. O velho abaixou a cabeça. Senti uma pontada de dor nas costas só de imaginar que ele seria mais um entre tantos que não saberiam me indicar nem ao menos uma direção. Até que…

République.

A breve palavra surgiu por entre os lábios envelhecidos. Ele apontou no mapa uma outra estação de metrô com este nome, traçando a partir dalí uma linha até o ponto chamado “Bastille”, onde nos encontrávamos. Parecia o desenho do fim do novelo – o desenho de um sorriso nos meus lábios. Depois, os dedos começaram a traçar loucas curvas através de travessas já sem nome.

Ele fez sinal para que o seguisse. Receosa, fui. Sem entender uma vírgula, mas fui.

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Agradecer-lhe? Sorri. Não existiam palavras – literalmente – para o momento em que ele me deixou exatamente no fim do novelo. Já disse, era como se minhas cordas vocais tivessem sido amputadas naquele país. Tudo o que eu poderia fazer era sorrir, sorrir, sorrir, e abanar-lhe, quando se afastou.

“Que ideia ridícula”, pensei, quando certa palavra surgiu brincalhona na minha mente. “Ele nunca entenderia. Nunca…”. Mas, também… O que eu tinha a perder?

Obrigada, amigo! – gritei quando o velho já quase chegava na esquina.

Ele virou-se, juntou as palmas das mãos e abaixou a cabeça em uma espécie de reverência. Sim, convencera-me de que eu escolhera o agradecimento apropriado – na língua que era a minha. Obrigada, repeti baixinho… E eis que aquele amontoado de letras, rabiscos de sons, vibrações das cordas vocais, de repente me pareceu algo bonito – bem  mais bonito do que dedos! Para além do material. Ainda que não passasse de uma…

Palavra.

Fora de contexto

– mas compreendida.

Oui. Simples assim.

……….

O tema desta edição da Postagem Temática foi Palavras.

Sugestão: cicatrizes.

Existem milhas e milhas de distância entre o silêncio e a ausência de ruído. E essa ausência de ruído corta meus tímpanos, passa a sua lâmina pelo lado de dentro do cérebro, escorre viscosa junto com o sangue para o fundo do que um crente chamaria de alma.

O silêncio, não. O silêncio adormece os meus medos, acaricia os meus ouvidos, faz-me abrir o livro numa página branca que não precisa necessariamente ser preenchida. Essa página é completa pela sua pureza, pela sua plenitude de possibilidades.

Madalena conseguia ficar em silêncio por longas horas, enquanto eu me limitava a mergulhar na minha ausência de ruído. Ela dizia todas as coisas através de um sorriso não escancarado. Volta e meia desenhava-se no seu rosto pálido um rascunho do que eu defini como a imagem mais aproximada da paz.

Quando ela sorria daquele jeito, o meu mundo esvaziava-se de barulho e enchia-se de cores, de belas imagens. Enchia-se do silêncio dela, que eu sempre tentei alcançar por mim mesmo. Esforço frustrado. O meu silêncio estava em Madalena e na ideia de nem mesmo precisar ouvir a sua voz.

Ela pintava as minhas páginas brancas…

Entre gritos e buzinas, tento reconstruir aquele rosto meigo, mas vejo que trilhei o caminho errado. Madalena calou até mesmo o próprio silêncio, junto com o meu, e foi embora. Transformou-o em ausência. De ruídos. Vazio.

Afundei-me.

Agora tento remendar os cortes e remendar a Madalena. Mas o silêncio, não. Esse silêncio não vou conseguir remendar.

“Madalena, não peço que grites, mas só me sussurre… Por onde andas? Em que rua barulhenta te escondeste, minha paz?”

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O tema desta Postagem Temática foi Silêncio. Minha sugestão para a próxima é Leitura.

E era eu a cem por hora na highway das minhas veias, procurando o meu próprio rosto entre os rostos dos andarilhos que pediam carona pela estrada. A placa depois da ponte dizia: “A gente nunca encontra a si mesmo”. Não confiei na sinalização. Acelerei mais um pouco e segui em frente, sem olhar pros atalhos, sem dar atenção aos andarilhos que me rogavam pragas.

