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Queria poder escrever no escuro. Deixar as silhuetas imaginadas da noite passarem pela navalha do lápis e sangrarem o papel.

A lâmpada afoga na garganta o grito. Ou o choro nervoso. A saudade de um beijo molhado no pescoço.

E aquela vontade de palavras que circula até as pontas dos dedos dos pés.

O roçar do forro da saia nas pernas roliças de Eleonora lhe fazia cócegas. Depois de duas ou três taças rasas de vinho rosê, ela esqueceu o requinte e tirou os calcanhares do sapatinho azul celeste. Secou com as costas da mão o leve suor que lhe escorria por detrás da nuca, e olhou para o salão, cheio de jovens fantasmas. “Belos moços”, refletiu. Daria um jeito de se encostar em algum só para se refrescar. Uma dança, uma valsa. Música, orquestra! Os instrumentos soltos no ar começaram aquela clássica em sol maior. Chutando o sapatinho para a esquina do pé da mesa, ofereceu-se ao alto de olhos claros. Tentou guiar o braço dele à sua cintura, mas a mão serelepe perdeu-se no através. Imagine só… Atravessa-lo. Que ideia maluca! Mas foi em frente. Atravessou o belo moço e passou-lhe até as costas um carinho fugaz. Por entre as coxas, o forro da saia rodada e o riso. Pelo entorno, gélida alma de vento de serra. Soluço! Saúde. Um brinde. A sinfonia. E uma pesada mão quente balançando o seu ombro. Mas que nojo deste suor nas costas! Olhou para o lado e…

– Eleonora? Acorda! Dormindo no meio da festa… Que feio! Vai dançar com o filho do conde que é bom partido, vai!

Ela rabiscou papéis, lençóis, as paredes da sala. Pegou seus pincéis e pintou o próprio corpo de azul. Riu com vontade, saiu correndo rua afora de pijamas. Pendurou desenhos nos varais dos vizinhos com prendedores de roupa de todas as cores e formatos.

Chegando no centro da cidade, pixou nos muros loucas frases de amor. Quebrou vitrines, rasgou gravatas, roubou laranjas e livros ilustrados. Fazia calor, e a calçada era tão quente quanto o seu próprio sangue. Deitou-se alí mesmo, e devaneou em voz alta por entre restos de lixo e gotas de suor.

Era isso que queria: mostrar para a cidade inteira que não precisava comprar e nem vender nada para ter uma fatia de alegria em grito. Não precisava fazer algum sentido. Só precisava de algumas frases belas, nunca ensaiadas. Imagens que estavam do lado de dentro, por baixo das suas pálpebras fechadas.

Gritou gratuitamente. Ninguém pagaria mesmo por aquele estardalhaço. Mas foi bom. Foi bom sentir dentro de si sangue circulando. Quente. Sem taxas, sem nada, só com a vontade.

Já passou-se um ano, e ninguém a recolheu daquela rua… Ainda pode ser encontrada distribuindo migalhas de pensamentos: breves devaneios.

Devaneios grátis.

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A besteira acima é uma comemoração ao aniversário de um ano do Devaneios Grátis. Obrigada a todos que continuam dando trela para a mocinha do texto. Ah, ela prevê uma mudança de rumo: me contou que está com vontade de tirar as mãos de cima das próprias pálpebras.

Noite dentro do quarto. Noite densa verde-esmeralda.

Os milhares de homenzinhos do quadro tocam rock’n’rool no volume da imaginação.

Cócegas no calcanhar do pé da cama. Um copo com um milésimo de gota de leite. Dentro do armário.

Um bichano espreguiçando-se por entre as roupas sujas no chão da testa. Um elefante passeia no relógio do último aniversário.

Lá está Ghandi. Tem o Che, também.

Alguém pode pedir uma música pros homenzinhos? Toca um blues do Mississipi, que é na esquina depois do sono.

Não, não. Breathe in the air.

Mas o ar tem cheiro de grama úmida. Aquela que deu dor na bexiga,  quando eras criança.

Atchim. Saúde. Um brinde!

Lá vem a maldita fábula de antes de dormir.

Esmeralda verde-densa. Noite.

Quarto dentro das constelações. No teto do dia nublado.

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