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Queria poder escrever no escuro. Deixar as silhuetas imaginadas da noite passarem pela navalha do lápis e sangrarem o papel.

A lâmpada afoga na garganta o grito. Ou o choro nervoso. A saudade de um beijo molhado no pescoço.

E aquela vontade de palavras que circula até as pontas dos dedos dos pés.

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Era ela dentre todas as coisas bonitas que jamais vi. Sorriso discreto, refinado quase que por esforço – apesar da infantilidade escancarada na gotinha de travessura colada por detrás da pupila. Maldosa de leve. Peste de mansinho. Portava na cabeça raios louros do sol no meio da dança fria de guarda-chuvas e vestidos cor de chumbo. Sim, sim, já dizia Renoir: pour moi un tableau doit être une chose aimable, joyese et jolie, oui jolie! Tão agradável, alegre, bonito. Um quadro deve ser, para mim. Eu não diria só do quadro, mas também da própria vida. E ela era a minha vida, a menina: agradável alegre bonita. Tanto.

 

"Os guarda-chuvas" de Pierre Auguste Renoir (1881-1885)

Pena que a menina não existia.

Como a vida deve ser.

Ela sempre pensou que deixaria de ser criança e viraria adulta no momento em que passasse a preferir torta de marta-rocha a nega maluca. Ou então quando gostasse mais de comer a casca do pão do que o seu miolo. O caráter gastronômico das suas reflexões não significa que ela tenha sido uma criança gordinha, ou que seja uma adulta obesa. De forma alguma. Para o fato de estes aspectos sempre terem lhe saltado às vistas, não há uma explicação lógica.

Só sabia que não compreendia o prazer de quando o pai levava o pedaço de torta branca até a boca, recusando um magnífico pedaço de torta preta, ou então o seu molhar de dedos com a saliva para recolher as casquinhas de pão francês que despencavam em seu mastigar sobre a toalha. Se as suas reflexões acerca da maturidade durante a infância estavam corretas, continua sendo uma perfeita pirralha, comendo nega maluca e miolo de pão.

Mas existe um ponto sobre o qual não refletiu naquela época, e que nesta noite a coloca sentada na cama: a maturidade na solidão. Admirava-lhe lá pelos 8 a desenvoltura com a qual o pai dormia no escuro, e inclusive apagava a luz do próprio quarto, enquanto a pequena não poderia imaginar desligar o abajour com a digna certeza da fileira de fantasmas que enxergaria ao lado da sua cama.

Amizade com eles: esse é o segredo do adultescer. Cresceu, sim, pois sua solidão já não é mais a mesma. Hoje já aperta as mãos dos fantasmas, e deseja bons sonhos a cada um que coloca os dedos frios sobre as suas pálpebras lá pelas 00:00. Tranquila. O único problema é que eles não lhe desejam bons sonhos. Na verdade, sopram gélidos por detrás da sua nuca.

Ela enterra a cabeça no lençol até a orelha. Os fantasmas não param de soprar a noite inteira, porém, ao mesmo tempo que causam o incômodo, não provocam medo algum. Adultesceu, ainda que comendo miolo de pão e nega maluca. Sim, sente-se só, mas só na própria coragem frente ao escuro. Dolorida.

Ou, talvez, pela diferença entre um pólo e outro das suas nem tão complexas classificações de maturação humana, ela esteja no meio do caminho. Eu sigo lhe sugerindo com segurança: que tal ligar o abajour, e passar o relógio de trás pra frente? Mas, de que adianta… Ela acredita que um dia terá a respiração quente de alguém por detrás de seu pescoço enquanto dorme, e um braço em volta do seu ventre. Pobrezinha. Dorme, come, sonha. Adolescente criatura.

Ela rabiscou papéis, lençóis, as paredes da sala. Pegou seus pincéis e pintou o próprio corpo de azul. Riu com vontade, saiu correndo rua afora de pijamas. Pendurou desenhos nos varais dos vizinhos com prendedores de roupa de todas as cores e formatos.