Sobre a mesa lá de casa, apenas um bilhete: “Mãe, não chora, um dia eu volto, e trago comigo o pedaço de mim que eu ainda estou por encontrar em algum ponto já rasgado do nosso mapa”. Deixei o recado debaixo da xícara manchada de café, pensando que o meu desrespeito de nem mesmo lavar a louça evitasse algumas lágrimas por parte da velha.

Pé na estrada. O pedaço de mim que me faltava estaria ali no caminho, certeza! Era só olhar com atenção… Talvez em algum posto de gasolina, ou descansando sob a sombra de alguma árvore.

“As moléculas da estrada penetram na epiderme e mudam o nosso código genético” – disse-me uma vez um dos andarilhos. – “O pedaço que te falta é aquele que tu deixaste em casa, e que já é um outro tu”.

A highway conduzia-me pelas linhas de uma circunferência. Era o meu fluxo sanguíneo sempre voltando para o coração, subvertendo as setas rascunhadas no velho mapa.

E era eu a cem por hora procurando – sem nem saber – a xícara de café a ser lavada. Correndo sempre de volta.

De volta para casa.

Post feito aos trancos e barrancos para a Postagem Temática. Dêem um desconto, porque eu tô atrasada pra pegar o avião (pra voltar pra casa, hehe).

Desta vez o tema foi Retorno. Minha sugestão para o próximo é Silêncio.

Quiçá a tua sorte será a de não perceber o temporal.

Foi o que deu pra fazer pro Blogs Sintonizados com um toco de lápis e falta de idéias escritas.

O tema dessa edição da Postagem Temática foi Sorte. Minha sugestão para a próxima é Guerra.

2010

Nada, Júlia! Nada!

A frase ecoou pelo ambiente misturando-se aos reflexos nas vidraças da água da piscina. Júlia parou o treino e olhou em volta, tentando localizar a origem daquela voz masculina tão familiar. Ele não tinha morrido? Onde estava?

2004

Nada, Júlia. Não é nada…

Como assim, nada? A mão dele secando o suor da testa e o suspiro lento de quem carrega um camelo nas costas evidenciava mais do que o nada. Talvez o fim de um dia ruim e o início de uma noite pesada. Mas se ele não queria compartilhar o peso, tudo bem. Mais uma vez, ele ficava com tudo, e ela com…

2002

Nada, Júlia? Nada?

Nada, ora bolas! Não era nada que lhe quisesse contar. Nada que lhe dissesse respeito, afinal, já podia resolver seus próprios problemas. Se não contas os teus, não te conto os meus, tentava dizer só através do olhar adolescente. Fim de papo, boa noite. Trancou-se no quarto. Lágrimas.

1994

Naaaaaaaada, Júlia! Naaada!

Escutava de longe o grito e as braçadas dele na água barrenta, enquanto ela buscava o chão do fundo do lago. A vegetação grudando no rosto, o vestido volumoso puxando para baixo. Sensação de morte, sensação da chegada do

NADA!

A mão dele em volta da sua cintura, a água saindo pela boca. A textura da madeira do chão do barco, vida de novo. O beijo molhado na bochecha depois que ela abriu os olhos assustados de criança… Pai? Tô viva? O sorriso aliviado dele… Sim, filha. Não foi nada… Não foi nada…

2010

Nada, Júlia…. Não era nada.

A sua própria voz dentro da cabeça. Que ideia maluca, parecia mesmo que tinha ouvido a voz do pai morto! Devia ser o treino em demasia, percebeu nos dedos já murchos de tanto nadar. Não era nada de mais…

Mas por um instante resolveu parar. Júlia ousou desobedecer a ordem da sua cabeça e do pai de seu delírio. Deixou o corpo soltar-se no meio da água, no cheiro do cloro, no vazio do não querer lembrar. Boiou um pouco. Sentiu-se desfazer na piscina, na voz dele misturada com a própria voz.

Deixou-se submergir.

O braço dele não apareceu em volta da sua cintura, puxando-a para a superfície.

Sentiu aquele nada do não contado de noites de tanto para lhe contar, e também dele saber.

Dura verdade sentida. Sem ele, ela não era…

Nada, Júlia! Nada!

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O tema desta edição da Postagem Temática foi Nada. Minha sugestão para a próxima é Moda.

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