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Ela sempre pensou que deixaria de ser criança e viraria adulta no momento em que passasse a preferir torta de marta-rocha a nega maluca. Ou então quando gostasse mais de comer a casca do pão do que o seu miolo. O caráter gastronômico das suas reflexões não significa que ela tenha sido uma criança gordinha, ou que seja uma adulta obesa. De forma alguma. Para o fato de estes aspectos sempre terem lhe saltado às vistas, não há uma explicação lógica.

Só sabia que não compreendia o prazer de quando o pai levava o pedaço de torta branca até a boca, recusando um magnífico pedaço de torta preta, ou então o seu molhar de dedos com a saliva para recolher as casquinhas de pão francês que despencavam em seu mastigar sobre a toalha. Se as suas reflexões acerca da maturidade durante a infância estavam corretas, continua sendo uma perfeita pirralha, comendo nega maluca e miolo de pão.

Mas existe um ponto sobre o qual não refletiu naquela época, e que nesta noite a coloca sentada na cama: a maturidade na solidão. Admirava-lhe lá pelos 8 a desenvoltura com a qual o pai dormia no escuro, e inclusive apagava a luz do próprio quarto, enquanto a pequena não poderia imaginar desligar o abajour com a digna certeza da fileira de fantasmas que enxergaria ao lado da sua cama.

Amizade com eles: esse é o segredo do adultescer. Cresceu, sim, pois sua solidão já não é mais a mesma. Hoje já aperta as mãos dos fantasmas, e deseja bons sonhos a cada um que coloca os dedos frios sobre as suas pálpebras lá pelas 00:00. Tranquila. O único problema é que eles não lhe desejam bons sonhos. Na verdade, sopram gélidos por detrás da sua nuca.

Ela enterra a cabeça no lençol até a orelha. Os fantasmas não param de soprar a noite inteira, porém, ao mesmo tempo que causam o incômodo, não provocam medo algum. Adultesceu, ainda que comendo miolo de pão e nega maluca. Sim, sente-se só, mas só na própria coragem frente ao escuro. Dolorida.

Ou, talvez, pela diferença entre um pólo e outro das suas nem tão complexas classificações de maturação humana, ela esteja no meio do caminho. Eu sigo lhe sugerindo com segurança: que tal ligar o abajour, e passar o relógio de trás pra frente? Mas, de que adianta… Ela acredita que um dia terá a respiração quente de alguém por detrás de seu pescoço enquanto dorme, e um braço em volta do seu ventre. Pobrezinha. Dorme, come, sonha. Adolescente criatura.

Leve. Tão leve que o vento nem notou levar. Passou por entre as camisas de listras coloridas estendidas no varal e atravessou a cerca de arame. Chegou na calçada de pedra e desacordou até o fusca barulhento empurrá-la para mais uma dança no ar. Sentia-se livre, branca, pequena, invisível. Não carregava nada de sólido, nem de duro: apenas um amor amarelo recém-desperto pelos primeiros raios do dia. Deitou-se sobre a bola vermelha que ficara a noite inteira jogada no pátio até o garoto dedicar-se ao nobre ofício de brincar. Num chute, elevou-se ao céu petit-poá azul e branco, e desapareceu: virou mais uma bolinha de nuvem na abóboda celeste. Imperceptível a olho nu, na ausência terrestre. Via todos os prédios e casas lá de cima, sem por eles ser vista. Desintegrou-se.

Era só mais uma leva de átomos no universo, na mais completa sensação de felicidade.

Da infância, ela só lembra da textura da camisola da mãe acariciando as suas bochechas. Sentia a malha de algodão quando tinha a cabecinha repousada no seu peito durante as crises de asma. Ficou também soando no ouvido a melodia suave destas ocasiões: uma canção religiosa que a mãe afirmava ser a mesma que São Paulo cantara para se libertar milagrosamente da prisão romana. Mas naquelas horas, a música virava apenas uma espécie de mantra. Sabiam bem letra, mas as notas soltas no ar frio do quarto eram o suficiente para abafar a tosse da pequena adoentada. Não se recorda como conseguia, mas sempre adormecia. Sempre. Sem correntes, e milagrosamente sem tosse. Livre – não era como o apóstolo da história, o Paulo?

Eu incorporo no meu código genético cada molécula exalada na respiração da multidão. Perco-me através dos atalhos mal trilhados pelo fluxo sanguíneo das travessas e becos. Viezes e transviezes dessa cidade que não é a minha. Percebo os tumtums do coração que surgem lá da esquina num protesto banal. Tambores quentes em descompasso com o caminhar frio e indeciso de cidadãos não procurados pela polícia. Desvio e adentro-me em uma das veias capilares na galeria escura – tem lojas de bugigangas e cheiro de bife bem passado. Tal corte na epiderme de concreto da quadra finda na saída pela rua transversal. Esbarro no compro ouro, no compro cabelo, nos gritos de atendimento odontológico. Passeio por entre as células de um organismo vivo e vibrante,  acometido de uma grave doença imunológica – onde estão os anticorpos contra a fumaça do cigarro barato? Tropeço em desenhos de nanquim sem vida. Harmonizo, sozinha. É o meu passo se unindo ao descompasso daquele cardíaco tambor de manifestação.