Chegando no centro da cidade, pixou nos muros loucas frases de amor. Quebrou vitrines, rasgou gravatas, roubou laranjas e livros ilustrados. Fazia calor, e a calçada era tão quente quanto o seu próprio sangue. Deitou-se alí mesmo, e devaneou em voz alta por entre restos de lixo e gotas de suor.

Era isso que queria: mostrar para a cidade inteira que não precisava comprar e nem vender nada para ter uma fatia de alegria em grito. Não precisava fazer algum sentido. Só precisava de algumas frases belas, nunca ensaiadas. Imagens que estavam do lado de dentro, por baixo das suas pálpebras fechadas.

Gritou gratuitamente. Ninguém pagaria mesmo por aquele estardalhaço. Mas foi bom. Foi bom sentir dentro de si sangue circulando. Quente. Sem taxas, sem nada, só com a vontade.

Já passou-se um ano, e ninguém a recolheu daquela rua… Ainda pode ser encontrada distribuindo migalhas de pensamentos: breves devaneios.

Devaneios grátis.

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A besteira acima é uma comemoração ao aniversário de um ano do Devaneios Grátis. Obrigada a todos que continuam dando trela para a mocinha do texto. Ah, ela prevê uma mudança de rumo: me contou que está com vontade de tirar as mãos de cima das próprias pálpebras.

Eu estava remendando a velha saia de bolinhas quando tu chegaste pelas minhas costas e repreendeste-me com a doçura habitual. “Pra que usar a saia que foi da tia, foi da avó, foi de uma pera qualquer perdida entre os galhos da árvore genealógica?” Jogaste as bolinhas e peras no baú dos usados, e eu ajudei a trancá-lo. Nem que fosse por só alguns breves segundos. Breves sonhos, breves princesas, breves sorrisos. Breve toque da tua mão. Colocaste um pedaço de seda rosa no meu pescoço e puxaste a revista de moda emprestada da vizinha. Última edição, saia colorida na capa. Eu estava na tua capa – sempre estive. Gostaste do modelo, mas com uma pequena alteração na medida do evasê. Era o teu toque pessoal sempre deixando qualquer besteira um bocado mais elegante. “Não gostas de borboletas, né?” Eu nunca disse que não gostava, mas tudo bem. Tu separaras um florido de fundo branco, e eu não achei mal. Princesas. Breves. Inventavas uma nova e viva saia com um belo jardim na barra. Foi pra lá que eu me mudei, e deitei-me na relva verde. Senti a brisa causada pelas asas das borboletas a milhares de quilômetros de distância, já que tu as expulsaras. Mas o baú dos usados está sempre cheio, e volta e meia esparrama as velhas saias de bolinhas e as peras pelo chão… Quando vejo, lá estou eu remendando-as de novo, e espirrando por causa da poeira. Aí tu vens, me repreendes. E me reinventas dentro de uma nova e mais bonita saia.

E lá ia a fome escorregar brincalhona pelas paredes do seu estômago. Ele já não se importava mais com ela. Já não lhe dizia “a tua brincadeira não tem nenhuma graça”. Não, até porque, se o dissesse, seria mentira. Depois de dias sem colocar nada na boca, a sensação do oco era quase agradável.

A fome lhe fazia cócegas, e ele nem ligava.

Querido, outra vez não vens jantar?

O tom de súplica da voz da mulher não lhe comoveu. Jantar? Não mesmo! Só daria a alguma comida a honra de entrar no seu estômago de artista se essa comida fosse por ele confeccionada. Nenhuma outra serviria. Só deixaria escorregar pelas suas papilas o gosto das suas pêras, das suas maçãs, dos seus pedaços de melancia. Tudo isso só seria feito sobre a sua mesa, coberta com a bela toalha de algodão azul por ele adornada com detalhes amarelos em pequenos laços de fita.

O vermelho das maçãs estava quase perfeito. Só mais algumas pinceladas de amarelo para chegar ao brilho certo em relação à luz da janela imaginada à direita da mesa, um pouco acima do ponto de fuga. Eram maçãs dignas da corte real, certeza! Completamente em harmonia com o azul da toalha, até na parte que se enrugara um pouco abaixo do cesto de palha.

Alguns retoques a mais e a sua refeição estaria pronta. Começou a salivar.

