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Pedalando em círculos no quintal da casa em que nasceu, Pedro notou que se passara apenas um breve cochilo desde que tivera a centimétrica coragem de tirar os pés do chão e colocá-los nos pedais da bicicleta. “Passou rápido, voando”, ressoou o irritante clichê no interno da caixa craniana. Irritante por ser completamente verdadeiro – assim como a maioria dos clichês que dizem por aí as pessoas chatas. Parecia que não acontecera absolutamente nada desde que aprendera a pedalar, a não ser a sensação gostosa de autonomia que experimentara ao longo dos 30 primeiros segundos de sua vida que transcorreram sobre a bicicleta. Depois disso, sempre a mesmice. Sempre as mágoas. Sempre o desconforto. Sempre o soar repetitivo das pedrinhas do chão que se deslocavam sob o peso das rodas. “Por isso passou tão rápido”, refletiu. Era a falta de ação (da sua parte). Mergulhou então no circular silêncio interior em que enterrava tudo. A última coisa nele sepulta fora a desgostosa ironia feita por Daiana sobre a incapacidade dele de pedalar em linha reta. Daiana tinha um sorriso bonito quando não era irônico. Pedro guardava todas as mágoas no silêncio da caixa toráxica, na tentativa de expulsá-las da caixa craniana. Ali, mais uma vez, ecoava: “Passou rápido, voando”. Clichê verdade acidental. A centimétrica coragem de manter os lábios cerrados era um pouco menos longa do que a centimétrica coragem que tivera aos 9 para colocar os pés nos pedais. “Se gritasse na cara de Daiana minhas mágoas, eu sentiria mais uma vez os trinta segundos de prazer da primeira vez que pedalei?”, pensou.

Pedro completou 78 anos pedalando em círculos no quintal da casa em que nasceu, ouvindo as pedrinhas darem espaço às rodas de sua bicicleta.

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Ela sempre pensou que deixaria de ser criança e viraria adulta no momento em que passasse a preferir torta de marta-rocha a nega maluca. Ou então quando gostasse mais de comer a casca do pão do que o seu miolo. O caráter gastronômico das suas reflexões não significa que ela tenha sido uma criança gordinha, ou que seja uma adulta obesa. De forma alguma. Para o fato de estes aspectos sempre terem lhe saltado às vistas, não há uma explicação lógica.

Só sabia que não compreendia o prazer de quando o pai levava o pedaço de torta branca até a boca, recusando um magnífico pedaço de torta preta, ou então o seu molhar de dedos com a saliva para recolher as casquinhas de pão francês que despencavam em seu mastigar sobre a toalha. Se as suas reflexões acerca da maturidade durante a infância estavam corretas, continua sendo uma perfeita pirralha, comendo nega maluca e miolo de pão.

Mas existe um ponto sobre o qual não refletiu naquela época, e que nesta noite a coloca sentada na cama: a maturidade na solidão. Admirava-lhe lá pelos 8 a desenvoltura com a qual o pai dormia no escuro, e inclusive apagava a luz do próprio quarto, enquanto a pequena não poderia imaginar desligar o abajour com a digna certeza da fileira de fantasmas que enxergaria ao lado da sua cama.

Amizade com eles: esse é o segredo do adultescer. Cresceu, sim, pois sua solidão já não é mais a mesma. Hoje já aperta as mãos dos fantasmas, e deseja bons sonhos a cada um que coloca os dedos frios sobre as suas pálpebras lá pelas 00:00. Tranquila. O único problema é que eles não lhe desejam bons sonhos. Na verdade, sopram gélidos por detrás da sua nuca.

Ela enterra a cabeça no lençol até a orelha. Os fantasmas não param de soprar a noite inteira, porém, ao mesmo tempo que causam o incômodo, não provocam medo algum. Adultesceu, ainda que comendo miolo de pão e nega maluca. Sim, sente-se só, mas só na própria coragem frente ao escuro. Dolorida.

Ou, talvez, pela diferença entre um pólo e outro das suas nem tão complexas classificações de maturação humana, ela esteja no meio do caminho. Eu sigo lhe sugerindo com segurança: que tal ligar o abajour, e passar o relógio de trás pra frente? Mas, de que adianta… Ela acredita que um dia terá a respiração quente de alguém por detrás de seu pescoço enquanto dorme, e um braço em volta do seu ventre. Pobrezinha. Dorme, come, sonha. Adolescente criatura.