Centro, meio da manhã. Pulsa.

O roçar do forro da saia nas pernas roliças de Eleonora lhe fazia cócegas. Depois de duas ou três taças rasas de vinho rosê, ela esqueceu o requinte e tirou os calcanhares do sapatinho azul celeste. Secou com as costas da mão o leve suor que lhe escorria por detrás da nuca, e olhou para o salão, cheio de jovens fantasmas. “Belos moços”, refletiu. Daria um jeito de se encostar em algum só para se refrescar. Uma dança, uma valsa. Música, orquestra! Os instrumentos soltos no ar começaram aquela clássica em sol maior. Chutando o sapatinho para a esquina do pé da mesa, ofereceu-se ao alto de olhos claros. Tentou guiar o braço dele à sua cintura, mas a mão serelepe perdeu-se no através. Imagine só… Atravessa-lo. Que ideia maluca! Mas foi em frente. Atravessou o belo moço e passou-lhe até as costas um carinho fugaz. Por entre as coxas, o forro da saia rodada e o riso. Pelo entorno, gélida alma de vento de serra. Soluço! Saúde. Um brinde. A sinfonia. E uma pesada mão quente balançando o seu ombro. Mas que nojo deste suor nas costas! Olhou para o lado e…

– Eleonora? Acorda! Dormindo no meio da festa… Que feio! Vai dançar com o filho do conde que é bom partido, vai!

Lucian Freud – O Interior

A mão calejada – mas ainda feminina – da garota sem nome estava pousada sobre a perna do irmão travestido. A mão que eu orientara até aquela perna tensa. Tensa pela falta de familiaridade com as vestimentas por mim indicadas.

O bandolim não tocava nem ao menos uma corda, e a posição da nota era ensaiada para soar apenas dentro dos meus ouvidos. O menino sabia tocar tanto quanto sabia usar o vestido: absolutamente não sabia.

Disse-lhes: não me olhar! Guardaria o mínimo de dignidade daquelas pessoas dentro de suas vistas particulares, voltadas para qualquer canto do meu ateliê, menos para os meus futuros espectadores.

Modelos contratados sem nome. Mas estava escancarado que eram uma família.

O garoto jogado no chão quase me fitava. Acho que sentia uma dor acumulada na nuca, ou qualquer desconforto cuja culpa eu jogava na madeira úmida do piso. O leque da outra mulher estava suspenso no espaço pela ausência espiritual da sua mão.

As dobras do pijama amarelo do rapaz mais velho serviam perfeitamente ao seu corpo exageradamente alto e à minha paleta de tintas. Elas não se alteraram ao longo das longas horas. Abri a torneira da pia do canto do cenário. A água correndo e ninguém com a intenção de estancá-la.

Mergulharam. Transcenderam. Eles não estavam mais ali. Estariam onde?

Penso que no interior de qualquer lugar deste universo – menos no interior do meu quadro.

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Este post foi uma humilde homenagem ao artista Lucian Freud, através de uma interpretação pessoal do quadro “O Interior”.

O sal das ondas fazia festas nas peles pálidas dos três meninos à beira da praia. Gritos altos e risos. Água gelada mudando os relevos da areia em volta dos corpos magros quase enterrados. Queriam engolir o mar. O menor engasgou por ter aberto demais a boca de felicidade, mas nem o pequeno pássaro verde refletido na poça de um ensaio de castelo de areia pareceu importar-se. A breve corrida pela orla contra o vento cortando os corpos molhados causou uma dor de frio até os ossos. Mais gritos. O traçado das tatuíras debaixo dos pés e por entre os dedos formava um belo quadro com o sol pincelando de azul a parte da areia que o mar acariciava. Lá ao longe, a torre de pingos desmanchava-se lentamente, condenando ao esquecimento certa experiência arquitetônica matinal. Os meninos não eram bons arquitetos – pelo menos não em grandes projetos como castelos. Em termos de mausoléus, sim. O dos olhos cor de mel já tinha apenas a cabeça para fora da areia lá pelas quatro e meia, quando desdobrou-se no horizonte um belo sol de fim de tarde. Pequenas tumbas cambiantes para aqueles que recém nasciam para mais uma brincadeira. Vida. A última onda gelada por cima das peles murchas dos breves e barulhentos donos da praia.