Mas ainda faltava algo no trançado da palha do cesto… Não sabia ao certo. Intuiu que acrescentando um pouco de branco à parte da cena que a luz lambia chegaria ao palpável, às três dimensões, ao comestível.

Empenhou-se alí por mais três horas. Não ouviu os apelos da esposa que há dias o chamava.

Não vens? Tudo bem! Coma essa maldita tela e não reclame se ela tiver gosto podre, de tão madura!

Ela bateu a porta com toda a sua força, mas ele não escutara.

Uma vertigem, uma dor na nuca.

Só mais um pouco daquela mistura entre o lilás 4,5 e o marrom que a indústria de tinta a óleo ainda não havia inventado. Estava quase lá.

Aquele quase… Aquele quase que por mais uma noite não o deixaria dormir.

Fechou os olhos por alguns segundos, e quando os reabriu, viu a sua tela um pouco turva. A fome começava a lhe pregar peças de mau gosto. As suas frutas estavam em leve desfoque. Fechou mais uma vez os olhos, prendeu a respiração. Aproximou os dedos multicoloridos à tela, especificamente à maçã que estava metade à sombra.

O toque.

Conseguira. Sentiu a textura da casca da sua maçã na palma da mão. Abriu lentamente a boca em um sorriso que antecipava o gosto de fruta fresca. “Quem ri por último ri melhor”, pensou quando a fome transpassou-lhe o estômago, rindo-lhe da cara.

Os joelhos se dobraram. O pintor escorregou pelo chão do ateliê com a bela maçã entre os dedos. Não quis abrir os olhos.

Sua natureza já não era mais morta. E ele, satisfeito, já poderia morrer em paz.

“o escrito não passa de escórias do vivido”.
ok. menos de 140 caracteres.
upload.
quem twittou foi Kafka. um tal.
followers? ah, ele devia ter uns tantos.
doidos seguindo doidos.
twittando desde mil oitocentos e bicos.
talvez antes. talvez com a invenção da escrita.
só nao dava pra ver a frase colorida na tela com a foto do twitteiro feliz.
claro, naquela época também não dava pra colocar os links.
mas assim caminha a humanidade. enchendo a comunicação de perecotecos.
fragmentos de ideias. jogados por aí.
escórias do vivido, de acordo com o twitteiro homenageado do dia.
@franzkafka pra que escrever?
ah, escórias do vivido também têm um tantinho de vida.
talvez, até mais do que isso.
140 caracteres…
“eu te amo” tem só 9 e faz um impacto danado em certas moças por aí.
o tamanho da escória nao é o documento da escória.
bom. ou é. pra quem nao sabe twittar.
@franzkafka me ensina?
A gente pode colocar um laço azul em todo esse lixo.
e fazer bem feito.
se não quiseres, tudo bem. podemos trocar uns emoticons.
afinal, são só escórias mesmo.
escórias. bem menores do que a vida.
escórias não tomam o lugar da vida.
tomam?
@franzkafka :/

.

O tema dessa edição da Postagem Temática foi twitter.
Para a próxima, vou repetir a idéia que eu já tinha dado. Que tal falar sobre fotografia?

Que nem o cigarro daquele fulano.

Cigarro prometido ser o último.

Na esquina da Floriano Peixoto com a Otávio Rocha, ele dá as últimas tragadas com ares quase naturais.

Quase. Não fosse a delícia estampada no rosto traduzindo a sensação de cada partícula de veneno da fumaça encostando nas papilas e no ar gelado de uma segunda-feira bem comum.

É, deve ser o último. Só pode. Se não o Fulano não o empunharia daquele jeito. Uma espécie de carinho. Afinal, é um carinho em relação à própria morte. Um suicídio semi-intencional (isso existe?).

É um colocar pra dentro sujeira. Afundar-se na fumaça preta.

Lembra a fumaça do churrasco na casa da avó, em 1957. O vento trazia para o pátio a brisa negra que saía da chaminé. A vó corria para recolher as camisolas brancas e os panos de prato recém lavados do varal. O Fulano, esse ficava. Do alto dos seus 10 anos, ou algo próximo disso, ele mantinha o seu direito de feder à carvão ao som dos gritos da mãe.