Da infância, ela só lembra da textura da camisola da mãe acariciando as suas bochechas. Sentia a malha de algodão quando tinha a cabecinha repousada no seu peito durante as crises de asma. Ficou também soando no ouvido a melodia suave destas ocasiões: uma canção religiosa que a mãe afirmava ser a mesma que São Paulo cantara para se libertar milagrosamente da prisão romana. Mas naquelas horas, a música virava apenas uma espécie de mantra. Sabiam bem letra, mas as notas soltas no ar frio do quarto eram o suficiente para abafar a tosse da pequena adoentada. Não se recorda como conseguia, mas sempre adormecia. Sempre. Sem correntes, e milagrosamente sem tosse. Livre – não era como o apóstolo da história, o Paulo?

2010

Nada, Júlia! Nada!

A frase ecoou pelo ambiente misturando-se aos reflexos nas vidraças da água da piscina. Júlia parou o treino e olhou em volta, tentando localizar a origem daquela voz masculina tão familiar. Ele não tinha morrido? Onde estava?

2004

Nada, Júlia. Não é nada…

Como assim, nada? A mão dele secando o suor da testa e o suspiro lento de quem carrega um camelo nas costas evidenciava mais do que o nada. Talvez o fim de um dia ruim e o início de uma noite pesada. Mas se ele não queria compartilhar o peso, tudo bem. Mais uma vez, ele ficava com tudo, e ela com…

2002

Nada, Júlia? Nada?

Nada, ora bolas! Não era nada que lhe quisesse contar. Nada que lhe dissesse respeito, afinal, já podia resolver seus próprios problemas. Se não contas os teus, não te conto os meus, tentava dizer só através do olhar adolescente. Fim de papo, boa noite. Trancou-se no quarto. Lágrimas.

1994

Naaaaaaaada, Júlia! Naaada!

Escutava de longe o grito e as braçadas dele na água barrenta, enquanto ela buscava o chão do fundo do lago. A vegetação grudando no rosto, o vestido volumoso puxando para baixo. Sensação de morte, sensação da chegada do

NADA!

A mão dele em volta da sua cintura, a água saindo pela boca. A textura da madeira do chão do barco, vida de novo. O beijo molhado na bochecha depois que ela abriu os olhos assustados de criança… Pai? Tô viva? O sorriso aliviado dele… Sim, filha. Não foi nada… Não foi nada…

2010

Nada, Júlia…. Não era nada.

A sua própria voz dentro da cabeça. Que ideia maluca, parecia mesmo que tinha ouvido a voz do pai morto! Devia ser o treino em demasia, percebeu nos dedos já murchos de tanto nadar. Não era nada de mais…

Mas por um instante resolveu parar. Júlia ousou desobedecer a ordem da sua cabeça e do pai de seu delírio. Deixou o corpo soltar-se no meio da água, no cheiro do cloro, no vazio do não querer lembrar. Boiou um pouco. Sentiu-se desfazer na piscina, na voz dele misturada com a própria voz.

Deixou-se submergir.

O braço dele não apareceu em volta da sua cintura, puxando-a para a superfície.

Sentiu aquele nada do não contado de noites de tanto para lhe contar, e também dele saber.

Dura verdade sentida. Sem ele, ela não era…

Nada, Júlia! Nada!

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O tema desta edição da Postagem Temática foi Nada. Minha sugestão para a próxima é Moda.

Às vezes ela deixava a janela da sua casa entreaberta para que algum transeunte menos distraído notasse a violeta do parapeito combinando com a cortina. Porém, naquela tarde, alguma brisa do oeste inspirou o desejo repentino de abrir também a porta e compartilhar o seu bule de chá.

O moço entrou, acomodou-se confortavelmente na poltrona e falou com alguns pormenores sobre a sua própria casa. Combinação estupenda! Ambos apreciavam a decoração em verde escuro, louça pintada à mão e toca-discos na sala de estar.

O problema era o relógio. O de um era branco e prata com ponteiros negros, e o de outro era retrô de madeira com um pêndulo que marcava cada hora com uma melodia muito particular.

17:45. Às seis, o carro da mudança. A moça viajaria para ver novas janelas e novas portas.

Ele não teve tempo de contar a ela sobre a goteira da sua cozinha, e nem sobre o azulejo do banheiro que caíra na semana anterior por causa da umidade. Tampouco ela lhe falou sobre os cupins que enchiam o quarto com a poeira fina de madeira, destruindo a sua escrivaninha de trabalho.

Ele nunca se importava com os cupins. Tinha folhas de louro espalhadas pela casa para espantar a praga. Ela, por sua vez, nunca se preocupava com goteiras. Até colocava as suas plantas debaixo dos buracos do teto para que lentamente fossem regadas nos meses de chuva.

Goteiras. Cupins. Janelas. Cortinas. Toca-discos. Sentimento. Repentino.

Tudo dentro de uma casa que ainda não tinha como existir.

Malditos relógios que não combinavam.

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