Chicos en la Playa de Joaquín Sorolla y Bastida

Eu estava remendando a velha saia de bolinhas quando tu chegaste pelas minhas costas e repreendeste-me com a doçura habitual. “Pra que usar a saia que foi da tia, foi da avó, foi de uma pera qualquer perdida entre os galhos da árvore genealógica?” Jogaste as bolinhas e peras no baú dos usados, e eu ajudei a trancá-lo. Nem que fosse por só alguns breves segundos. Breves sonhos, breves princesas, breves sorrisos. Breve toque da tua mão. Colocaste um pedaço de seda rosa no meu pescoço e puxaste a revista de moda emprestada da vizinha. Última edição, saia colorida na capa. Eu estava na tua capa – sempre estive. Gostaste do modelo, mas com uma pequena alteração na medida do evasê. Era o teu toque pessoal sempre deixando qualquer besteira um bocado mais elegante. “Não gostas de borboletas, né?” Eu nunca disse que não gostava, mas tudo bem. Tu separaras um florido de fundo branco, e eu não achei mal. Princesas. Breves. Inventavas uma nova e viva saia com um belo jardim na barra. Foi pra lá que eu me mudei, e deitei-me na relva verde. Senti a brisa causada pelas asas das borboletas a milhares de quilômetros de distância, já que tu as expulsaras. Mas o baú dos usados está sempre cheio, e volta e meia esparrama as velhas saias de bolinhas e as peras pelo chão… Quando vejo, lá estou eu remendando-as de novo, e espirrando por causa da poeira. Aí tu vens, me repreendes. E me reinventas dentro de uma nova e mais bonita saia.

Por ocasião do teu aniversário, ela subiu no mais alto telhado da sua Paris interior e recitou um poema de qualidade duvidosa. Havia te transformado em terceira pessoa, ainda que tu fosses a primeira na sua vida há algum tempo. Era um poema qualquer que falava de ti, mas também de léguas, mares, ventos… Não gritou porque sabia bem que tu a escutarias – mesmo que ela não falasse nada. Amassou o papelzinho contra o peito com vergonha de ter a autoria, mas apesar disso procurou os teus olhos no horizonte da noite escura – queria saber se o presente havia agradado o dono da festa. Porém, encontrou apenas retalhos de prédios formando os contornos da cidade a sudoeste. Foi então que ela teve uma ideia: transformar-se também em terceira pessoa. Quem sabe colocando os pronomes pessoais na mesma posição discursiva pudesse pelo menos te sentir mais perto… Sim, ele e ela. Soava bem.  Desamassou o papelzinho e trocou a conjugação dos verbos. Terminada a tarefa, recitou tudo de novo, e sentiu-se satisfeita: conseguira encontrar os teus olhos em uma das janelas das casas velhas, mudas aos seus pés. Rias da moça, não é mesmo? Ainda assim, ela estava feliz. Tão feliz que resolveu assoprar velas imaginadas em tua homenagem, fazer desejos. O desejo mais profundo – aquele que veio acompanhado de um abraço em volta do próprio corpo – era o de jogar o seu poeminha ao vento e voltar a ser primeira pessoa. Mas dessa vez contigo, e no plural.

2010

Nada, Júlia! Nada!

A frase ecoou pelo ambiente misturando-se aos reflexos nas vidraças da água da piscina. Júlia parou o treino e olhou em volta, tentando localizar a origem daquela voz masculina tão familiar. Ele não tinha morrido? Onde estava?

2004

Nada, Júlia. Não é nada…

Como assim, nada? A mão dele secando o suor da testa e o suspiro lento de quem carrega um camelo nas costas evidenciava mais do que o nada. Talvez o fim de um dia ruim e o início de uma noite pesada. Mas se ele não queria compartilhar o peso, tudo bem. Mais uma vez, ele ficava com tudo, e ela com…

2002

Nada, Júlia? Nada?

Nada, ora bolas! Não era nada que lhe quisesse contar. Nada que lhe dissesse respeito, afinal, já podia resolver seus próprios problemas. Se não contas os teus, não te conto os meus, tentava dizer só através do olhar adolescente. Fim de papo, boa noite. Trancou-se no quarto. Lágrimas.

1994

Naaaaaaaada, Júlia! Naaada!

Escutava de longe o grito e as braçadas dele na água barrenta, enquanto ela buscava o chão do fundo do lago. A vegetação grudando no rosto, o vestido volumoso puxando para baixo. Sensação de morte, sensação da chegada do

NADA!

A mão dele em volta da sua cintura, a água saindo pela boca. A textura da madeira do chão do barco, vida de novo. O beijo molhado na bochecha depois que ela abriu os olhos assustados de criança… Pai? Tô viva? O sorriso aliviado dele… Sim, filha. Não foi nada… Não foi nada…

2010

Nada, Júlia…. Não era nada.

A sua própria voz dentro da cabeça. Que ideia maluca, parecia mesmo que tinha ouvido a voz do pai morto! Devia ser o treino em demasia, percebeu nos dedos já murchos de tanto nadar. Não era nada de mais…

Mas por um instante resolveu parar. Júlia ousou desobedecer a ordem da sua cabeça e do pai de seu delírio. Deixou o corpo soltar-se no meio da água, no cheiro do cloro, no vazio do não querer lembrar. Boiou um pouco. Sentiu-se desfazer na piscina, na voz dele misturada com a própria voz.

Deixou-se submergir.

O braço dele não apareceu em volta da sua cintura, puxando-a para a superfície.

Sentiu aquele nada do não contado de noites de tanto para lhe contar, e também dele saber.

Dura verdade sentida. Sem ele, ela não era…

Nada, Júlia! Nada!

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O tema desta edição da Postagem Temática foi Nada. Minha sugestão para a próxima é Moda.

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