– Menino, vem pra dentro!

A mãe, essa já não deve mais gritar. Hoje, a fumaça é a do cigarro, e não mais a da churrasqueira.

A sujeira negra vai invadindo as vias respiratórias. Mas essa sujeira não parece ser tão feia quanto aquela que o médico de avental branco e face lisa mostrou no programa de TV da noite anterior. Será que o Fulano assistiu? Será que por isso decidiu transformar o cigarro da manhã no último cigarro de todas as manhãs da eternidade?

Na TV, as pintas pretas que o fumar vai deixando no pulmão molhado e cor-de-rosa de um cidadão comum assustam. O cigarro do Fulano não deve ser assim. A fumaça do cigarro dele deve é acariciar e fazer cócegas na superfície úmida desses órgãos que nao servem pra mais nada, a não ser…

Respirar.

R.e.s.p.i.r.ar.

Pra que respirar, se não vai mais haver o último cigarro? Haverá vida depois desse último cigarro fumado próximo da floricultura e da banca de revistas do seu Antunes que brigou com o desenhista de rostos que espalhou seus retratos pela rua e que não conseguiu pagar o aluguel do apartamento a duas quadras virando à direita que a esposa escolheu no dia dos 10 anos de casamento que foi também quando ela decidiu parar de fumar porque descobrira que estava esperando um filho e passou a brigar todos os dias com a vizinha por causa do tapete que insistia em parar na frente da porta alheia?

Respirar o último cigarro. Pra depois parar de respirar.

Seu Fulano parece ser persistente. Ele vai conseguir.

A não ser que o último cigarro de toda a eternidade de amanhã escorregue pelas dobras da saia do centro de Porto Alegre e acabe caindo mais uma vez entre os dedos de seu Fulano.

Mas a vida… A vida. Essa deve ter sido inventada para ser fumada. Bem devagarinho.

Que nem o último cigarro. Daquele fulano.

Sempre chega aquele momento em que tu olhas para o teu blog e vês que mantê-lo não é tão simples.

Crises de criatividade. Tralhas que eu costumo guardar. Estão sempre no meu bolso, mas às vezes elas pulam pra dentro do casaco e chegam na caixola.

Ainda bem que sempre dá pra recorrer aos bons e velhos amigos célebres e mortos (viva os adjetivos!) para puxar essas crises da caixola de volta pro bolso.

O segredo da criatividade é saber como esconder as fontes.
Albert Einstein

Reflexão de Lavoisier ao descobrir que lhe haviam roubado a carteira: nada se perde, tudo muda de dono.
Mário Quintana

O maior inimigo da criatividade é o bom senso.
Pablo Picasso

Esses que puxam conversa sobre se chove ou não chove – não poderão ir para o Céu! Lá faz sempre bom tempo…
Mário Quintana

Pouisé.

Será que chove hoje?

*Tópico realizado com a ajuda da super criativa Nives Sirena. Ela é tri amiga dessa gente célebre e inspiradora citada acima.

A atração é anunciada. Os palhaços correm entre o som das palmas e da música estridente. O acento no fim de cada trecho de frase. A língua italiana por si só já é uma graça.

Mas uma frase perturbadora vai parar na boca de um dos personagens do grande circo.

Em alto e bom som, cores e gestos:

Una vera sirena! Come tutti i pesci, ha il sangue freddo!

O filme é I Clown, de 1970. Frederico Fellini. Legendas em italiano em uma noite quente de fevereiro.

Um momento de pausa. Stop + Rew. Aparece a sereia, ou melhor, a mulher fantasiada de sereia. Faz parte do show. Por que ela não retruca?

É claro. Não é ‘una vera sirena’, como fora anunciada. É uma mentira. O circo, uma encenação. As risadas, desculpa para enclausurar a classe das sirenas em um aquário gelado. Come tutti i pesci…

Una vera Sirena? Aqui estou eu. E posso mostrar como é o sangue de sereia. Non é freddo. Isso eu garanto. Vamos ver até onde essa história pode chegar.

Grazie, Fellini! Pelo desafio proposto.

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